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Jovens ontem, hoje e amanhã
Clecy Ribeiro É comum ouvir falar em carência de líderes. Urge, então, formá-los Investir na juventude. Agora. Essa a tônica de extenso relatório do Banco Mundial (ver Google: Development and the next generation, Brasil, pág. 160 e 161), ressaltando o papel dos jovens no progresso, redução da pobreza, poder decisório, enfim, na sociedade. Como? Os desafios alteram-se com a nova geopolítica, pressões demográficas, democracias fragilizadas. Anseios, perspectivas, possibilidades frustram-se, desequilíbrios e desigualdades agravam-se. Uma juventude vulnerável, vozes e aspirações reprimidas. Nos países pobres, por exemplo, ela é hoje, a um só tempo, vítima e criminosa. Violência urbana e violência política vinculam-se. Como se apresentam aos jovens a estrutura de família, economia, leis, religião ou princípios, práticas sexuais, sociedade enfim? "Um senso de injustiça e um senso de insignificância foram as duas fontes de não-conformismo que moveram os jovens, negros e brancos, no rumo da ação radical durante os anos 60: o protesto contra a violência, a atividade política reformista e a política de confronto". Assim evocam Stanley Coben e Lorman Ratner (O Desenvolvimento da Cultura Norte-Americana, Editora Anima, 1985). Observando que as causas nem sempre produzem os mesmos efeitos, o pesquisador francês Laurent Bonelli explicou a revolta na periferia parisiense em fins de outubro, princípios de novembro 2005: uma forma comum de protesto (e o mesmo vale para 2003), um dos meios que, num contexto de desorganização e degredo político, foi deixado à população para se fazer entender. O sociólogo Denis Duclos, por sua vez, desvenda um ponto de similaridade com acontecimentos análogos nos Estados Unidos: o clima de descrédito institucional abatendo-se automaticamente sobre um acontecimento detonador. Investir no jovem. Mas... O consultor político Richard Gavin, com trabalhos prestados à Unicef, constata: "A imagem que se tem é a de jovens em seus 20 anos, diploma na mão, saudáveis e bem vestidos, aguardando um chamado que nunca chega". O mercado de trabalho tornou-se mais competitivo, exigindo maior qualificação. Nos países de baixa renda, poucos empregos em economias estagnantes. Opções limitadas, conflito à vista. Na América Latina, a reação da juventude às frustrações e desesperança liga-se à fragilidade das democracias. "Devemos repetir como mantra que a prevenção é possível", prega o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, estudioso da violência. Seria menos custoso chegar às raízes do inconformismo (e produzir ganhos de sustento) que a recuperação. Nas regiões de conflitos internos, são milhões de crianças e adolescentes sem pais ou separados das famílias, ou recrutados como soldados, ou submissos a tráfico sexual e escravidão de trabalho (esta inclusive nos países ricos). Na Europa, a instabilidade da juventude também apresenta peculiaridade: mobilidade. Deixar o país associa-se à busca de emprego – e risco. "Há muito o que temer em relação ao estado da família, nos países ocidentais e em outros. É tão errôneo dizer que toda forma de família é tão boa como qualquer outra quanto sustentar que o declínio da família tradicional é um desastre". Palavras de Anthony Giddens, importante pensador britânico contemporâneo. Advoga a "democracia da emoção", em que os jovens podem e devem ser capazes de resposta. Apregoa ainda: "Governo, economia e sociedade civil precisam estar em equilíbrio". Como promovê-lo, por exemplo, na África, ou na China e Rússia, tidas como democracias autoritárias? Na Rússia, a juventude tornou-se o setor potencialmente mais afluente da nova população urbana. Seu engajamento político vem sendo cultivado com zelo. Afinal, ajudou a eleger o atual presidente Putin, a quem venera. Representativa de partidos políticos minoritários, encontra-se polarizada entre nacionalistas e liberais antigoverno. À sombra, gangues de jovens xenófobos agem contra os alienígenas escuros: etnias africanas e asiáticas, georgianos, armênios, chechênios, azerbaijanos. Quanto às gerações chinesas dos anos 1980 e 1990, expurgadas da dura experiência do socialismo maoísta, parecem determinadas a atingir gratificação individual em termos de conforto. A mídia os define: modernos, ocidentalizados, materialistas. Um individualismo que o antropólogo Yunxiang Yan compara a seus "sósias" norte-americanos. Bill Gates, dizem pesquisas, tornou-se modelo dos mais populares. Contudo, a rebeldia não chega a desafiar o sistema unipartidário. Em geral sem crescimento econômico, fronteiras inseguras, escassez de recursos, taxas altíssimas de desemprego e Aids pandêmica, pelo menos 30 países africanos vêem inchar sua população de jovens. Mais de 50% de 15 a 29 anos, enquanto nos Estados Unidos não chegam a 30% nessa faixa etária. E o futuro? A cientista política Michelle Gavin o coloca na política, como alternativa. Um espaço de oportunidades nos setores público e privado. Por ora, a juventude, levada aos centros urbanos inflados, junta desemprego e alienação. Forma gangues de rua, arrisca-se nas redes de contrabando humano, vira soldado nas guerras internas, aceita trabalhos forçados. Ou simplesmente espera, como nas culturas voltadas à família. Como toda moeda tem dois lados, no sub-Sahara africano a juventude empenha-se em atividades culturais e programas de paz. O componente religioso perdura. O mesmo que traça os rumos dos "soldadinhos de chumbo" da guerra terrorista no Oriente Médio. A realidade demográfica espanta: 50% com menos de 19 anos; 65% com menos de 25 anos. Suscetível, em meio aos conflitos que rasgam a região, a traumas e apelos ideológicos, inclusive o martírio heróico. Também a concentração urbana destaca-se no perfil do jovem indiano contemporâneo, de idéias próprias e mulheres economicamente independentes. Oriundo das melhores universidades técnicas, vê abrirem-se as portas a futuro melhor, com trabalho árduo e mérito – em que pese um quarto da população abaixo dos níveis de pobreza. Televisão e internet estreitam ou varrem o fosso entre os primos da cidade e do campo. Um caldeirão consumista num país em expansão rápida, mais ocidentalizado, contudo preservando cultura única, singular, que tem na família atores importantes adaptando-se aos tempos. Um pé no passado, outro na modernidade. É este processo revolucionário-econômico, político, tecnológico, cultural – que os jovens ora vivenciam. Produzirá os líderes de amanhã. Como investir? A mensagem fundamenta-se na educação. Mobilizar sua energia positiva. Proporcionar-lhe meios, ajudá-los a encontrar-se. (A autora é jornalista) |
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