Tio João, obrigado por tudo

Humberto Cottas Rodrigues

Todo mês aparecia lá em casa aquele envelope de papel pardo, deixado em cima da mesa da sala por meu pai. No envelope vinha escrito a mão “Para o Dr. Beto” e em seu interior constava sempre alguma revista de conteúdo educativo, preferencialmente com cunho científico. Era sempre algum fascículo de enciclopédia ou atlas da área médica, uma edição da National Geographic ou algo do gênero. Durante anos a fio, todos os meses sem falta, estava lá o incentivo de um tio querido a seu sobrinho, para que cultivasse o hábito da leitura e da curiosidade científica.

Tio João, na verdade tio de meu pai (Humberto Machado Rodrigues, presidente internacional do Racionalismo Cristão) e que seria o equivalente a meu tio-avô, era o que se poderia chamar de tio querido na própria acepção da palavra.

Representava aquela figura de tio que marca toda uma infância, deixando a imagem de seu rosto e o som de sua voz gravados para sempre em nossa retina e em nosso córtex da memória. Basta lembrar dele e logo vem à mente sua fisionomia, por vezes séria e fechada, em outras risonha e bem humorada. Seus cabelos brancos como as mais alvas nuvens, cuidadosamente penteados. A pele branca em contraste com as bochechas bem rosadas atestavam a genética portuguesa típica dos “Cottas”, traço este que era tão presente em seu irmão Antonio Cottas e sua irmã Delphina (minha avó paterna), assim como o é em nossos primos João Gomes, João Miguel, Luciano e por aí vai. Seu tom de voz era manso e pausado, porém firme, e emanava um português impecavelmente escorreito. Uma marca registrada de Tio João era uma vaidade pessoal com sua aparência que até dava gosto de ver. Sempre se preocupava em ficar elegante, perfumado e com roupas bem passadas. Apesar disso, nunca apresentou ares de soberba ou aparência esnobe e tratava a todos com cordialidade e simplicidade.

Quando ainda muito criança, eu falava que queria ser médico, não sei bem por que. Muito possivelmente por um espírito de altruísmo puro que às vezes toma conta de uma alma infantil. Ou quem sabe por admirar os pediatras que nos assistiam e com sabedoria nos livravam de desconfortos físicos típicos da infância. Bem, o motivo que me levou tão cedo a anunciar uma possível vocação não importa. O importante é lembrar que bastou isso para que o Dr. João Baptista Cottas perdesse qualquer cerimônia em alardear que seu sobrinho-neto iria ser colega médico. E daí em diante, pelo resto da vida, passou a criar todos os estímulos para que isso se tornasse realidade, mandando revistas, atlas do corpo humano, e contando casos da sua vida na Medicina. Sempre via seus olhos brilhando ao me transmitir esses incentivos, e pude perceber o seu enorme orgulho em saber da possibilidade de ter um sobrinho médico.

E se de fato os motivos que me levaram à escolha profissional foram os mencionados no início do parágrafo acima, sem dúvida, o interesse espontâneo do Tio João em que me transformasse médico acabaram por consolidá-la. Afinal, não poderia decepcioná-lo. E assim, ele pôde testemunhar o meu ingresso na faculdade e a confirmação de uma vocação. Infelizmente, pelas limitações do nosso mundo físico, não houve como ele estar presente em minha formatura. Mas de alguma forma, como bem sabemos, a consciência dele deveria estar por ali, como tem estado em vários outros momentos de minha vida.

Tio João era um homem amável, extremamente emotivo, organizado, metódico, culto, bem informado, temperamental, com uma personalidade ímpar. Aliás, tudo isso é bem peculiar nos Cottas. Por vezes transparecia um lado meio irascível, mas, paradoxalmente falando, irascível no bom sentido, pitoresco até. Como exemplo, lembro do “seu Pastor”, o saudoso Durvalino, motorista da Casa-Chefe, nos falando: “Não é possível andar com o Dr. João. Quando entro no túnel Rebouças, se ficar na pista da direita ele reclama por ser cheia de buracos. Se vou para a esquerda, ele me dá bronca por causa da velocidade alta. Se ligar o ar-condicionado, reclama do frio, e se desligo e abro a janela, ele esbraveja em razão do vento. O Dr. João não é fácil...”, dizia seu Pastor, soltando aquela velha gargalhada conhecida.

