Gente feliz vive mais

Clecy Ribeiro

Pesquisa de 2016, em seu quinto ano consecutivo, informa: índices de felicidade sobem quando existe saúde mental. Este fator vale mais que a pobreza, na análise dos resultados. Na miserabilidade humana – e não necessariamente em problemas financeiros – recairia a culpa do fracasso individual, da depressão, ansiedade. Dentre 157 países do 'Relatório Mundial da Felicidade', os mais felizes do mundo mantêm-se estáveis: Dinamarca (7,526 pontos); Suíça (7,509); Islândia (7,501); Noruega (7,498); Finlândia (7,413); Canadá (7,404); Holanda (7,339); Nova Zelândia (7,334); Austrália (7,313); Suécia (7,291). Ao Brasil, em 17º lugar, atribuem-se 6,952 pontos. Não conseguem passar do terceiro degrau Burundi, último lugar, Togo e Síria (155º e 156º lugares) e Afeganistão (154º lugar).

Seis fatores compõem as pesquisas contemporâneas. Estabelecem quem é mais ou menos feliz, segundo respostas auto-avaliadoras, tomando por base a Escada de Cantril (nome do idealizador do método). Dez degraus, dez o topo; zero a base. Em que degrau está sua vida? Em xeque, a renda individual, expectativa de vida, generosidade, suporte social, liberdade de escolhas e percepção/controle da corrupção. Os resultados são, então, comparados à Distopia, lugar imaginário, avesso da Utopia, criado pelos pesquisadores. Ali, todos são miseráveis, um reino fictício, triste.

Violência, ganância, injustiça, corrupção, competição negativa, desperdício e ostentação, a desenfreada busca da riqueza, enfim a miséria humana começam a se refletir, seriamente, nas preocupações dos órgãos internacionais. À frente estão a ONU e seu ramo, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ora líder no combate aos paraísos fiscais). Mudam, assim, o enfoque dos estudos, ao tratar da felicidade. Não mais se prendem ao fator econômico (renda) mas a fatores pessoais, como amizades, relacionamentos amorosos, entendimento, participação social, emprego.

"Para se dar substância real ao capital humano, nada é mais necessário do que fortalecer o indivíduo, instruindo-o, preservando a sua saúde, alimentando-o racionalmente e imprimindo em sua vida os ditames da moral". Basta reler Luiz de Souza em A felicidade existe. Afinal, o capital humano constitui a soma do capital espiritual dos seus componentes da humanidade.

No estudo Origens da Felicidade (só abrange Estados Unidos, Alemanha e Grã-Bretanha), os economistas lorde Richard Layard (London School of Economics, ex-assessor dos premiers Tony Blair e Gordon Brown) e o celebrado norte-americano Jeffrey Sachs mencionam a importância de fatores sociais e psicológicos para a satisfação/bem-estar. Layard lembra a violência doméstica, alcoolismo, depressão, exigências escolares e outras condições que geram ansiedade, juventude alienada e daí por diante. "O fator preponderante na previsão de uma vida adulta feliz não são as qualificações da criança, mas sua vida emocional", ressalta ele.

O Instituto de Pesquisa da Felicidade (Dinamarca) tem algumas respostas. O que os índices dizem de fato, qual sua relevância? Por que alguns povos são mais felizes que outros? Bem, parece haver três fatores cruciais na medida de satisfação de cada um: a biologia (o imutável), políticas (o que podemos mudar, ainda que de tempos em tempos); conduta ou comportamento (o que podemos mudar de imediato). Tomando o exemplo da Dinamarca (só em 2015 perdeu o primeiro lugar, para a Suíça), o país não representa uma utopia X uma distopia, mas o país menos infeliz do mundo, comparado a outros, onde os mesmo índices serviram de base. Quais são as razões por trás desses altos – e estáveis – níveis de felicidade? Primeiro, o êxito como sociedade, como a vida da população melhorou em qualidade. Trata-se de uma sociedade civil forte, coesa, democracia que funciona (participação civil e baixo nível de corrupção), com segurança e confiança, liberdade de escolhas, prosperidade, boas condições de emprego. "O que fazemos com nosso dinheiro tem papel tão importante quanto o dinheiro que ganhamos", dizem eles.

Meir Wiking, diretor do Instituto, fundado em 2013, lembra, em relatório específico sobre o país, que a ideia de abandonar o foco renda per capita, como indicador predominante de progresso, não é nova. Cita John Kennedy: "O GNP não responde pela saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação, a alegria de seu lazer. Não inclui a beleza de nossa poesia ou a força de nossos casamentos; a inteligência do debate público ou a integridade de nossos servidores públicos... mede tudo, em suma, exceto o que torna a vida digna de ser vivida".

Datam de 2012 a primeira conferência da ONU sobre felicidade e seu primeiro relatório. Cresce o interesse: por que há sociedades mais felizes que outras; como aprender com elas? Enfim, cada sociedade é feita de seus cidadãos e cada um deles, como indivíduo, contribui para torná-la feliz ou infeliz. O Banco de Dados Mundial da Felicidade arquiva resultados dos diferentes relatórios a ele encaminhados, com estatísticas de 160 países, coletadas ao longo de quatro décadas. Pesquisar a felicidade também entrou no âmbito do marketing privado. O que importa para a qualidade de vida de nossos clientes? O que constitui uma vida feliz – e uma velhice feliz?

John Helliwell, co-editor do relatório sobre a felicidade no mundo e professor de economia da Universidade de British Columbia, afirma: "Antes, pensávamos no trabalho como no inferno e no lazer como a coisa formidável. Tolice. O trabalho pode – e deve – ser uma fonte de felicidade". Dentre tantos e tantos exemplos, mundo afora, eis que lembramos Ivo Pitanguy e sua atividade incessante, durante toda a vida. "O desemprego é uma das piores coisas que podem acontecer à felicidade", conclui também Bruno S. Frey, professor de Ciência do Comportamento, Universidade Warwick.

Parece certo que gente feliz vive mais. Resta definir, ou pensar que já exista uma definição, talvez imprecisa: o que é a vida boa, ou a boa vida? Como desenvolver, criar uma sociedade melhor para melhorar a vida? Salvas para os inovadores, no topo da lista dos mais felizes do mundo; que sirvam de exemplo. Porque os pesquisadores continuam a debater, longe ainda da unanimidade. Para os economistas, ênfase no papel da renda pessoal. Os libertários ficam com a liberdade de escolhas. Importam aos sociólogos o capital social, a confiança na sociedade. E os cientistas políticos pregam a ordem constitucional e o controle da corrupção.

Nenhum fator isolado, contudo, leva à sociedade feliz idealizada por Aristóteles: o maior bem-estar do ser humano é a inseparável prática da virtude. Que Luiz de Souza também prega, aliada a três importantes condições: saúde, paz e prosperidade. Leitor, a felicidade bate à sua porta. "Como um tesouro oculto, precisa ser descoberta no interior de cada um; as chaves que abrem as portas do templo da felicidade encontram-se à disposição daqueles que as quiserem".

(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)

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