Luiz de Mattos e o idioma português

Antonio Lourenço

O mestre teve o talento de captar as efluviações dos grandes mestres da língua materna.

Mestre Luiz de Mattos, além da sua enorme capacidade mental e intelectual, tinha vasta cultura e erudição, que lhe permitiam, com relativa facilidade, abordar assuntos de natureza muito diversificada, como comprovam as conferências que promoveu, para divulgação da Doutrina Racionalista Cristã os artigos que escreveu, principalmente no jornal A Razão, que ele próprio fundou, e sua famosa Nota, em que sustentou as mais célebres polêmicas, com figuras religiosas, científicas, políticas e divulgadores dos mais diversos ramos de espiritismo.

Luiz de Mattos era um purista da língua portuguesa e admirava os grandes escritores e poetas portugueses e brasileiros. Era bem conhecida sua amizade por Júlio Ribeiro, o célebre autor do romance A Carne (ele próprio um mestre da língua portuguesa), além da que nutria pelo escritor português Ramalho Ortigão.
Não deixa de ter, no entanto, o maior interesse analisar a atenção que o nosso mestre dedicava aos escritos do grande romancista Camilo Castelo Branco.

No livro Uma data magna, editado em 1960, para comemorar o centenário do nascimento de Luiz de Mattos, Maria Cottas, filha do fundador do Racionalismo Cristão, cita (à pág. 69), o fato de seu pai ter sido "amigo de seu amigo", mas conhecia também as ingratidões do mundo, pois sofreu traições e desilusões e, por isso, "trazia ele, num quadro, sobre a sua mesa, na redação, o conhecido soneto Amigos, de Camilo Castelo Branco.

Curiosamente, segundo alguns autores, o único amigo "que não desfez os laços quase rotos", foi o poeta Antonio Feliciano de Castilho, também ele cego (1800-1875), pai de Augusto Castilho, contra-almirante que, em 1893, comandava a divisão naval portuguesa, surta no porto do Rio de Janeiro, durante a revolta da Armada, quando recebeu a bordo o almirante Saldanha da Gama e guarnições dos navios revoltosos, transportando-os a Montevidéu e salvando-os, assim, de morte certa. Por este fato, respondeu em Lisboa, em Conselho de Guerra, que o absolveu por unanimidade. Ele chegou a ministro da Marinha.

Camilo Castelo Branco nasceu em 1825, em Lisboa, e desencarnou em 1890, em São Miguel de Seide, freguesia do Concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, a apenas algumas dezenas de quilômetros da cidade do Porto. Em São Miguel de Seide, existe um museu, instalado na casa em que o escritor viveu os últimos 25 anos da sua agitada vida.

Ainda muito jovem, saiu de Lisboa para viver no Norte de Portugal, com um tio padre, que lhe ensinou o indispensável latim, tão comum na educação dos jovens da época. Assim, conheceu os clássicos latinos, antes de se instalar na cidade do Porto, em 1848, matriculando-se na Faculdade de Medicina, cujas aulas freqüentou durante dois anos, antes de se mudar para Coimbra, onde estudou Direito, também durante dois anos, vindo mais tarde a estudar Teologia, no Seminário Maior do Porto.

Regressado ao Porto, começa a colaborar com diversos jornais, escrevendo romances e novelas, em folhetins que tiveram pronta aceitação por parte do público e da crítica, tornando-se, rapidamente, figura destacada entre os intelectuais da época, pois defendia, ardentemente, a língua portuguesa, através de polêmicas célebres.

Historiador, dramaturgo, poeta, crítico e estudioso da literatura portuguesa, polemista, jornalista de grande talento, Camilo escreveu cerca de 70 romances e novelas, retratando a vida local e nacional, caracteres, figuras, cenas da vida real e todo tipo de habitantes das cidades e dos meios rurais onde se desenrolam as histórias que deixou para todo o sempre.

O enorme cortejo das paixões humanas que perpassam os seus romances, centrados, quase sempre, no norte de Portugal, aparecem, nas suas páginas, descritas em linguagem magistral, com um vocabulário de riqueza incalculável, pitoresco e incisivo.

A figura do "brasileiro", português emigrado no Brasil, regressando, rico, a Portugal, aparece em muitos dos seus romances, havendo mesmo dois títulos em destaque para os seus livros: A Brasileira de Prazins – Cenas do Ninho (1882) e Os Brilhantes do Brasileiro (1869). Sem dúvida, subsídios importantes para os estudos sociológicos inerentes à época.

Freqüentando os círculos sociais e artísticos da Cidade Invicta, principalmente a ópera, que nessa época funcionava quase todo o ano, Camilo veio a envolver-se em casos amorosos que causaram algum escândalo no seio da burguesia portuense, principalmente o envolvimento com Ana Plácido, mulher do "brasileiro" Pinheiro Alves, que viria a ocasionar a prisão de ambos na cadeia da Relação do Porto.

Durante um ano de cativeiro, Camilo produziu algumas das suas melhores obras, entre as quais se destaca essa formidável e trágica história de amor, que tem o sugestivo título de Amor de Perdição, cuja figura central, Simão Botelho, era parente de Camilo. Um tio paterno que, justamente, por causa de um amor contrariado, passou também pela mesma prisão.

