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Estradas, viagens, pensamento...
Heloísa Ferreira da Costa
A profissão, às vezes, nos obriga a viajar muito, seja para estudar ou trabalhar. Ando
sempre para lá e para cá, e descobri que as viagens podem servir para nos ensinar
bastante. Para meditar não é preciso que se esteja sentado em posição de lótus, com
as mãos espalmadas e com os olhos fechados, podemos fazê-lo em qualquer situação, e
não há lugar melhor para se refletir sobre a vida do que numa estrada, observando as
coisas da natureza.
A estrada me ensinou a esperar sempre o inesperado, a confiar desconfiando, a ser
convicta e otimista, e acima de tudo me mostrou que a vida funciona do mesmo jeito que uma
viagem. Podemos falar sobre as nossas questões pessoais para nossos amigos, familiares,
podemos pedir conselhos, saber a opinião de cada um, mas assim como o motorista que está
vendo o caminho a nossa frente e tenta nos dar o sinal certo para a ultrapassagem, cabe a
nós analisar o poder do motor do carro, se a pista está escorregadia ou não e se o
tempo do carro em sentido oposto permite a manobra. Se a decisão for errada, não adianta
culpar o outro, a escolha foi individual e a conseqüência também o será. Assim, é
necessário aprender a decidir no momento certo, conhecer a si mesmo para tomar o melhor
caminho.
Sempre que entramos no carro para fazer uma viagem, devemos irradiar aos Espíritos
Superiores, não para pedir ajuda ou orientação, mas para que, bem intuídos, possamos
decidir adequadamente. E assim deve ser o dia-a-dia de um racionalista cristão: pela
manhã e à noite fazer a limpeza psíquica para seguir na sua jornada rumo ao
aperfeiçoamento, procurando sempre manter o autocontrole, a tolerância e principalmente
a serenidade. E, quando sentir que está a um passo de perder o equilíbrio, perguntar a
si mesmo: "Eu quero ter razão ou ser feliz?"; quantas vezes para manter uma
posição perdemos todas as outras.
É muito comum para quem está sempre viajando ouvir alguém perguntar se não tem medo,
ao que eu sempre respondo: não! O medo deve servir como parâmetro, mas não pode dominar
o indivíduo. Meu avô paterno viajava dias para chegar ao seu trabalho, tinha um carro
relativamente bom para a época, mas comparado aos de hoje era um calhambeque, as estradas
eram, na maioria, de terra. Certa vez sofreu um acidente de avião em que todos os
ocupantes morreram, menos ele. E como racionalista cristão convicto que era, desencarnou
deitado em sua cama, rodeado por aqueles que o amavam e o respeitavam.
Enfrentar os medos, entender o mundo a sua volta, respeitar as incertezas e tomar
decisões, saber qual a hora certa de entrar e de sair, a vida não pára para que se
possa decidir. E assim, no mar revolto do viver terreno, de onda em onda, de caldo em
caldo, aprendemos que sempre haverá outra chance para acertar. Nas palavras de Marden,
"o homem volúvel, que antepõe as palavras aos pensamentos, desperta desconfianças
acerca da quantidade e qualidade da sua massa cerebral. Uma decisão vigorosa é a
característica dos vencedores".
Quem sabe o que quer e se encaminha em linha reta e por meios honestos à sua conquista
acaba por ver realizados os seus legítimos desejos. E não há nada melhor do que chegar
ao destino com a sensação do dever cumprido.
Analise a estrada à frente, ouça a voz da razão, use o medo como limite, mas acima de
tudo entenda que, às vezes, na vitória pode estar o fracasso e no fracasso, a vitória.
Mas isso são as coisas da matéria, e só se deve compreender que o que realmente importa
é a evolução do espírito. Afinal, o que é o ser humano? Apenas a soma de suas
memórias!
A autora é militante da Filial Marília, SP
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