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Muro das lamentações José
Fernando Batista Vaz
O muro das lamentações, considerado o local mais sagrado do judaísmo, é o
último vestígio do Templo de Herodes, construído por Herodes em Jerusalém e
destruído pelos romanos no ano 70 de nossa era.
Quando as legiões romanas destruíram o templo, o então imperador Tito
ordenou que apenas uma parte do muro exterior permanecesse de pé. A intenção
dele foi deixar para os judeus uma lembrança amarga, uma espécie de
monumento à derrota da Judéia para Roma, daí a denominação “Muro das
Lamentações”.
Ocorre que, diferentemente do que pretendia Tito, o povo judeu enxergou
aquele muro não como uma humilhação, mas como um sinal de que, apesar de
toda a destruição, o templo ainda permanecia de pé, o que acabou mais tarde
servindo de resistência e fortalecimento de suas convicções.
Sem entrar no mérito religioso ou ideológico,
este fato histórico nos demonstra que, por mais poderoso que seja um
exército e por maior que seja a destruição que provoque, jamais poderá
prever e muito menos direcionar o sentimento e consequentemente a forma de
pensar daqueles que pretendia atingir.
DUAS POSTURAS. Muitos “muros” são erguidos pelas lamentações do dia-a-dia,
quando alguns, de certa forma, acabam aderindo à “previsão” do imperador
Tito e acabam estagnando, enxergando aquele “muro” como uma referência ao
fracasso, lamentando-se sobre o que poderiam ter feito e não fizeram e o que
fizeram e não deveriam ter feito, lamentando-se por disporem hoje de apenas
pequeno vestígio do que um dia possuíram, preferindo vivenciar o passado a
buscar sua recuperação, procurando novos caminhos.
O ser esclarecido, no entanto, não perde tempo diante do “muro”, pois não
deixa que este se forme, com sua mente em constante atividade não tem tempo
para lamentações; tem consciência de que os acontecimentos podem atingi-lo,
mas não ditar a sua forma de pensar e agir; enxerga naquilo que possui não
uma “sobra” do passado, mas um símbolo de que sua saga resiste.
Conclui-se desta forma que a “espessura do muro” ou a resistência do
obstáculo se concentra basicamente na forma como o enxergamos.
Os céticos, os acomodados enxergam o óbvio, permitindo que influências
externas os manipulem. Os seres ativos, utilizando o seu raciocínio, o seu
poder criador, estão sempre prontos para surpresas, agradáveis ou não;
enquanto os demais aguardam os acontecimentos, fazem acontecer, planejam,
criam diretrizes e, pondo-as em prática no momento planejado, movimentam o
“trem” da História.
O mundo está repleto de “muros”, representados pelo preconceito, pela
intolerância, por ideologias que alguns pretendem impor em detrimento da
liberdade de pensamento e da diversidade de opiniões, fatores indispensáveis
para a riqueza do debate.
SUPERAÇÃO. Esses “muros”, porém, são e sempre serão suplantados por aqueles
que mantêm seus posicionamentos, seja qual for o obstáculo que surja à sua
frente, por aqueles que, quando perdem algo devido a um revés, olham para o
que ficou como um ponto de partida para o recomeço e têm consciência de que
não foram derrotados, uma vez que suas ideias persistem, bem como as
condições, ainda que míni-mas, para executá-las.
Retornando à passagem histórica narrada inicialmente, vimos um povo que não
se deixou destruir, pôs seus ideais acima de qualquer visão destrutiva, e
escolheu ver aquele acontecimento da forma mais positiva que lhe era
possível.
Como em todo fato histórico existem lições a serem aprendidas, este nos
ensina que, se procurarmos, sempre acharemos o ponto positivo em qualquer
acontecimento que nos envolva. Esse acontecimento, por minúsculo que seja,
focalizado com persistência, abrirá uma pequena brecha no “muro” levantado
por um revés, e devemos nos lembrar que basta uma pequena brecha em qualquer
muro para enxergarmos o que há do outro lado, e a simples visão do horizonte
liberto e infinito nos fortalece, fazendo com que nossa mente retome o
comando de nossos ideais e de nossa caminhada.
(O autor é presidente da Filial Niterói, RJ)
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