A música que difunde a anticultura

Alarico Rezende

A cultura é o ponto de equilíbrio da preservação das nossas raízes e está diretamente relacionada à educação. Elas estão muito interligadas. A liberdade de expressão, porém, é o resultado da democracia em um país; representa uma grande conquista de um povo, mas não é só isso: quando se trata de coisa pública, como é o caso do disco, todo mundo tem acesso. Aí está o ponto-chave desta nossa conversa.

Pela música se influenciam pessoas, sejam crianças, jovens, adultos, enfim todos. Essa influência percorre caminhos que interferem no comportamento, na educação, na cultura de uma nação. Um conceito antigo diz que a música tem que ter começo, meio e fim: uma mensagem de otimismo, de amor, até mesmo questões políticas de um país ela acaba influenciando.

Os compositores, produtores musicais e intérpretes têm que ponderar uma série de coisas antes de colocar no mercado do disco um produto final, têm que pensar no resultado e nas consequências da mensagem contida naquela obra artística. O que ouvimos hoje, e até assistimos, com grande frequência, em grandes mídias, seja rádio ou TV, são músicas com letras apelativas, que nada têm de positivo, apenas um besteirol sem limites, é como se uma torneira ficasse aberta 24 horas jorrando anticultura. Como se a família não tivesse valor algum. Essa “anticultura”, essa “antimúsica” acaba influenciando o comportamento das pessoas. É preciso não confundir baderna com democracia: cada um diz o que vem à cabeça, diz o que quer, só estão pensando nos resultados financeiros do disco, com isso provocando empobrecimento cultural, sem qualquer preocupação com as nossas gerações futuras, sem qualquer preocupação com o futuro da educação no País.

Não estamos aqui pregando a volta da censura e sim cobrando responsabilidade de quem faz, de quem compõe, de quem interpreta, de quem lança esses discos no mercado. E é aí que entra o Ministério da Cultura, que nesse momento precisa dar um breque, puxar o freio de mão, com a implantação de uma política de responsabilidade. Aqui fazemos um apelo também à presidenta Dilma Roussef, para que o futuro da nossa cultura não saia do trilho.

Não é possível ficarmos assistindo a tudo isso, ou melhor, ouvindo esse besteirol no rádio, na TV, nas ruas em carros de som, um verdadeiro desrespeito à moral da família brasileira. Há compositor que confunde sensualidade com pornografia, que confunde democracia com baderna. E a responsabilidade pelo que se produz? E não é só pornografia, tem muita apologia à violência também.

É momento de repensar a cultura, de incentivar, sim, a preservação das raízes, de lembrar de grandes obras de Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Raul Torres, João Pacífico, Chico Buarque, Noel Rosa, Dolores Duran, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Cartola, Lourival dos Santos, Goiá, José Fortuna, Tom Zé, Mário Zan, Caetano Veloso, Ataúlfo Alves, Geraldo Vandré. Esses e outros tantos estão no banco de dados da memória cultural brasileira, ao passo que essa enxurrada de besteirol vai entrar para a história do esquecimento. Tem que parar de semear pedra em vez de continuar a regar as raízes do futuro: lembre-se disso, música tem que ter começo, meio e fim. É preciso ter compromisso com a cultura, com a educação do País. A responsabilidade é toda sua! É de todos nós, compositores e intérpretes. Pense nisso e faça a sua parte. A família brasileira agradece.

(O autor é compositor de música caipira e samba, jornalista e frequentador da Filial São Paulo-SP)

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