Emoções negativas

Heloisa Ferreira da Costa

Costuma-se mostrar o lado bom, das virtudes, e o mau permanece escondido

Houve um tempo em que os discos de músicas eram feitos de vinil. Havia o Long Play, com várias músicas, e o compacto, aquele pequeno que trazia apenas duas canções, uma no lado "A" que era a mais bonita, a que estava na moda e outra do mesmo artista no lado "B", a qual geralmente não era tão boa, mas o disco precisava ser preenchido, então era gravada.

Na maioria das vezes ouvíamos só o lado "A", ninguém gostava muito da música do lado "B", assim como ninguém gosta de admitir que tem um lado "B" na sua personalidade, um lado sombrio, mas é fundamental conhecer de perto essas emoções negativas para mudar o que incomoda.

Todo ser humano tem esse outro lado, inferior, de sentimentos negativos. Mostra-se somente o lado bom, o das virtudes, como desapego às coisas materiais, generosidade, humildade, serenidade e pureza; o outro lado está sempre escondido, aparecendo quando provocado.

O problema não é ter esse outro lado, isso todos têm, o problema é não o reconhecer, ignorá-lo, negar a sua existência, creditando os erros às interferências exteriores, estresse, excesso de trabalho, frustrações etc. Assim agindo, sem reconhecimento de um lado da própria personalidade, não se pode corrigi-la. O psicanalista suíço Carl Jung dizia que é melhor ser inteiro que ser bom.

DEFEITOS. Mesmo freqüentando uma filosofia espiritualista, não adianta o ser julgar que não tem defeitos. Se está vivo, com certeza os tem, caso contrário esta vida atual terminaria, porque o objetivo desta e de todas as existências físicas é a evolução espiritual. Portanto, não adianta negar, o lado "B" está aí, dentro de cada ser encarnado, e quanto mais cedo for reconhecido melhor será para sua correção e conseqüente evolução do ser.

Quantas vezes a pessoa não se encontra em situações em que se sente injustiçada, quando o autocontrole está no limite e vem um impulso de falar tudo que lhe é intuído, provavelmente por forças inferiores, que tudo fazem para que o lado "B" toque o dia inteiro? Essas intuições são atraídas exatamente por se negar a existência do lado sombrio interno, os pensamentos vêm e vão, cada vez mais freqüentes, e quando o indivíduo percebe já está no início da obsessão, começa a se sentir irritado, sem razão aparente, seu trabalho se torna enfadonho, seus familiares parecem existir só para dificultar-lhe a vida, uma verdadeira conspiração para a perda da paz interior.

O astral inferior não dorme, está sempre à espreita, esperando, ouvindo os pensamentos, instigando os ruins, de forma tão sutil que poucos a percebem; só há uma maneira de ultrapassar o padrão reativo emocional: é ter consciência dele.

A palavra emoção tem a mesma origem da palavra movimento, e o que tem movimento tem vida. São as emoções que nos impulsionam à ação e que nos fazem sentir o gosto da vida. Tanto as emoções negativas como as positivas fazem parte dela, estão presentes em todos os animais, a única diferença entre os outros animais e o homem é que este pode raciocinar sobre as emoções e, se necessário, redirecionar o comportamento a partir da observação e da inteligência.

Voltando ao disco compacto: acabávamos ouvindo o lado "B", até porque nos cansávamos de ouvir apenas uma canção e, depois de ouvi-la mais vezes no lugar da principal, ela até se tornava interessante porque era do mesmo artista de que gostávamos e a melodia se tornava familiar.

Nessa analogia, no caso desse outro lado que existe em cada um, acontece a mesma coisa, o protagonista é conhecido, negar a existência das emoções negativas é negar a si mesmo. Torna-se necessário, então, cultivar emoções positivas, como a bondade, a generosidade, a simpatia e a compaixão, assim as emoções negativas vão diminuindo. Quem cultiva a tolerância, por exemplo, terá pouco espaço para a raiva, uma emoção tende a anular a outra, mudando uma canção ruim para uma melodia agradável.

Não é preciso ter vergonha de reconhecer emoções inferiores, o importante é não se deixar dominar por elas, nas palavras da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2007, Doris Lessing: "Só tenho vergonha das mentiras que contei a mim mesma", disse.

O domínio de si mesmo assegura ao espírito humano o controle íntimo, evitando os atos impulsivos e as atitudes impensadas que o possam levar a cometer desatinos, aprenda a controlar os nervos, usando o poder da vontade, e não alimente discussões, sejam quais forem.

Não tenha medo de virar o disco, ouça o que há do outro lado, os sentimentos negativos fazem parte da história individual de cada um, são defeitos oriundos de várias existências pregressas e que necessitam ser reconhecidos para poderem ser extintos.

A autora é militante da Filial Marília - SP

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