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Evolução do conhecimento científico e espiritualidade
Thiago Monfredini
A água é o princípio de todas as coisas – assim dizia Tales de Mileto, o
primeiro filósofo ocidental da história, na Grécia Antiga, há cerca de 2600
anos. Apesar do contra-senso que essa frase possa suscitar de imediato,
Tales de Mileto inaugurou um estilo de pensamento que seria herdado por
importantes filósofos gregos logo depois dele, e posteriormente por físicos
e astrônomos até os dias de hoje: o uso da racionalidade na busca pela
unidade, pela explicação final de tudo, a essência de todas as coisas.
A constituição do Universo sempre foi tema de debate na ciência. E a
influência da filosofia grega sempre se fez sentir. Na Europa, durante a
Idade Média, por exemplo, adotou-se a concepção de Aristóteles para o
Universo: geocêntrico e dividido em duas regiões, sublunar e supralunar. A
região sublunar, desde o centro até a atmosfera terrestre, seria o mundo das
coisas corruptíveis, mutáveis, das trajetórias imperfeitas, e composta de
quatro elementos: fogo, terra, ar e água, sujeitos a transformações. O mundo
supralunar, que engloba a Lua, o Sol, os cinco planetas conhecidos na época
e as estrelas, seria o mundo do “Imutável”, da perfeição tanto dos
movimentos quanto da sua constituição.
No mundo supralunar, os astros seriam constituídos por um quinto elemento: o
éter ou “quintaessência”. A ideia, hoje abandonada na ciência, de que o
Universo seria constituído por um tipo diferente de matéria, persistiu por
muito tempo. Hoje, ainda é motivo de surpresa para as pessoas em geral o
fato de elementos químicos conhecidos nesse planeta serem tão comuns
Universo afora, inclusive formando moléculas comuns aqui na Terra, como a
água.
A propósito, a água é uma das primeiras substâncias químicas a serem
formadas no meio interestelar, e sua abundância é revelada em diversas
observações astronômicas de emissões na faixa de rádio e infravermelho.
A ciência se voltou para o desconhecido universo material. A concepção da
composição do Universo mudou radicalmente no último século. Nossa galáxia, a
Via Láctea, tem entre 200 bilhões e 400 bilhões de estrelas, e um raio de
cerca de 100 mil anos-luz. Por comparação, estima-se que nosso Sistema Solar
tenha dois anos-luz de diâmetro.
A Via Láctea é permeada também por radiação ultravioleta e raios X das
estrelas (na Terra, vivemos numa ilha, protegidos por nossa atmosfera da
radiação nociva vinda do Sol). Além disso grandes nuvens de gás e poeira
preenchem a Via Láctea, um cenário que só começou a ser aceito na astronomia
no início da década de 1950.
Esse gás interestelar, ao se agregar, devido à atração gravitacional, forma
nuvens mais densas, situação em que as camadas externas da nuvem blindam as
camadas mais internas da radiação que permeia a galáxia, resfriando-as a
ponto de ser possível formar moléculas nesses locais: hidrogênio (H2)
e monóxido de carbono (CO), principalmente.
Essas nuvens se estendem por centenas de anos-luz, e têm densidades muito
diferentes das experimentadas na Terra. Enquanto a densidade atmosférica tem
cerca de 1015 moléculas por cm3, as nuvens moleculares
no meio interestelar têm a partir de 2x102 moléculas por cm3,
apenas, com temperaturas que chegam a -263º C.
Desde a década de 1950, a descoberta de mais moléculas no meio interestelar
não parou. Hoje se sabe da existência de mais de 150 moléculas no espaço,
tanto no estado gasoso quanto presas à superfície de grãos de poeira (quando
dizemos que estão congeladas). A molécula mais abundante na superfície de
grãos é a água, que forma um manto sobre os grãos. É nesse manto que, por
suas características físico-químicas, se mostra propício a formar moléculas
mais complexas e possivelmente moléculas orgânicas, como os aminoácidos.
O palco para todos esses fenômenos, as nuvens densas, são também os locais
de gestação, de formação de novas estrelas e sistemas planetários. É objeto
de intensa pesquisa o fato de as principais moléculas que servem como blocos
básicos para a vida biológica terrestre já estarem presentes nessas nuvens.
Dois mil e 600 anos depois de Tales de Mileto, ainda buscamos entender por
meio da razão, mas com grande refinamento prático e teórico, nossas origens.
Apenas há cerca de 400 anos, com Galileu Galilei, é que a Filosofia Natural,
hoje conhecida como Ciência, abandonou por completo as questões metafísicas,
ainda hoje tratadas com muito misticismo e charlatanismo.
Apesar dessa busca ter nos levado a caminhos surpreendentes, é preciso
admitir que ainda sabemos pouco sobre a Natureza, dadas as inúmeras
perguntas sem resposta que esses caminhos nos trouxeram. Atualmente, é sobre
a origem da vida que repousam dúvidas na capacidade da Ciência para uma
explicação completa do fenômeno. Mas existem grandes lacunas também sobre a
origem do Universo e da inteligência humana.
Aquela postura doutrinária que defende que essas são questões divinas não
contribui em nada para o avanço do conhecimento, e é extremamente
antifilosófica e anticientífica porque não é passível de questionamentos e
dúvidas: não há provas. A humanidade já viveu isso. Um exemplo é na Europa
durante a Idade Média. Mas seria possível um retorno científico à
metafísica, como muitos gostariam, e até o fazem forçadamente?
Como quantificar o imensurável, que faz parte da espiritualidade? Como medir
a interação entre Força e Matéria, no sentido compreendido pela
espiritualidade? Essas questões ainda não foram respondidas com clareza
entre os cientistas que se interessam pelas questões espirituais. No
entanto, os racionalistas cristãos, por exemplo, sabem muito bem dos
curiosos efeitos da água fluídica no próprio corpo. Algo tão simples e
cotidiano, e sem qualquer explicação física ou biológica. Talvez seja esse
um bom início para investigações dessa natureza.
(O autor, físico, é frequentador da Filial Itaquaquecetuba, São Paulo)
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