Ao fim desse ano de cativeiro, Camilo e Ana Plácido são acusados de adultério (que era punido por lei, nessa época), mas vieram a ser absolvidos e, em liberdade, assumiram, plenamente, a sua relação, logo após a sentença proferida em tribunal.

Com a desencarnação de Pinheiro Alves, marido de Ana Plácido, o casal instalou-se em São Miguel de Seide, numa quinta que ela herdara, contraindo matrimônio logo em seguida.

Essa quinta tornou-se, depois de transformada em museu, no local de peregrinação para a imensa legião de admiradores de um dos maiores vultos da literatura portuguesa.

A vida do casal tornou-se muito difícil, não só no aspecto financeiro, mas, sobretudo, pelos desgostos pessoais e familiares que foram surgindo, principalmente pela má conduta dos dois filhos, que tornaram a vida do escritor muito penosa, pois a cegueira que o ameaçava, há anos, tornou-se irreversível.

No entanto, Camilo trabalhava incansavelmente, produzindo cada vez mais para sustentar a família e, sobretudo, para sanar os problemas ocasionados pelo desequilíbrio mental dos filhos, provando que as faculdades espirituais se mantêm intactas mesmo quando surgem problemas físicos. O mesmo aconteceu com Beethoven (1790-1827), que, surdo, foi capaz de escrever a 9ª Sinfonia, um dos maiores monumentos musicais de todos os tempos, e com Bedrich Smetana (1824-1884), compositor checo, também ele surdo, mas que foi o maior compositor de seu país.

Camilo, depois de uma vida intensa e tumultuada, acossado pela cegueira, pelos desgostos e pelo tédio, desencarnou, tragicamente, suicidando-se em 1890. Tinha o nosso mestre 30 anos! Ora, justamente Luiz de Mattos analisou com mão de mestre a vida do grande escritor, a quem chamaram, conforme o caso, "o gigante de Seide" ou o "torturado de Seide", ou ainda, "o amante da palavra".

Com efeito, no livro Páginas Antigas, editado em 1953 pela Casa-Chefe do Racionalismo Cristão e que é "uma coletânea de escritos de alto valor moral, de páginas esquecidas e que muito necessitam ser relembradas", à pág. 23, e subordinado ao título de A Falta de Educação, mestre Luiz de Mattos cita Camilo Castelo Branco.

Assim, logo a seguir ao título, como subtítulo e como introdução ao texto, pode ler-se: "abafa as virtudes e faz sobressair a injustiça, a maldade, a ingratidão e a tirania.

"Afeições caídas na voragem infernal do desengano"...
E comentava o nosso mestre: "Assim dizia Camilo das afeições que, para com ele, se transformaram em indiferença, em torturante abandono. Sua pobre alma de médium que, relativamente bom, até certo tempo, depois, como acontece com quase todos os médiuns, se deixou levar pela vaidade e se tornou um obsedado, grande e constantemente enfermo, em virtude do domínio pelo astral inferior, forças ocultas vivendo na atmosfera da Terra".

É de supor que o grande escritor conhecesse algo sobre a vida fora da matéria, porque algumas personagens das suas novelas apresentam distúrbios mentais que o escritor analisa à luz de um espiritualismo, incipiente, é certo, mas já em desacordo com os métodos tradicionais empregados pela medicina materialista, que ele, de resto, conhecia bem.

Por exemplo, no prefácio à 5ª edição do Amor de Perdição, escrito em 1879, Camilo escrevia: "Se, por virtude da metempsicose (reencarnação, dizemos nós) eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica e esta quinta edição do Amor de Perdição quase esgotada".

A verdade é que já se fizeram mais de 50 edições da famosa novela e todas estão esgotadas!

Ao contemplarmos a gravura inserta na obra editada pelo Racionalismo Cristão, com o título A Vida Fora da Matéria, em que aparece mestre Luiz de Mattos "sob a ação fluídica de alguns espíritos do Astral Superior que o auxiliaram na fase inicial da implantação dos princípios doutrinários", como Pinheiro Chagas, Custódio José Duarte, João de Deus, Antonio Vieira, organizador astral da Doutrina Racionalista Cristã e patrono espiritual, durante a fase de implantação na Terra; Luís de Camões, um dos maiores poetas que a humanidade conheceu e Camilo Castelo Branco, um dos grandes vultos literários da língua portuguesa de todos os tempos, não podemos deixar de admirar o talento de mestre Luiz de Mattos para captar as efluviações superiores dos grandes mestres da língua materna, de modo a implantar neste planeta esta tão maravilhosa Doutrina e poder, assim, fazer o que fez, dizer o que disse e escrever o que escreveu, pensando só no bem da humanidade.

Amigos

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei; vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a Terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

– Que vamos nós, diziam, lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver...
– Que cento e nove impávidos marotos...
Camilo Castelo Branco”

(Antonio Lourenço é militante da Filial Porto – Portugal)

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