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Gentileza, essa dádiva maravilhosa
Antonio Cristovam Monteiro
Gentileza é um dos atributos do espírito que lubrificam o relacionamento das
criaturas, tornando-as humanamente mais ponderadas e equilibradas no viver terreno. Tem
ela o condão de desarmar os espíritos de malquerenças no trato com o seu semelhante.
Quem rotineiramente a pratica com aquela indizível satisfação de ser útil, prestativo
ao próximo, sem qualquer laivo de segundas intenções, e quem a recebe, a menos que seja
um irrecuperável emperdenido do espírito, se sente sensibilizado por aquela sensação
de bem-querer e, instintivamente, é impelido a retribuir tão cativante tratamento. Daí
ser comum dizer-se que gentileza gera gentileza. Ela é a chave do fraternal
entrelaçamento humano.
A um gesto, a um favor prestado não se deve dizer "muito obrigado" e sim
"agradecido" e, ao contrário de "por favor", diga-se "por
gentileza", porque ninguém a nada é obrigado. Temos que praticar a gentileza por
consideração ao próximo, e não por favor, como ensinava um cidadão cujo nome civil
era José de Trino, que se tornou conhecido como Profeta Gentileza. Proprietário de uma
próspera empresa de transporte no bairro de Guadalupe, no Rio de Janeiro, encerrou
repentinamente suas atividades para fazer pregações pelas ruas e avenidas centrais da
cidade contra a violência, a perversão de costumes, a maledicência, enfatizando como
procedimento fundamental a eliminação de todos esses males a gentileza no relacionamento
entre as criaturas. Essa mudança brusca de atitude veio-lhe daquele pavoroso incêndio em
um circo em função, com lotação esgotada, em Niterói, na noite do dia 17 de dezembro
de 1961. Corre versão de que teria ele parentes ou outras pessoas de sua amizade entre as
vítimas. O certo é que poucos escaparam daquela catástrofe. Profundamente consternado,
empregou todo o dinheiro apurado na extinção de sua empresa na ajuda da recuperação
daqueles poucos que foram salvos, mas em precário estado de saúde, pelas queimaduras.
No local daquela tragédia fez construir às suas expensas um jardim. Deixou crescer os
cabelos e a barba já grisalhos, passou a envergar uma túnica alva e, calçando
sandálias, empunhava um estandarte coalhado de inscrições de fundo moral e
incentivadores da harmonia, paz e bom entendimento das pessoas, estado de bem aventurança
a que só se poderia chegar pela prática da gentileza de maneiras. Acercava-se da
aglomeração de pessoas, na travessia das ruas e avenidas, à espera do momento
propício, e aproveitava para rápidas e objetivas doutrinações e, tal era a suavidade e
brandura de suas palavras que, constantemente, era aplaudido pelos circunstantes.
Não mendigava. As pessoas é que, tomadas pela gentileza que as suas palavras
infundiam, procuravam espontaneamente os seus vizinhos, que a ele sutilmente
proporcionavam o indispensável à subsistência. Enfatizava ele que o que gratuitamente
recebia, os ensinamentos de Cristo, de graça teria que os divulgar.
Não deixa, por assim dizer, de ser tal comportamento uma obsessão, porém é, de certo
modo, inofensiva, até benigna, pela lhaneza, suavidade com que pregava a concórdia, a
harmonia de se viver através, pois, da gentileza, das boas maneiras, bem e totalmente
diferente dos mórbidos estados obsessivos de certos pregadores, que conduzem ao fanatismo
e, não raro, à loucura, ou quando não à esperteza, à velhacaria dos falsos mentores
espirituais.
Tal foi o grau de simpatia que granjeou na população o Profeta Gentileza que se cuidou
de erigir um monumento à sua memória. É um exemplo vivo e edificante do que nos pode
prodigalizar a prática rotineira, descontraída, espontânea, desinteressada da gentileza
que a nós, racionalistas cristãos, cumpre, com todo o empenho e entusiasmo, intensificar
entre os nossos e, também, prazerosamente, demonstrá-la àqueles que da nossa querida
Doutrina se aproximem.
O autor é diretor procurador da Casa Chefe
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