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Medo e superstição
Oscar de Menezes
Publicado em 15 de janeiro de 1952
Por certo tempo, o papel do homem neste mundo não é outro senão o de
aperfeiçoar-se física, moral e intelectualmente, criando, para si e para os
seus semelhantes, condições de bem-estar e felicidade.
Uma das causas que muito têm retardado o seu progresso é, sem dúvida, a
superstição – herança dos tempos primitivos em que o seu conhecimento era
rudimentar. O medo gerado pelo desconhecimento das coisas teve ação
proeminente na formação da civilização atual, tão cheia de contradições e
enganos, apesar do grande desenvolvimento científico e material.
A fixação de certas ideias na mente humana, algumas das quais contrárias à
razão e ao bom senso, é responsável pelo estado anômalo em que se encontra o
ser humano. A maioria educada dentro de um sistema empírico, sem base
racional e científica, tornou-se facilmente sugestionável e propensa a ser
ludibriada por espíritos sagazes e conhecedores das fraquezas humanas.
Assim, têm sido impostas as crenças, os sistemas políticos escravocratas e a
mentira organizada sob o rótulo de verdade, para defender interesses de
indivíduos ou corporações. Mas, apesar disso, a verdade vai aparecendo aqui
e ali, muita vez combatida pela ignorância arregimentada, procurando ofuscar
o sol com uma peneira.
Larga e infinita será a trajetória da ciência e da verdade científica,
através dos séculos. Ninguém poderá detê-la. À medida que a mente humana for
se libertando das crendices impostas pelos falsos mentores, a verdade irá
adquirindo maior brilho, e o espírito, sentindo-se possuído dela, jamais se
apartará da sua imensa grandeza.
CONSCIENTIZAÇÃO. As lutas decorrerão em todos os sentidos da evolução
humana. Elas são necessárias e hão de despertar o raciocínio do ser humano,
dando-lhe uma noção mais exata daquilo que representa em face da grandeza do
Universo.
O aperfeiçoamento não virá de jato, mas, pouco a pouco, para que os
resultados sejam seguros e benéficos.
A própria ciência, que, noutros tempos, vivia agrilhoada a preconceitos e a
padrões estabelecidos, vai-se libertando dessas peias, abrindo novos
horizontes, antes desconhecidos. É que a verdade tem poder penetrante,
alcance ilimitado, mesmo que os seus opositores queiram restringir a sua
ação.
Noutras épocas era temeridade o indivíduo contrapor-se a certas e
determinadas ideias, quando se tratasse de ciência ou mesmo de crenças.
Hoje, entretanto, tudo vai tomando outro rumo e sendo discutido à luz da
razão esclarecida. Os pontos obscuros e incertos são, quando possível,
aclarados e definidos. O aceitar as coisas por aceitar não pertence ao
espírito investigador que deseja saber o porquê de tudo e caminhar pela
linha reta do progresso.
É no campo da discussão serena, do estudo e da meditação, que o ser humano
poderá compreender melhor as leis da vida e libertar-se daquilo que lhe vem
tolhendo o raciocínio e a ação. O engano, a mistificação e todas as maneiras
de ilaquear o ser humano só encontrarão guarida naqueles que não raciocinam
e cuja mentalidade atrofiada pelas místicas e fantasmas da superstição sente
pavor do desconhecido e invisível.
Conheça-se o indivíduo a si próprio, e as ilusórias peias sugestivas criadas
pelas crenças escorar-se-ão ante a verdade, para a qual não há fronteiras.
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