Inauguração do segundo hospital de obsedados

"Inauguramos neste momento a segunda casa racionalista cristã fundada no planeta Terra, pelo Astral Superior. Justo é, pois, que, tratando-se de uma ação de natureza espiritual, digamos algo sobre o espiritismo racional e científico que praticamos e que se praticará dentro em pouco em todo o planeta. Antes, porém, e segundo o nosso sistema, diremos, de acordo com um ditado inglês, que: "não se podem prevenir nem curar os males da humanidade sem se falar claramente". Falar claramente, portanto, é ser verdadeiro e ser verdadeiro é ser honrado, porque já Platão dizia: "o maior mal é a ignorância da verdade". E Cristo, segundo a tradição, nos deixou a afirmação de que: "só a verdade fará os seres livres". A afirmação é de Luiz de Mattos, em discurso na inauguração da Casa-Chefe, no Rio de Janeiro. 

Depois destes veio Descartes, considerado como fundador da filosofia moderna, e disse: "Distinguir o falso do verdadeiro é o único meio de ver claro as suas ações e de caminhar com segurança nesta vida. Um perfeito conhecimento de todas as coisas que o homem pode saber é tão necessário para regular os nossos costumes, como o uso dos nossos olhos para guiar os nossos passos. Trabalhemos para bem pensar; eis o princípio da moral", prosseguiu.

Disse ainda que o princípio da moral indicado por Descartes é um resumo das palavras de Cícero sobre o homem honrado, quando diz: "observar pontualmente todas as regras que podem constituir o homem honrado é o mesmo que satisfazer todas as obrigações e cumprir todos os documentos que respeitam a todas as partes e a todas as ações da vida, não podendo ser o homem honrado somente à proporção que as observa. Tudo que se pode chamar de honrado, se reduz a quatro princípios: consiste o primeiro na perspicácia do espírito, que nos obriga a buscar e a descobrir a verdade, e a esse chamamos Prudência. O segundo é aquele que se encaminha a guardar as leis da sociedade humana e a fé dos contratos, dando a cada um o que é seu, e a este chamamos Justiça. O terceiro consiste na grandeza de ânimo, que, não se podendo abater por alguma razão, nos faz capazes das maiores empresas e constantes contra os mais terríveis acidentes, e a esse chamamos Valor. O quarto consiste na ordem e nas medidas justas e exatas que devemos guardar em todas as nossas ações e palavras, e a esse chamamos Moderação".

Isto a que podemos chamar homem honrado, diz o mesmo Cícero, é uma virtude que reside nas qualidades do espírito e o uso que fazemos dessas qualidades.

Para Horácio, o homem honrado é aquele que se vence a si mesmo, a quem a morte, a pobreza e os trabalhos não atemorizam, e que, sabendo reprimir os seus desejos intemperados, despreza as honras.

Quem ignorar esses princípios ou quem, conhecendo-os, não os  observar, não pode ser honrado, não pode ser amado, não pode governar os outros homens; é fatalmente um infeliz, e o infeliz, no dizer de Camilo Castello Branco, tem o fatal condão de dilapidar o brilho das ideias, enredando-as, escurecendo-as, falsificando-as, como uma névoa que empana os objetos ou os desfigura; o infeliz vê sempre errado: ora crê e confia em tudo que ao comum dos homens é desprezível; ora esquiva-se a tomar pelos caminhos direitos do bem-estar, que evidentemente se lhe oferecem. 

É claro, pois, que pode ser verdadeiro e, portanto, livre quem for honrado; só pode ser honrado o que for esclarecido; e só será esclarecido o que se conhecer a si próprio, o que conhecer a sua composição psíquica e fisiológica, porque, conhecendo-se a si próprio, conhecerá a composição do Universo, e com esse conhecimento saberá definir e explicar todos os fenômenos que se observarem e terminará por entender que o milagre e o sobrenatural são produtos da ignorância humana, e que o visível como o invisível obedecem a leis comuns e naturais que regem todos os corpos e seres existentes no Universo.

