Existe o verdadeiro amor?

Tharsila Prates

Encontrar a pessoa certa não é apenas uma questão matemática

Não vamos escrever um longo texto para só no final darmos a resposta. Sem delongas, vamos adiantando que sim: o verdadeiro amor existe. O nosso planeta é habitado por cerca de 6 bilhões de pessoas e, partindo do pressuposto de que o número de homens é mais ou menos equivalente ao de mulheres, os pares irão se formar.

O problema, no entanto, não é apenas matemático (antes fosse). Para dar certo, é preciso que os dois seres candidatos a formar o par tenham afinidades. "A união (...) se torna sólida quando existe atração em que se ligam indissoluvelmente os elementos carnal e espiritual. A admiração por uma pessoa virtuosa e inteligente não será amor se não houver o desejo de unir-se a ela, o prazer que lhe causa olhar o rosto, ouvir o timbre de sua voz, a forma do corpo e até da sua maneira de trajar-se. Mas também será impossível a união sem que haja confidências, oferecimento do que possui cada um de seu íntimo: sensibilidade, pensamento e vida interior."

As belas palavras são da racionalista cristã Olga B. C. de Almeida, na obra Caminhos Certos. Para que se chegue a esse grau de cumplicidade, é necessário que ambos sejam esclarecidos (não necessariamente racionalistas cristãos, pois sabemos que muitas pessoas de caráter não conheceram a Doutrina em vida física). No mundo conturbado em que vivemos, não é fácil achar uma pessoa que seja ao mesmo tempo virtuosa, inteligente, sensível e esclarecida. Por isso, falamos acima que o problema não é apenas matemático.

Há, além disso, várias dúvidas: onde encontrar a pessoa certa, o que é o verdadeiro amor (já que ele existe) e como fazer para conquistá-lo.

Conheço um jovem casal que se conheceu na escola e, após oito anos, continua junto. Nesse período, enfrentou alguns dissabores. Separou-se uma vez por três dias, mas reatou o namoro. Além dessa separação, houve outras quatro DRs – ou seja, discussões de relação. O casal decidiu continuar "por sempre acreditar que era possível contornar as diferenças encontradas, com ambas as partes cedendo um pouquinho para melhorar a relação", numa demonstração de que ambos acreditam no verdadeiro amor. Para eles, essa expressão significa "confiança no outro, paixão, companheirismo e amadurecimento". Hoje, eles estão separados pela distância, cada um em um Estado. Mesmo assim, têm a nobre intenção de casar.

O verdadeiro amor foi definido também em obras da nossa Doutrina. A racionalista cristã Maria Cottas escreveu em seu livro Páginas Soltas: "É certo que se casa, quase sempre, apaixonado, mas esse encantamento não dura sempre, modifica-se e, à medida que os anos passam, transforma-se em serena e sã amizade, que será, então, duradoura e que constituirá o verdadeiro amor (...)". Ainda conforme ela escreveu uma vez, amar mesmo, com toda a força deste sentimento, nada tem de físico, mas sim de espiritual.

É certo também que, quanto mais nos expomos, mais teremos chances de esbarrar na pessoa certa. Há controvérsias quanto à necessidade de estarmos em bares, boates e outros locais que, decididamente, não agradam a todos. O fato é que esbarramos nas pessoas todos os dias. Temos o real desejo de compartilhar a nossa vida com alguém. É preciso, no entanto, que este alguém tenha o mesmo desejo. "A vivência moderna provoca, a cada instante, ocasiões de encontro. Nenhum mal haverá nisso se procurarem o verdadeiro sentido de tal aspecto. (...) Sendo o homem e a mulher duas metades diferentes, mas complementares, devem mesmo viver juntos. Completando-se é que se entendem. Só assim formarão outro mundo mais feliz do que este", escreveu Olga de Almeida, em Caminhos Certos.

É com esta idéia de complementaridade que Olga fez, em seu livro, uma advertência, que também vale, perfeitamente, para os anos de namoro: "Conhecendo, quando solteira, a psicologia masculina, a jovem não sonhará com o príncipe encantado que partilhe de todas as nuanças de sua sensibilidade e, depois de casada, não se julgará infeliz. A insistência em querer receber do esposo (ou namorado) manifestações femininas pode criar um drama ao invés de cultivar harmonia." 

E aí a procura pela "cara metade" torna-se ainda mais difícil. Uma dica é estar aberto aos encontros, sem forçar a barra. Uma ressalva é que não está escrito em lugar nenhum que temos de carregar a nossa "cruz" em companhia de alguém. Por isso, não deixe a "solteirice" se tornar solidão. Independente do que acontecer (ou se este alguém não aparecer) façamos da nossa vida uma fase de aprendizado e uma oportunidade para correção dos nossos erros, como bem ensina o Racionalismo Cristão.

(A autora é jornalista) 

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