Luciano Cotas Ferreira

Humberto Cottas Rodrigues

Provavelmente quem leu o título deste artigo e conhece o nome da família há de estar imaginando um erro de impressão do jornal. Ou que o protagonista homenageado seja de outra família com nome semelhante. Mas não é uma coisa nem outra. Nosso primo Luciano sempre foi e sempre será um ente querido da família Cottas. Por um mero erro de grafia em seu registro de nascimento, ficou assim, com um “T” a menos. Pelo menos ele passou toda a vida sem a necessidade que temos de sempre anunciar o sobrenome, para quem o escreve em algum documento, com o complemento “é Cottas, mas com dois tês!” Enfim, independente dessa questão irrisória e pitoresca do “T” a menos, o que interessa é que o Luciano é tão da família quanto Antonio Cottas, João Baptista Cottas (Tio João, homenageado em artigo que escrevi para este jornal há um ano), João Cottas Gomes e Humberto Machado Rodrigues, seu primo e amigo inseparável de infância. E é sobre essa proximidade, da qual muitos não sabem, que iremos conversar agora.

Luciano Cotas Ferreira nasceu em 13 de novembro de 1931. Era filho de Lucinda Cottas, irmã de Antonio, Conceição, Laurinda, João Baptista (o caçula) e Delphina (mãe de Humberto Machado). Luciano e Humberto eram, portanto, primos de 1º grau, com pequena diferença de idade, sendo Humberto cerca de dois anos e meio mais velho. Foram, então, criados praticamente juntos, em virtude da convivência familiar. E isso implicava também o fato de que receberiam a influência e educação austera do tio mais velho, ninguém menos do que Antonio Cottas.

Tio Antonio (conforme os dois primos a ele se referiam), financiou integralmente toda a formação educacional de ambos, no Colégio Lafayette, considerado um dos melhores, se não o melhor ensino do Rio de Janeiro na época. Embora fosse um provedor tão magnânimo a esse ponto, por outro lado o Tio Antonio, por sua formação rígida e personalidade ímpar, também cobrava os resultados. E cobrava tanto nas notas de boletins como no comportamento dentro e fora do colégio.

Além do temperamento forte de Antonio Cottas, é bom salientar que os tempos eram outros. E na primeira metade do século passado, diferentemente do mundo democrático e liberal de hoje, era culturalmente normal pais e professores cobrarem de forma demasiadamente rígida qualquer questão disciplinar. Para se ter ideia, até a famosa palmatória em sala de aula era uma conduta legítima. Apesar disso, Tio Antonio jamais usou de violência física com os sobrinhos; no entanto, não poupava em fortes cobranças, como forma de educar e disciplinar.

Em meio a esse cenário, o primo Humberto era bastante enquadrado. Apesar de sofrer com toda a pressão que havia, resignava-se e fazia de tudo para obter notas altas e cumprir todas as exigências. Com o primo Luciano, a história ficou um pouco diferente. Ele, por questões de temperamento e personalidade própria, resolveu desgarrar-se de uma situação mais autoritária. E decidiu trilhar seu próprio rumo, sem a influência da família. Se alguém na época pudesse imaginar que isso o levaria a algum tipo de fracasso, teria sido ledo engano...

Luciano concluiu bem os estudos, formou-se em Direito, da mesma forma que seu primo Humberto, e foi aprovado em concurso público, tendo desenvolvido brilhante carreira até aposentar-se pela Caixa Econômica Federal. Se houve realização no lado profissional, em termos familiares houve ainda mais. Casou-se e viveu uma vida inteira ao lado da querida e dedicada esposa Rosa (a Rosinha, conforme meus pais a chamam). Tiveram dois filhos, Carla e Alberto, tendo sido sempre um pai dedicado, amoroso e companheiro.

Nosso primo era uma pessoa marcante e inesquecível. Garboso, inteligente, sedutor e bem articulado, era sempre um bom papo e companhia excelente. Gostava de viver a vida intensamente e era o que se pode chamar de “bon vivant”, na melhor acepção do termo. Por esse tipo de temperamento peculiar, fica fácil hoje entender por que ele não se enquadrou em regras disciplinares mais rígidas que lhe foram impostas. Porém, em algumas conversas que tive com ele, não apresentava qualquer mágoa por isso. Referia-se ao tio com respeito e até com certo carinho, mas sem deixar de reconhecer que não aguentava cobranças severas.

