Clecy Ribeiro
O teólogo Leonardo Boff, na pregação do “diálogo incansável, da negociação
aberta e do acordo justo”, julga que só assim serão afastadas as bases de
qualquer terrorismo e alicerçada a paz.
Mas na concepção de que “não há melhores negócios que os negócios da
guerra”, hipocrisia e agendas ocultas dominam o espetáculo. Assim, a Casa
Branca avalizou a invasão saudita a Bahrain, em troca do voto positivo da
Liga Árabe na ONU sobre o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea na
Líbia. E, na sequência, os ataques aéreos.
Deslancha-se, portanto, a primeira guerra africana da Otan via Africom – uma
frente para os contratantes militares norte-americanos (Dyncorp, MPRI e
KBR) –, em suma, a privatização da guerra. A lembrar que apenas cinco países
africanos não se subordinam à Africom: Líbia, Sudão, Costa do Marfim,
Zimbábue e Eritreia. O cerco aperta-se. A Otan, com carta branca do
Pentágono, tem objetivos bem definidos: gerir o Mediterrâneo, o mare nostrum
da Roma antiga, como um lago. E apenas três países mediterrâneos (em 20
aliados) estão fora: Líbia, Síria e Líbano. Fácil adivinhar quem serão os
próximos. Com os lucrativos negócios da guerra envolvendo, ainda, os Mirage/Rafale
franceses.
A revolta árabe, contudo, tenderia a reconduzir a ordem mundial. Já não é
sem tempo. Desde o colapso da União Soviética (1989-1990) e o realinhamento
dos antigos satélites do bloco, fizeram-se múltiplas as faces dos cristãos
do Oriente e do islamismo.
Conotações religiosas interpretam de mil e uma maneiras o movimento popular.
Como as denúncias de incitamento no Egito pela manipulação do atentado
contra a Igreja dos Dois Santos de Alexandria (31 de dezembro 2010) e, em
Bagdá, contra a Catedral de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (7 de novembro
2010). Ambos unanimemente reprovados pelo mundo árabe, em geral. Para os
intelectuais árabes, isso deixou o gosto amargo do “sentimento de vergonha e
de tristeza”. E suscitou apelo ao fim da discórdia.
Ao despertar da modernidade islâmica, conta a tese chave de Gilles Kepel, em
“Jihad”: a ideia de que o Islã político entrou em declínio, cedendo espaço à
crença em um novo equilíbrio de poder. A notar que nenhum país muçulmano
jamais abraçou o marxismo. O próprio Afeganistão é testemunha da imunidade
muçulmana à filosofia marxista. E a al-Qaeda nada mais seria que uma versão
muçulmana das Brigadas Vermelhas italianas e da Fração do Exército Vermelho
na Alemanha. Como exemplo de democracia muçulmana, surge a Turquia. Sua
campanha para as eleições deste 12 de junho projetou vitória dos islamitas
moderados, pelo terceiro mandato consecutivo.
Já em 1992, o jurista islâmico A. Kamal Aboulmagd referia-se à “promessa do
Islã na corrente do mundo”: “Em contraste com as atitudes negativas,
isolacionistas e antissociais dos grupos fundamentalistas, a tendência de
pensamento entre a maioria dos intelectuais e políticos no mundo muçulmano
caracteriza-se por ideais positivos”.
Acima de tudo, a crença na democracia e, por corolário, que os muçulmanos
têm papel a desempenhar e o compromisso de participar na construção da nova
ordem mundial – uma civilização híbrida. Para o Mediterrâneo, destino melhor
que um simples lago da Otan: o de importante centro de atividades e
interesses.
Um teste para o Ocidente, infelizmente respondendo ainda como nos tempos das
potências coloniais, à caça de recursos energéticos, inclusive a preciosa
água do Aquífero Nubian Sandstone, onde se assentam Líbia e Egito. Um volume
de água que os cientistas estimam equivalente a 200 anos de água fluindo do
Nilo (Pepe Escobar, Asia Times).
É ainda Leonardo Boff quem alerta: a globalização do inimigo não pode gerar
bons frutos, pois combina a “brutalidade da guerra tecnológica moderna...
com a guerra suja da inteligência, que implica atos de terror e assassinato
planejado de lideranças tidas como terroristas”. Uma estratégia, conclui,
perigosa para a convivência da humanidade no processo inexorável da
globalização, “fase nova da história da Terra (Gaia) e da espécie homo
sapiens e demens”.
(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso,
RJ)
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