Formação do caráter infantil

A Razão publicava em 15 de fevereiro de 1938

A questão da educação infantil é na realidade a pedra angular para que nova mentalidade vá surgindo no decorrer dos tempos, sobretudo quando a infância de hoje for a geração forte de amanhã.

Fornece-nos matéria para esta ponderação a modalidade de nossa conversação cotidiana, especialmente quando ouvidas por menores.

Não é raro que em nossos lares sintamos por vezes uma irritação, em face de uma traquinada maior dos nossos pequeninos, e nessas ocasiões perdemos o nosso próprio domínio e controle, dando vazão a uma enxurrada de termos impróprios, a uma rispidez descabida ou exagerada, e o que é pior, a um emprego de termos inconvenientes, que às vezes são verdadeiras heresias e palavrões.

Ora, é bem sabido, a criança assimila com maior facilidade tudo que ouve e vê. Dentro de alguns dias não devemos, portanto, achar extraordinário que um pequenino, no auge de sua irritação também com outros iguais, use de palavreado impróprio, muitas vezes até de verdadeiros palavrões.

Quando tal constatamos não é raro ouvir-se exclamações de espanto e surpresa. Esquecemos que foi o nosso exemplo, que foi a nossa linguagem pouco comedida em sua presença, em resumo a nossa forma de proceder, que ensinaram tais coisas à criança, que ela foi repetindo mesmo sem avaliar o sentido pejorativo ou insultuoso.

Deduz-se, portanto, que, se não tivermos cuidado com a nossa própria linguagem na frente da infância, nos faltará autoridade moral quando mais tarde quisermos corrigir-lhe esses abusos.

Nosso descaso e inconveniência chegam vulgarmente até o ponto de, na presença de crianças, entoarmos canções imprudentes e imorais, o que é um crime e aberração do bom senso; e quando não é isso, são essas cantigas carnavalescas de letra inexpressiva e irreverente que corrompem o caráter infantil.

Eis um aspecto social a que deve a humanidade de hoje prestar um pouco de atenção: a formação do caráter infantil no convívio do lar.

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