A importância de buscar o equilíbrio

Maria Cristina Silva Pereira

Consideremos a seguinte cena: num passeio pelo litoral, uma onda inesperada varre o convés de um barco e uma criança é lançada à água. Entre as pessoas presentes a essa ocorrência, algumas chamam a atenção. Uma, o Senhor A, que tem muito medo do perigo que a água representa, procura local seguro no barco para abrigar-se. Prefere passar despercebido e não ser chamado a ajudar.

O segundo destaque, o Senhor B, joga-se na água com o único propósito de salvar a criança, esquecendo, por completo, que não sabe nadar. Essa situação mostra dois extremos contrastantes, meros exemplos de possíveis sentimentos, comportamentos e atitudes humanos.

Não só o homem, mas toda a natureza manifesta contrastes: o claro se opõe ao escuro, o seco, ao molhado, o quente, ao frio.

A tradicional e milenar medicina chinesa reconhece essa dualidade, leva em consideração a gradação da intensidade das particularidades humanas e propõe o uso de elementos naturais para estabelecer o equilíbrio que leva à saúde.

Por volta do ano 400 a.C., na Grécia Antiga, Hipócrates, hoje considerado o pai da medicina, propunha a necessidade de se conhecer a natureza do homem através de seus atributos individuais. Afirmava que havia doentes e não doenças, e que os aspectos emocionais e comportamentais individualizam as reações do organismo, podendo levar a doenças.

Esse conceito antigo ganhou força no século XVIII da nossa era, mais precisamente em 1796, com as ideias de Samuel Hahnemann, ao lançar os fundamentos da homeopatia. Para ele, o homem doente é anterior ao corpo doente.

O objetivo dessa terapia é mobilizar o doente em direção à harmonia (reorganização do paciente), com melhoria global e consequente desaparecimento das doenças. Ou seja, na visão homeopática, emoções e comportamentos exacerbados, extremados, estão atrelados a manifestações doentias no corpo físico e a amenização desses comportamentos pode levar à cura.

O livro Racionalismo Cristão (44ª edição, pág. 73) afirma que as desordens do espírito, nas quais se incluem, com destaque, as perturbações emocionais, são a causa de grande parte dos desarranjos físicos, formando todo um quadro de anormalidades e doenças. Não estamos falando das variações de humor que normalmente apresentamos em face dos acontecimentos da vida. Essa reação é normal e saudável. O problema reside no modo de ser em longo prazo, em que as reações e atitudes são costumeiramente extremadas.

Por que será que no caso do ser humano, que é um espírito em evolução (Força) encarnado num corpo físico (Matéria), essa dualidade é tão problemática, frágil, sujeita a desequilíbrios que podem levar às doenças?

A resposta, provavelmente, encontra-se na individualidade de cada espírito, diz respeito ao seu grau evolutivo, ao uso adequado ou não que faz de seu livre-arbítrio e ao nível de desenvolvimento de seus atributos.

É ainda no livro Racionalismo Cristão (44ª edição, pág. 47) que vamos encontrar o caminho para a superação desses obstáculos: ... A calma, a serenidade, a moderação, as atitudes ponderadas, a reflexão, o critério e o bom senso são qualidades reveladoras de equilíbrio mental, por meio do qual a pessoa, no torvelinho da existência terrena, procede com maior segurança e se abstém da prática dos erros comuns.

Os seres humanos não são iguais. É necessário lembrar que estamos num mundo de escolaridade. Alguns de nós já desenvolveram essas qualidades, outros precisam passar por essa aprendizagem. O quanto antes pudermos aprimorar essas atitudes, mais fortes estaremos para prosseguir na nossa jornada evolutiva.

Uma forma de se dar esse importante passo com mais presteza é pela conscientização. Precisamos aprender a fazer um exame detalhado e imparcial de nossa maneira de ser. Quais aspectos precisam ser melhorados?

A partir dessa identificação e apoiados nos ensinamentos contidos na obra essencial do Racionalismo Cristão, poderemos rever e reorientar nossos procedimentos do dia-a-dia. Muito útil nesta empreitada é a adoção dos princípios racionalistas cristãos como regras de conduta.

Atentos ao princípio de que a saúde do corpo depende do bom estado da alma (Princípio de número 16, Racionalismo Cristão, 44ª edição, pág. 144), estaremos promovendo nossa saúde física ou poderemos buscar a reconquista da saúde se alguma doença já se tiver manifestado.

Voltando ao exemplo da natureza, entre os extremos sempre há o meio-termo: entre o claro e o escuro há a penumbra; entre o seco e o molhado, há o úmido; entre o quente e o frio, há o morno.

Na definição das linhas do caráter, todos deverão considerar o meio-termo, a posição equidistante dos extremos, em que o equilíbrio se estabelece e refulgem as qualidades, os ideais construtivos, que engrandecem o espírito, fazendo-o crescer na escala ascendente da evolução. (Racionalismo Cristão, 44ª edição, pág. 132).

Na cena que introduziu este artigo, em contraposição ao Senhor A, que muitos poderiam considerar um covarde, e o Senhor B, que poderia ser considerado um homem destemido, encontramos um terceiro personagem, o Senhor C. Com muito cuidado analisou toda a situação, muniu-se de todos os apetrechos de segurança presentes no barco e só então pulou na água. Conseguiu salvar a criança e o Senhor B do afogamento, preservando sua própria vida. Para muitos ele seria, apenas, um homem corajoso.

(A autora é frequentadora da Filial Santos-SP)

 

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