Ficará, também sabendo claramente que o espiritismo, embora com outras denominações, é tão velho como o mundo e dele tiveram conhecimento e o praticaram os povos da antiguidade, como os da Índia, do Egito, da Grécia etc., antes da era de Cristo. Na Índia, por exemplo, 5 mil anos antes da nossa era, já se proclamava a existência de um único Deus, a imortalidade da alma, seu progresso através de múltiplas encarnações, e deduzia de tais ensinamentos a moral puríssima. Falando da Força Criadora, dizia-se que ela ocupava todo o Universo e que só ela podia abranger o infinito. Sobre a imortalidade da alma se dizia também: o corpo, invólucro da alma, que faz dele sua morada, é uma coisa finita, porém a alma que o habita é invisível, imponderável, incorruptível e eterna. O homem terrestre é triplo como o poder que reflete; inteligência, corpo fluídico e corpo físico.

Dizia-se também que, quando o corpo morre, se o ser foi esclarecido na Terra, a alma ascende às regiões desses seres puros que possuem o conhecimento do que são como parcelas da Força Criadora; mas se a alma, quando encarnada na Terra, se deixou dominar pelas paixões, pelos desejos intemperados, é então obrigada a voltar de novo à Terra para recuperar o tempo que desperdiçou.

Muitos outros pensadores, na antiguidade, trataram da imortalidade da alma e da sua reencarnação como, por exemplo, Sócrates, Pitágoras e Platão. Tudo que acabamos de dizer ficou por muitos séculos como ensinamentos ocultos e por isso se denominou ocultismo e isto nada mais é do que o moderno espiritismo, que tem por base a doutrina de Cristo.

Passando aos nossos dias, nos é grato afirmar que é o espiritismo a maior preocupação de muitos estudiosos no nosso planeta. Entre esses sábios contam-se G. Delanne, que diz: "com a certeza das vidas sucessivas e da responsabilidade dos atos, muitas questões apresentar-se-ão sob outros aspectos. As lutas sociais que, em nossa época tomam um caráter terrível de preparo, poderão ser amortecidas pela convicção de que a duração de uma existência é apenas um momento na eterna evolução. Com menos orgulho na classe alta e menos inveja nas baixas camadas sociais, uma solidariedade efetiva nascerá ao contato desta consoladora doutrina, e talvez nos seja dado ver desaparecerem as lutas fratricidas, produtos ineptos da ignorância, dissipando-se diante dos ensinamentos de amor e fraternidade que são a irradiante auréola do espiritismo". Isto o afirma G. Delanne na sua Evolução Anímica.

Entre os sábios brasileiros nos é grato destacar neste momento: Visconde de Sabóia, saudoso diretor e lente jubilado da Faculdade de Medicina desta cidade e membro de diversas sociedades científicas brasileiras e estrangeiras, mestre dos mestres da atualidade, que escreveu a Vida Psíquica do Homem, ensaio filosófico sobre o materialismo e o espiritismo, bela obra de 622 páginas; Dr. Antonio Pinheiro Guedes, cuja obra denominada Ciência Espírita é um primor de sabedoria, tão clara e tão simples que todos podem facilmente compreender; Dr. Alberto Seabra, notável médico paulista, que, na sua bela obra denominada O Problema do Além e do Destino, esclarece fartamente todos aqueles que não sejam escravos de preconceitos. Ele garante que o invisível nos cerca por todos os lados, que o corpo físico é a manifestação da alma invisível que o engendra por intermédio do seu corpo fluídico e que é o verdadeiro mediador plástico entre o mundo visível e o mundo invisível, entre o homem físico e o homem transcendente. Que invisível é o que temos de melhor e de mais nobre: a consciência, a vontade, a inteligência, a sensibilidade, a memória. 

Como vedes, pois, além do espiritismo ser tão velho como o nosso mundo, está ele atualmente preocupando intelectuais de todos os continentes. Deixou de ser uma coisa que fazia loucos para ser uma ciência que cura loucos.