Há poucos anos, em jantar de comemoração inesquecível das bodas de ouro de Luciano e Rosinha, ele, com a mão em meu ombro, sentenciou-me: “Rapaz, Tio Antonio não era fácil. Seu pai aguentou firme a pressão, mas eu não tinha temperamento para aquilo”. O fato é que ambos os primos, cada qual com seu temperamento bem distinto do outro, foram vitoriosos em suas trajetórias pessoais. Maria Cottas (a Tia Mariazinha, esposa de Antonio Cottas), tinha verdadeira adoração pelos dois e fazia de tudo para evitar que o Luciano, por suas características pessoais, ficasse mais vulnerável ao rigor das exigências do tio.

Diante das questões de ruptura familiar, os primos Luciano e Humberto, que eram unha-e-carne, tomaram rumos diferentes na vida. Se Luciano seguiu os caminhos que acima enumerei, Humberto permaneceu ao lado do tio e foi ficando cada vez mais absorvido pelo idealismo da doutrina racionalista cristã, até tornar-se seu sucessor na presidência da instituição. Surgiu muita distância e perda de convivência entre eles, no entanto nunca deixaram de adorarem um ao outro, no exemplo mais autêntico de uma grande amizade surgida na infância.

Luciano, apesar de não ter continuado a frequentar as atividades da Doutrina pelas razões já citadas, permaneceu a vida inteira sendo um racionalista cristão e agindo como tal, seguindo todos os princípios que lá aprendeu e transmitindo-os aos filhos. Cumpriu toda a sua jornada com a mesma retidão de caráter, honestidade, amizade leal e bondade.

Sou testemunha ocular da amizade entre os primos Humberto e Luciano. Passavam às vezes anos sem se ver, mas eu ouvia as conversas telefônicas em diversas ocasiões, principalmente em datas de aniversário. E mesmo quando não se falavam, a amizade ficava evidente ao ouvir meu pai se referir ao Luciano: “Meu grande amigo...”; Assim ele dizia, quando o primo era citado em alguma conversa nossa. E o Luciano, por sua vez, não se conformava com a falta de convivência entre ambos, que foi aumentando com o passar do tempo, em razão das contingências e obrigações da vida cotidiana. Sempre dizia algo do tipo “temos que arranjar um jeito de a gente se ver, matar saudades, colocar assuntos em dia...” E do outro lado aquelas respostas do tipo “é, temos mesmo, vou dar um jeito, mas ando sem tempo...”.

Acabei tendo a feliz iniciativa, depois de me indignar com a inércia que havia para se encontrarem fisicamente, de promover um almoço entre os primos. Isso foi há cerca de uns seis anos, e marcamos na Churrascaria Majórica, no bairro do Flamengo. Para lá fomos, Luciano, Rosinha, meus pais, eu e Monique. Já fazia bastante tempo que não se viam, nem sei quantos anos. E quando se viram, ambos com seus setenta e tantos anos de idade, trocaram aquele sorriso puro dos tempos em que eram meninos, faziam travessura e jogavam bola na rua. E deram um abraço apertado, demorado. Infelizmente não tirei foto, mas a imagem ficou bem arquivada na minha retina. Nesse dia, o Luciano me contou vários episódios vividos por eles na infância e adolescência, enquanto tomávamos uma caipirinha de lima antes do almoço.

Depois disso, os dois primos somente vieram a se encontrar nas bodas de ouro do Luciano e na comemoração do aniversário de 80 anos do meu pai. Recentemente eu mantive algum contato com o primo Luciano, para solicitar alguns exames de rotina e então ele me disse ao telefone: “Vamos combinar um encontro entre nós. Deixa eu me recuperar de uns probleminhas de saúde e vamos marcar. Você sabe que, pela idade, a gente agora já está chegando na última curva da corrida. E aí já viu, né? Não dá mais para ficar com aquele papo de deixa pra depois, porque a gente não sabe se vai ter depois...”, disse, dando risada.

E assim, a “última curva” a que ele se referia para mim no telefone acabou chegando. Nosso primo Luciano travou uma dura batalha pela vida nas últimas semanas, aos 80 anos de idade, ajudado pelo notável trabalho do médico da nossa família, Dr. Marcelo Santino. Mas acabou nos deixando na manhã do dia 18 de abril de 2012. Larguei um pouco meu trabalho no início da tarde deste dia e fui ao velório, para dar um abraço na Rosinha e nos primos Carla e Alberto, seus filhos. Saí do cemitério Memorial do Carmo e não consegui conter as lágrimas dirigindo o carro, em meio ao trânsito infernal da Avenida Brasil.

