Preito a Luiz de Mattos

A doutrina racionalista  cristã respeita princípios, sem culto à personalidade

DA REDAÇÃO

No Racionalismo Cristão não se cultuam personalidades; respeitam-se princípios. A afirmação, de Antonio Cottas, feita em 1941, quando anunciou o fim das reuniões especiais em reverência a Luiz de Mattos e Luiz Thomaz, foi citada pelo presidente em exercício da Doutrina, Gilberto Silva, em seu discurso na homenagem prestada na Filial São Paulo à memória de Luiz de Mattos no dia do sesquicentenário de seu nascimento – 3 de janeiro.

Ao fazer a citação, Gilberto Silva acrescentou que a decisão de Antonio Cottas, de não mais realizar a homenagem, foi consequência do mau uso da ocasião por oradores que mais queriam aparecer, com frases rebuscadas e vocabulário que nem todos os ouvintes dominavam, do que propriamente preitear os fundadores do Racionalismo Cristão.

Gilberto Silva destacou, ainda, o caráter do humanista Luiz de Mattos, defensor da igualdade social, durante toda a vida física.

O presidente da Casa, Herval Tavares de Campos, após a abertura da cerimônia, acompanhou o descerramento de placa por uma criança, ao lado do busto já existente de Luiz de Mattos, entre outros colocados no imponente saguão do edifício-sede da Filial São Paulo.

Em seguida, o militante Ivo Garcia do Nascimento historiou a participação intensa e ilustre de Luiz de Mattos na sociedade brasileira de sua época, em Santos (SP) e no Rio de Janeiro.

Herval Tavares de Campos completou didaticamente, com dados ainda mais pormenorizados, informações sobre o codificador da doutrina racionalista cristã e toda a sua vibrante atuação até sua desencarnação, em 1926. 

LUTADOR. Ivo Garcia do Nascimento destacou o Luiz de Mattos abolicionista – que abrigava escravos fugitivos, ainda que se indispondo com amigos plantadores do café que ele exportava –, o defensor das causas sociais, o estudioso, o espiritualista e o empreendedor. Numa sequência cronológica, o orador mostrou o Luiz de Mattos menino, chegando de Portugal ao Brasil, e pouco depois transformando-se em grande empresário.

“Dos 20 aos 22 anos, tornou-se o principal exportador de café, sendo muito respeitado nessa área, devido à sua dedicação, honradez e grande coragem”, afirmou Ivo Garcia do Nascimento.

Disse, ainda: “Já nessa época tornou-se personagem de destaque na sociedade santista e tornou-se amigo de abolicionistas. Para melhor difundir suas idéias, passou a publicar artigos em jornais da cidade de Santos, defendendo direitos dos trabalhadores.

Na condição de vice-cônsul de Portugal na cidade, interveio em negociações envolvendo trabalhadores, sempre a favor destes. A luta pela abolição dos escravos o levou a ser recebido pela Princesa Isabel.

 Os confrontos de Luiz de Mattos lhe valeram alguns abalos financeiros, posteriormente superados, e abalos físicos. Perto dos 50 anos, com a saúde afetada, Luiz de Mattos dedicou-se a questões de espiritualidade e iniciou a preparação do que viria a ser a grande doutrina Racionalismo Cristão, iniciada em 1910, na cidade de Santos, com o nome de Centro Espírita Amor e Caridade”.

Em 1916 fundou o jornal a Tribuna Espírita, hoje A Razão, para poder, mais livremente, expor e esclarecer, os princípios da doutrina.

Herval Tavares de Campos deu detalhes da vida de Luiz de Mattos, sua participação nas campanhas abolicionista e republicana, até entregar-se aos estudos espiritualistas. No material pesquisado, Herval colheu, entre outros, diálogos determinantes na mudança de rumo de Luiz de Mattos, de livre pensador a espiritualista dedicado ao estudo da vida fora da matéria.

Contou Herval: Ao chegar a um casebre de sapê, aonde fora levado pelo irmão Manoel Lavrador, acompanhado do amigo Luiz Thomaz, Luiz de Mattos deparou com alguns dos seus empregados. Lá o esperava um homem que lhe disse:

– Sr. Comendador, o nosso presidente astral, Antonio Vieira, ordenou-nos que, quando o Irmão chegasse, lhe déssemos a presidência do trabalhos.

Luiz de Mattos, respondeu-lhe:

– Homem de Deus, eu conheço todos os meus irmãos e meu pai foi um homem de bem.

– Desculpe, Sr. Comendador, em nossa ciência usa-se assim.

– Ciência neste casebre?

– Faça o favor, assuma a presidência.

– Estás maluco, homem, eu não entendo nada disso, eu fico mesmo aqui na porta a presenciar.

Diante, porém, da insistência, quer do homem que o esperava, à porta, quer dos seus dois amigos, lá foi ele para a cabeceira da mesa, de onde presenciou fenômenos mediúnicos.

Conta, ainda, Herval que, chegada outra vez a hora, de novo partiram os três, Luiz de Mattos, Manoel Lavrador e Luiz Thomaz, para o espiritismo e, como anteriormente, havia ordem do centro, dada pelo presidente astral, Antonio Vieira, para que Luiz de Mattos, logo que chegasse, assumisse a presidência.

Fenômenos aconteciam em cada sessão e tudo se dava para que Luiz de Mattos se convencesse da existência da vida fora da matéria, e ele ficava surpreso como os espíritos transmitiam fatos de que só ele sabia.

Outros fenômenos aconteceram, inclusive uma comunicação dada por escrito, em Francês legível e livre de erros, causando espanto a Luiz de Mattos. Informado das condições morais, materiais e intelectuais do médium, ficou certo de que fenômeno importante se passava.

Em outra sessão foi dada uma comunicação em Inglês e ele analisou e verificou estar claramente legível.

Após 18 meses de estudos, o guia Pinheiro Chagas disse a Luiz de Mattos: "Meu filho, é necessário que te disponhas a iniciar a obra pois estás demorando muito". Por fim, decidiu-se.

No início de 1910, Luiz de Mattos, com 50 anos de idade, e Luiz Alves Thomaz, com 39, ambos ricos, como espíritos evoluidíssimos, iniciaram a grandiosa missão em que estavam incumbidos: A divulgação da vida fora da matéria, a fundação do Espiritismo Racional e Científico Cristão, que Jesus, o Cristo, praticara e procurara difundir e que durante tantos séculos ficara hibernando, por falta de condições para ser divulgado.

Ao encerrar a reunião, Gilberto Silva referiu-se ao busto colocado no saguão da Filial, de Antônio Flôr, a quem considera um mestre muito sutil, e lembrou o antigo militante Wilson Carnevalli, hoje presidente astral na casa racionalista cristã de São Miguel Paulista, que fazia aniversário justamente em 3 de janeiro.  

Com a colaboração de Roberto Farias de Oliveira

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