A prática desta doutrina, quando não se tem vontade firme para o bem e não se  conhece o valor do pensamento sujeito a essa vontade forte, é um grande mal para a humanidade. Para praticar um espiritismo verdadeiramente saudável, o ser, se colocando acima das misérias humanas e dos preconceitos sociais, deve procurar entender:

A. que dois elementos regem o Universo: Força e Matéria. 

B. que nascem da ação da Força sobre a Matéria todos os fenômenos que os seres humanos já têm conhecimento e muitos outros que virão a ser estudados.

C. que o espiritismo, demonstrando a existência do mundo espiritual e suas relações com o mundo material, dá a chave de uma multidão de fenômenos não compreendidos, que são por isso mesmo considerados como inadmissíveis por muitos pensadores. 

D. que é por isso que o espiritismo atrai tanta gente à crença de verdades que eram consideradas até há pouco como utopias. O espiritismo não tem mistérios, nem teorias secretas; tudo nele deve ser dito à luz do dia, para que todos possam julgá-lo com conhecimento de causa, mas cada coisa deve vir a seu tempo, para vir com segurança, e nós dizemos que os tempos são chegados. É, pois, aqui, nesta casa racionalista cristã fundada e dirigida pelo Astral Superior e noutras que se fundarem sob essa mesma orientação, que se chegou à conclusão de que dos dois elementos de que se compõe o Universo, dos quais tudo deriva, a Inteligência Universal e a Matéria Cósmica, existem diferentes categorias, desde as mais densas até as mais diáfanas, correspondentes aos mundos mais adiantados. 

E. que o conhecimento dessas categorias e como elas se manifestam e operam para o bem e para o mal, para beneficiar ou prejudicar a humanidade, é imprescindível para o nosso completo esclarecimento e felicidade relativa, e a esse conhecimento chegamos a ponto de podermos classificar cada uma dessas categorias espirituais e fluídicas e assim podermos garantir que elas são a causa de todos os males, quer psíquicos, quer fisiológicos, de que sofre a humanidade. 

F. que esses dois elementos, estando sujeitos às leis de atração, podem ser usados para o bem ou para o mal, conforme a força do pensamento da pessoa ou pessoas que os queiram atrair e mui especialmente se essa pessoa for médium. 

G. que não há mais dúvidas sobre o conhecimento exato das entidades ocultas, porque formada que seja uma corrente fluídica, organizada e dirigida pelos espíritos do Astral Superior, não poderá haver mistificações e então nessa corrente fluídica que é o ímã com o qual se pratica a lei de atração aplicada aos espíritos e aos fluidos, se conhecerá a natureza das partículas da Inteligência Universal.

São esses conhecimentos da composição do Universo, das leis que regem a ação da Força sobre a Matéria e, sobretudo, da formação das correntes fluídicas que devem colocar o Brasil na vanguarda dos estudos espiritualistas. 

É este o nosso espiritismo e estamos prontos a receber de braços abertos a todos aqueles, cientistas ou não, que queiram conhecer os porquês de tudo quanto existe e, portanto, da nossa existência sobre a Terra.

Aqui nos têm os governos de todos os países e os seus sábios e não sábios à sua disposição, e felizes nos julgaremos se o nosso oferecimento for aproveitado por todos, sem distinção de cores e de classes; e se todos aproveitarem o resultado do trabalho gratuito do Astral Superior, que por nosso intermédio está pronto a tudo esclarecer e a praticar o bem em todos os sentidos, sem qualquer remuneração nem mesmo agradecimento, que esta Casa e as suas filiadas não aceitam nem aceitarão jamais.


Extrato do discurso de Luiz de Mattos na abertura da Casa-Chefe do Racionalismo Cristão, no Rio de Janeiro, em 24 de dezembro de 1912, publicado na Tribuna Espírita. O jornal referia-se à inauguração do segundo hospital, no Brasil, para a cura de obsedados.

Na ilustração, reprodução de óleo que retrata Luiz de Mattos, sentado, tendo ao lado o amigo Luiz Thomaz, na varanda de sua casa, em Santos (SP); ao fundo, a Casa-Berço do Racionalismo Cristão.

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