O etanol está na moda

Clecy Ribeiro

Mania do agro-combustível tem também um lado obscuro

Este tem sido um ano bastante atarefado, intenso em encontros e foros, consultas bilaterais e cúpulas. Tudo gira em torno de políticas energéticas e ambientais, já agora definitivamente atreladas ao agrobusiness. À frente, empunhando a bandeira do etanol, Estados Unidos e Brasil vendem o produto em viagens presidenciais. No rastro, a Venezuela busca caminho diferente: partilha de projetos e recursos energéticos com outros países, o conceito da grande empresa nacional mista. Um conceito alternativo às multinacionais do etanol: petrolíferas, tentando reduzir a dependência do petróleo; do agro-combustível, para monopolizar o mercado; e capitais transnacionais.

Em março e abril, um frenesi, com o deslanchar das estratégias, menos no sentido da ainda impossível integração (a política impede) do que da interconexão – como prefere Eduardo Gudynas (Programa de las Américas, www.ircamericas.org). Às vésperas da Assembléia-Geral da ONU, em setembro (temas dominantes na agenda), o Brasil chega aos países nórdicos e Espanha. Afinal, prevê-se que os agro-combustíveis cubram 5,75% das necessidades européias em 2010 e 20% em 2020. Quanto aos Estados Unidos, precisariam de 35 bilhões de galões por ano, quando, em fins de 2008, chegarão a apenas 11,4 bilhões de galões/ano de capacidade produtiva. Metas que superam, e muito, a capacidade de produção dos países industrializados do Hemisfério Norte.

No Sul, um achado: América Latina, Ásia e África, com suas terras de vocação agrícola abrindo o voraz apetite energético mundial e abrindo suas florestas tropicais à devastação.

Na cúpula da Apec (países do Pacífico asiático), em setembro, aquecimento global e desenvolvimento sustentável refletiram a preocupação geral. Mil outros delegados, em Viena, tratavam do Protocolo de Kyoto, com vistas a um encontro de alto nível, promovido pela ONU, em dezembro. E, depois da primeira cúpula sul-americana sobre energia (abril, na Ilha Margarita), já se fala na segunda, em Cartagena de la Índia (Colômbia) e na terceira, em Pernambuco (Brasil). Na frente financeira, a mania do agro-combustível comanda as Bolsas, sem prever conseqüências. Os fundos hedge já apostam alto no mercado especulativo do milho/etanol. E porque outros países tomaram o trem, no Sudeste asiático, etanol e petróleo disputam preço na corrida energética, ora dominada por umas poucas companhias poderosas.

A julgar pelas estatísticas do etanol atrelado à indústria agro-alimentícia, mais de 1 bilhão de pessoas sofrerá fome crônica em 2025 – 600 milhões mais que o anteriormente previsto.

Onde tudo desemboca? A produção em grande escala do etanol para exportação exige vastas plantações. O mito do agro-combustível verde, no dizer de Eric-Holtz Gimenez (Le Monde Diplomatique, junho 2007), já não se sustenta. Gera reduções apenas limitadas de gases do efeito estufa, e ainda assim anuladas pelo desmatamento, incêndios, drenagem de zonas úmidas (só na Amazônia, 325 mil hectares por ano, ao ritmo atual), perda de carbono do solo. Tampouco sustentaria o desenvolvimento rural.

Os pequenos fazendeiros estão sendo expulsos das terras, como na "república da soja" (50 milhões de hectares no sul do Brasil, norte da Argentina, Paraguai e leste da Bolívia). Uma monocultura cada vez mais dependente dos grandes grupos petrolíferos, da indústria agro-alimentícia e produtores de transgênicos.

Aqui, o impacto sobre o preço dos alimentos. O International Food Policy Research Institute de Washington calcula alta de 20% a 33% nos preços dos alimentos em 2010, e 26% a 135%  até 2020. A "guerra da tortilla", em fins de 2006 e inícios deste ano, no México, constitui exemplo flagrante. A crescente demanda de etanol fez subir o preço do milho importado dos Estados Unidos, base da alimentação do mexicano. Mais "cacerolazos" à vista, em maior ou menor prazo. 

Voltando ao Brasil. Parece que conseguiu vender etanol até para a Venezuela (país com que, de resto, investiu em duas usinas petroquímicas em Barcelona). Seriam 200 mil barris/dia para misturar ao combustível, segundo a Agência Bolivariana de Notícias, de 3 de agosto. Para atingir seus objetivos propostos, o Brasil deve exportar 35 bilhões de galões de etanol até 2017. Investimentos de 2 bilhões e 500 milhões de dólares, boa parte procedente dos Estados Unidos, que afirmariam, assim, seu papel político no continente. Multinacionais no Brasil já promovem o aumento da produtividade, graças aos transgênicos voltados à produção de etanol. Nesta colheita de 2007, uma novidade tecnológica: a cana geneticamente modificada.

Abre-se caminho aos agro-combustíveis de segunda geração, plantas de celulósicas transgênicas, de crescimento rápido. Os Estados Unidos partem nessa direção. Em março, o Departamento de Energia anunciou investimentos de 385 milhões de dólares em seis refinarias de celulose para etanol. Segundo a Agência Internacional de Energia, o mundo estará apto a produzir, nos próximos 23 anos, 147 milhões de toneladas de agro-combustíveis (www.iea.org/Texbase/subject...), o que levaria a mais emissões de carbono, erosão e 2 bilhões de toneladas de águas usadas.

Depois do milagre dos anos 60,70, e do sucedâneo Brasil celeiro do mundo, o país mergulha na moda do etanol - que criou, de certa forma. Oxalá não seja mais uma miragem.

(A autora é jornalista)

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