Publicado em 8 de dezembro de 1952
É corrente atribuir-se à falta de caráter todos os males da nossa época.
Transigências inconfessáveis de poderosos, acomodações de autoridades,
conformismo de espoliados, indiferença dos que, por suas funções sociais,
deviam zelar pelo bem e moralidade públicos, a avidez, o suborno, o
aulicismo, a subserviência etc. etc. correm evidentemente à conta da falta
de caráter. Aquele soberbo apanágio do ser humano, que o fazia altivo,
corajoso, independente, honesto e bom, tem minguado a tal ponto que só vez
por outra nele se fala.
A crise de caráter é mundial, atinge todas as camadas sociais e não há quem
lhe não sinta as consequências. Não há necessidade de perquirições. Basta
ler qualquer jornal ou revista e, tanto nas palavras dos acusadores como em
simples noticiário, nas espalhafatosas manchetes ou em impudentes
ilustrações, sente-se, vê-se a dolorosa verdade.
A contribuição construtiva está em indicar o remédio que ponha paradeiro e
impeça o homem de resvalar mais, no caminho da sordície e da animalidade.
Adotando o processo do clínico, comecemos por pesquisar a causa do mal.
O homem do século, embevecido pelas grandes descobertas no terreno da
física, da química e da mecânica, engolfou-se com ardor no aproveitar toda a
enorme experiência e saber adquiridos em proveito do corpo. A corrida pelo
maior padrão de vida, o que vale dizer a sofreguidão pelos bens materiais,
não deixou tempo ao homem para cuidar do espírito.
As próprias cerimônias religiosas passaram a ser traduzidas em moedas. O
respeitável, o poderoso, o benquisto, o louvado, o benemérito passou a ser o
rico, embora sequer dispondo da generosidade dos antigos Mecenas.
A ciência, que devia ter por principal finalidade fazer melhor o homem,
apenas o tornou mais rico, mais comodista, mais egoísta e menos
espiritualizado.
Não se cuide que somos contra a ciência, a riqueza, as comodidades, enfim
contra o bem-estar físico. Não! Entendemos que a vida física pode ser bem
vivida.
Apenas fazemos uma simples e fácil verificação. O homem, preocupado demais
com os bens materiais, esquece o espírito. Esquecendo o espírito, olvida o
caráter.
Não vale a pena conquistar as forças da natureza, criar mil e uma
utilidades, para afinal espessar mais as trevas do espírito e estimular
todas as qualidades negativas, que aproximam o homem do simples animal com
umas tantas necessidades fisiológicas.
Há necessidade de nos voltarmos intensamente para as coisas do espírito, e
as ciências que no momento precisam ser estimuladas são as que dizem
respeito com o psíquico.
Não se trata de pôr o indivíduo a recitar orações, mas de levá-lo a pensar
em sua formação moral, a concentrar suas energias no exame da própria
consciência, no obrigá-lo à introspecção, de modo que sinta a superioridade
da vida psíquica sobre a vida física.
A conquista da felicidade, que os sistemas políticos acenam por via da
distribuição de riquezas, o maior aperfeiçoamento de máquinas para sanar
certos aspectos dolorosos da vida, como meios materiais jamais contribuirão
para o melhoramento do homem, e o farão cada vez pior e infeliz. A alegria,
a simples alegria de viver, que fazia o lavrador cantar, estimulado pelos
sadios eflúvios dos campos, tende a desaparecer sob o ronco dos tratores.
Como a trapaça também ali medra!
Uma receita para começar: pensemos dez minutos todos os dias sobre o nosso
próprio espírito e em nossos deveres de solidariedade humana.
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