Por ironia do destino, meu pai, quatro dias antes, também havia sido internado, com uma situação relativamente grave de saúde e bastante enfraquecido. E naquele momento, ainda engarrafado no caos da cidade, mentalizei bastante a memória do Luciano e pedi, se fosse possível, para que ele pudesse emitir de onde estivesse, vibrações positivas para o seu primo Humberto, de quem ele tanto gostava. De forma impressionante, algumas horas depois, às 19h do mesmo dia 18 de abril, Humberto Machado Rodrigues também faleceu.

Não dá para ter certeza se isso procede ou não, mas fiquei com a impressão clara de que um convocou o outro. Mas a certeza que tenho é que agora eles não têm mais desculpas para falta de tempo ou qualquer outra dificuldade, e os assuntos de tantos anos estão sendo postos em dia, em conversas memoráveis.

E além disso tenho outra certeza: a de que aquele abraço apertado dos primos Luciano e Humberto, que vi na Majórica, se repetiu...


A escolha do sucessor

Gilberto Silva, presidente do Racionalismo Cristão, conta como foi informado de que seria o sucessor de Humberto Machado Rodrigues:

“No final de ano de 2003, quando eu me preparava para os tradicionais festejos de final de ano com a família, recebi um telefonema do Dr. Humberto. Como era comum ele me telefonar vez ou outra – houve época em que nos falávamos quase todos os dias – parei o carro e o cumprimentei efusivamente, acreditando ser a habitual saudação de final de ano com que ele carinhosamente me brindava em dose dupla, ou seja, quando terminava o expediente profissional do ano e, depois, instantes antes da meia-noite.

Após me cumprimentar, de forma educada e rápida, com voz firme me disse: "Gilberto, escolhi você para me suceder na presidência do Racionalismo Cristão. Na próxima semana, irei a um cartório de notas para que seja lavrado um documento e fique registrada a minha vontade".

Atônito, tentei balbuciar algumas palavras, mas ele continuou falando sobre as responsabilidades que eu teria e que confiava em mim. Lembro-me bem: ele disse que esse assunto era um segredo nosso, da Marluce e da Iraci, que seria revelado em momento oportuno a todos.

Em seguida, disse: "A Marluce quer falar com você", e se despediu com o seu habitual "até a volta". Marluce então me informou: "Meu filho, Humberto disse que confia em você, e eu respondi: então, ligue e diga isso a ele". E nós dois fomos às lágrimas.

Terminada a ligação telefônica, como num turbilhão, vários fatos da minha vida passaram pela minha mente. Desde as frases de meu pai, quando eu tinha 13 anos de idade: "Deixo você ir sozinho para São Paulo desde que você me prometa que vai estudar e frequentar o Centro Redentor"; aos 18 anos, ao pedir sua autorização para apresentar minha namorada, Iraci, à família: "Se ela for racionalista cristã, você pode trazê-la em casa"; até lições e as frases repetidas dos mestres queridos, como a de Antônio Flôr (quando eu desencarnar, vou ficar grudado em você), de Humberto Romanelli (você não está na Doutrina por acaso), Pompeu Cantarelli (eu vou 'fazer' o próximo presidente da Doutrina) e os 26 anos de convivência diária com o meu segundo pai e educador, Cecílio Longhi.

O que mais me chamou a atenção naquele momento e nos dias subsequentes foi constatar a minha ingenuidade em não ter percebido os "sinais" emitidos pelo próprio Dr. Humberto nos anos que antecederam aquele final de 2003. Por exemplo, em 1995, justificando não me ter escolhido para suceder Cecílio Longhi na presidência da Filial São Paulo, disse a todos: "Gilberto é o Racionalismo Cristão do futuro".

Em todos os nossos encontros, ele me relatava situações e problemas vivenciados na presidência da Doutrina, com a riqueza de detalhes que só poderiam ser passados a quem ele quisesse preparar para maiores responsabilidades, sem contar que, praticamente, todas as semanas ele me telefonava. Em animadas conversas sobre nossos filhos, anedotas (eu ria muito das suas gargalhadas), a vida, e algumas entremeadas com consultas sobre questões administrativas da Doutrina, ele invariavelmente me perguntava: "quanto tempo mesmo falta para você se aposentar?"

Como o plano da Iraci e o meu era, depois da aposentadoria, filhos criados, irmos viver numa casinha, na verdejante Serra do Japi, em São Paulo, eu pensava: acho que, quando eu me aposentar, o Dr. Humberto vai querer que eu vá, vez ou outra, ao Rio de Janeiro para dar algum tipo de suporte à Doutrina. Se ele me der a honra de ajudá-lo, faço a barba, ponho terno e gravata e vou com todo prazer.”

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