Outra passagem que traduz esse lado de Tio João é lembrado por minha mãe, um verdadeiro arquivo vivo de histórias da família e da instituição pela qual eles deram a vida. Essas histórias ela já nos contou, como a que segue. Vez por outra, Antonio Cottas (apesar de também ser meu tio-avô, ao invés de tio, era o “Vô Cottas”), recebia uma visita que tinha algum problema de saúde. Com sua austeridade e liderança inigualáveis, o velho Antonio Cottas chamava o seu Zé (o “Zé Motorista”) e lhe dizia: “Vá ao consultório do João e traga-o cá, para examinar o fulano e medir-lhe a pressão”. Lá ia seu Zé e trazia Tio João a bordo do espaçoso Galaxy. Na verdade, nem Tio João nem qualquer outra pessoa teria a ousadia de não atender a um pedido de Antonio Cottas, em razão de sua postura sempre enérgica, mas que nem por isso permitia esconder a grandiosidade de seu espírito. Quando chegava à secretaria, por vezes Tio João falava a alguma secretária: “O que o Antonio está pensando? Acha ele que não tenho nada a fazer e posso ficar à sua disposição?” Imagino que isso tinha de ser falado em tom bem baixo, pois naquele tempo a secretaria da Casa-Chefe não tinha divisórias. Com isso, Antonio Cottas podia assistir a tudo e a todos, sentado em sua mesa de trabalho no fundo daquela imensa sala. Tenho em minha mente aquele ambiente, em que todos só falavam em sussurros, os risos eram abafados e o som que predominava era o do teclar nas máquinas de escrever das meninas. Tenho a nítida memória dos personagens que circulavam diariamente naquela enorme e suntuosa secretaria nos anos 70, entre eles o próprio Antonio Cottas, Dr. Costa, Geraldo, minha mãe Marluce, Naira, Maria Tereza, Lea, Dalvo, Alberto... E para lá ia o Dr. João Baptista Cottas oferecer assistência médica a quem quer que fosse. E tome medições de pressão arterial, para fechar com chave de ouro aqueles pequenos infortúnios que eram os eventuais chamados de “urgência”!

Trabalhou a vida inteira como chefe da equipe médica do Estádio Mario Filho (o Maracanã), o que lhe dava grande orgulho e onde era muito querido. Além disso, atendia nos seus consultórios em Jacarepaguá e posteriormente em Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro. Profissionalmente, sempre trabalhou como clínico geral e assim adquiriu grande experiência médica, principalmente numa época em que ser bom médico era bem mais difícil do que nos tempos atuais. Apesar de hoje em dia a quantidade de informações a serem assimiladas ser bem maior, naquele tempo a experiência do clínico era sempre o principal, haja vista a ausência de grandes recursos tecnológicos. Um bom exemplo histórico dessa experiência e do talento clínico do Dr. João Baptista Cottas pode ser lembrado no período em que Felino Alves de Jesus adoeceu. Quando Felino ficou gravemente doente e causou grande comoção na família, houve séria dificuldade diagnóstica. Pelo que sempre me falaram, havia uma síndrome infecciosa febril após viagem a Fernando de Noronha, e nenhum dos profissionais consultados chegou a um diagnóstico preciso. Felino foi um grande racionalista cristão e um expoente da aviação brasileira pela FAB, o que o obrigava a frequentes viagens. Talvez por ser um familiar próximo, Tio João não foi encarregado de ser o médico responsável pelo caso, mas ficou a par do quadro clínico que então se apresentara. Em seguida, com toda sua experiência, afirmou: “Isso é tifo, o que Felino tem é tifo...” E não bateu na trave, pois logo o diagnóstico de febre tifóide acabou por se confirmar. Infelizmente, não a tempo de salvá-lo com a grande novidade que era o surgimento da Penicilina.

Logo que recebi o convite feito pelo Gilberto (Gilberto Silva, presidente em exercício do Racionalismo Cristão) para escrever neste espaço sobre o Tio João, resolvi dar um passeio por Vila Isabel e checar se ainda existia sua casa, na Rua Justiniano da Rocha. Fui lá em busca de inspiração e de velhas reminiscências. E lá estava a velha casa, que tanto frequentei quando criança. E assim, um filme passou em minha mente. Cursei meus primeiros anos escolares (antigo primário) em um pequeno colégio praticamente ao lado. Não raramente, no horário de saída ao final da tarde, quando minha mãe me buscava, íamos lanchar na casa de meu tio-avô. E quem nos recebia com enorme carinho era ninguém menos do que a inesquecível Tia Erica, companheira de Tio João por sua vida inteira e que hoje dá nome ao bazar do Racionalismo Cristão.

O motivo deste texto nada mais é do que homenagear o Dr. João Baptista Cottas no momento em que se aproxima a data do seu centenário de nascimento, 27 de abril de 1911. O relato acima é para aqueles que não tiveram o prazer de conhecê-lo pessoalmente saberem um pouco sobre sua vida. E para os que o conheceram rememorarem um pouco a sua saudosa figura.

Fecho os olhos e vejo Tio João, agora, em minha frente. Com seus cabelos brancos, sorrindo, abrindo os braços para um abraço fraterno, com olhos brilhantes sob seus óculos de aro escuro, como sempre bem perfumado, elegante e vestindo sua roupa de médico toda branca, com um linho impecavelmente bem passado.

Aproveito e digo a ele o que não tive a oportunidade de falar antes: parabéns, Tio João, por uma vida tão rica e brilhante. E obrigado por tudo.

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