Pela mudança de consciência

Clecy Ribeiro

A Razão chega ao século XXI, era científica dominada pelo pensamento racional

Estamos em 19 de dezembro de 1916, em plena guerra mundial (a primeira), o Brasil imerso na República Velha do coronelismo e das oligarquias cafeeiras. Surgia A Razão, com seu jeito posicionado e esclarecedor dos problemas sociais e incentivo ao progresso. Um matutino noticioso, combativo, altruísta, com acento nos princípios racionalistas cristãos em curso desde 1910, veemente manifesto em prol da melhora material e elevação espiritual, face ao mundo revolto. Transformado em mensário a partir de 1937, moderno, o jornal investe mais e mais na tarefa de conscientizar o homem. "A lei que preside as sociedades humanas, como todas as leis da natureza, é inexorável e irredutível", costumava dizer Luiz de Mattos.

Nunca o clima de divulgação da doutrina racionalista cristã se fez tão propício. Ao apoderar-se das sociedades indiscriminadamente, a globalização trouxe à tona ou acirrou crises e problemas. No combate à pobreza, aflige o pobre; no afã de segurança, fere as liberdades civis. Cresce o desconcerto inclusive entre o meio ambiente adotado pelos migrantes e as gerações descendentes, aturdidas por um mundo no qual parece não haver lugar para todos – menos ainda um lugar ao sol. A democracia, como ora se apresenta, pouco serve de antídoto. E o que os cientistas políticos chamam a quarta onda terrorista transcende os laços entre os Estados, como afirma o historiador David C. Rapoport.

Sempre precipitadas por momentos políticos críticos inesperados, essas ondas apresentam propósitos e táticas peculiares. Na primeira, em 1879, o estímulo das reformas políticas e econômicas, introduzidas pelos czares, frustrou-se pelo desapontamento e desesperança. Dos anos 1920 a 1960, a segunda onda ecoou as duas guerras mundiais: autodeterminação nacional, com novos Estados emergentes da colonização. Precipitado pela guerra do Vietnã, o terrorismo internacional da terceira onda de Rapoport (termo aplicado em referência à Organização para a Libertação da Palestina) criou um ethos revolucionário e os ataques extrapolaram fronteiras. A vitoriosa revolução islâmica iraniana de 1979, aliada à derrota da ex-União Soviética no Afeganistão e seu colapso consecutivo, em 1991, justificaria a questão religiosa como ingrediente crucial nos movimentos separatistas.

Nem paraíso, nem inferno, mas ciência – pregam, porém, os novos ateístas, movimento de óbvio campo fértil nos Estados Unidos. Na vanguarda, entre outros, três conhecidos cientistas: Richard Dawkins, biólogo; Daniel Dennett, filósofo; Sam Harris, doutor em neurociência. Com uma profusão de livros publicados, alguns na lista de best-sellers do New York Times, esposam teorias evolucionistas, pesquisas científicas controversas, racionalismo. Prevalece o "espírito da ciência", afirmam. Também se insere entre os muitos pesquisadores que tentam aproximar os mundos científico e espiritual o físico Patrick Drouot, com três livros publicados no Brasil. Recente contribuição, na linha de conhecimento científico-filosófico, cabe a Helio Jaguaribe (O Posto do Homem no Cosmos, Paz e Terra, 2006), que chega a abordar a possibilidade de autodestruição da vida humana por uma guerra nuclear de grandes proporções, por exemplo, ou perda de habitabilidade provocada pela agressão ao equilíbrio ecológico da biosfera, ou até mesmo pelo Big Crunch do sistema solar. "Nunca, para um período historicamente tão curto, o homem se encontrou, desde seu processo de hominização, com alternativas tão dramáticas e tão dependentes de suas próprias opções", constata.

Silenciosa, firme, contínua, a missão do Racionalismo Cristão, tanto em suas Casas como através de sua mídia independente, prossegue no esclarecimento da humanidade. Chegar à autoconsciência cristã, a um novo conceito de Universo e vida, à dominância do lado psíquico, conforme previsto ainda para este século XXI.

Na marcha, preocupa a juventude, necessitada de educação espiritual para encarar a violência e a ânsia de bens materiais. Já as gerações mais novas, oriundas do intelecto, da ciência e da razão, por vezes fertilizadas in vitro para promover a reencarnação, essas já trazem bagagem espiritualista. E assim caminhando, a mudança se fará, mais cedo ou mais tarde, pela convicção, convívio, prática, exemplo.

(A autora é jornalista)

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