![]() |
![]() |
|
|
|
|
Negligência, indolência e displicência Caruso Samel Poderosa tríade de negatividades cujos significados fornecidos pelos dicionários fecham um ciclo perfeito Ao examinarmos o quadro psíquico do ser humano nada mais negativo do que nos depararmos com criaturas que apresentam sérios defeitos de comportamento configurados pelas palavras indolência, displicência e negligência. Na verdade, esses defeitos da alma constituem um obstáculo muito grande para a espiritualização das criaturas. Do capítulo sobre o Livre-Arbítrio do livro Racionalismo Cristão, onde trata do tema Construir o Próprio Futuro (pág. 151, 43ª edição), extraímos a seguinte verdade: "A evolução não só pode ser retardada, como até paralisada pela indolência, displicência ou negligência do ser humano. Essa situação de indiferença, de relaxamento e abandono dos deveres que a vida impõe é muitas vezes atribuída a uma suposta predestinação ou ao jugo de um destino inexorável e cruel, contra os quais muitos pensam que seria inútil lutar." E, continuando: "Esse modo falso de encarar coisas tão sérias é de consequências desastrosas. O espírito encarnado tem suficiente poder para mudar, em qualquer tempo, os rumos da vida, manejando, corretamente, o livre-arbítrio. Do seu futuro bom ou mau, do triunfo ou do insucesso, é ele o artífice". LITERATURA. No livro Ao encontro de uma nova era, de Luiz de Souza, encontramos um capítulo inteiro dedicado ao tema, com o título A Negligência (pág. 127, 8ª edição, 1995), em que qualifica a negligência como defeito da alma, quando explica: "Os defeitos da alma são a causa, e os erros terrenos o efeito, cumprindo-se deste modo a Lei de Causa e Efeito (Lei das Consequências), motivo das reencarnações. Somente pela espiritualização deixará a alma de praticar erros". Palavras que merecem profundas reflexões por parte de todos os racionalistas cristãos. Ao avançarmos em nossas reflexões sobre esses estados de alma vamos verificar que, de fato, eles deformam a própria essência do espírito, que é vibração, que é Força e que encarna para lutar e vencer todas as vicissitudes da vida, mediante um viver sadio, cheio de atividades com base no trabalho honesto e digno. Embora todos estes estados sejam praticamente idênticos, há nuances caracterizadoras de cada um deles. Para isso, vamos nos valer do dicionário. SIGNIFICADOS. O termo negligência apresenta como sinônimos desleixo, descuido, incúria; desatenção, menoscabo, menosprezo; preguiça, indolência. O termo indolência tem por sinônimo, na ordem citada, os seguintes significados: insensibilidade, apatia, negligência, desleixo; ociosidade, inércia, preguiça. Ele contrasta, portanto, com a atividade que é óbvio esperar-se de um espírito bem preparado para a luta. E esse preparo cabe aos pais na correção de tais defeitos. O termo displicência tem os seguintes significados: predisposição do espírito para a tristeza ou tédio; descontentamento, desagrado, aborrecimento; desgosto; descuido ou mesmo desleixo nas maneiras, no vestir, no proceder; descaso, desmazelo, negligência; indiferença, desinteresse. CICLO FECHADO. Observando-se esse conjunto bem complexo de significados verifica-se que eles se fecham num ciclo completo através das palavras-chaves – negligência, indolência e displicência – nos significados semelhantes e conexos que se auto-reforçam nas três palavras que compõem o título deste texto. Uma reflexão mais profunda ainda, através de todas as palavras que compõem os significados indicados, nos levaria a construir uma verdadeira "árvore de defeitos", todos de natureza bastante negativa, que deprimem o espírito. Trata-se, portanto, de um importante "pacote" de vocábulos indicadores dos defeitos da alma altamente danosos e destruidores para a evolução do espírito, principal objetivo de suas reencarnações. Fazendo um paralelo, ainda que grosseiro, deixar-se abater por estes estados defeituosos de alma é como um carro ligado, mas em ponto-morto, que fica parado aguardando o comando do motorista. Enquanto esse comando não é dado, ligando a marcha, o carro permanece estacionário, sem movimento. O mesmo acontece com o espírito acometido dos defeitos que compõem o título deste tema. É preciso, portanto, aplicar uma força de vontade redobrada para sair do "ponto-morto" e entrar em atividade para o cumprimento de seus deveres. Estes defeitos precisam ser eliminados o quanto antes para que o espírito se fortaleça e cumpra aquilo que veio fazer neste mundo. Falemos um pouco sobre cada um deles para percebermos as suas nuances. Primeiramente, a negligência. Esta é adquirida pelo vício do ócio, pelo hábito de ser servido, por esperar que alguém resolva os seus problemas, por ser indisciplinado e egoísta. Geralmente, esses defeitos da alma provêm de encarnações passadas. Cumpre aos pais perceberem tais tendências e defeitos e corrigi-los no devido tempo, adotando um processo severo, mas cristão, persistente e gradativo de educação no lar. Essas criaturas não cumprem horários, chegam atrasadas aos encontros e compromissos, causando fortes pontos de atrito entre elas e seus afetos. Deixadas sem a devida correção, tais criaturas estacionam na sua evolução e precisam repetir encarnações atrás de encarnações. Corrigi-las é sempre uma espinhosa missão para os pais. Em segundo plano temos a indolência. Esta tem seu fundamento principal na insensibilidade da criatura de se tornar independente, adotando uma verdadeira atitude de apatia à vida, buscando fugir às suas responsabilidades. O indolente tem vontade fraca, tão comum em tantas criaturas que se tornam presas do desânimo. Esse defeito precisa ser corrigido pela própria pessoa, como medida salutar para dele ir afastando-se aos poucos. É como deixar um vício, cujos efeitos nocivos a criatura já não admite, vez que o vício está tão arraigado nela que ela já se acomodou a ele e não nota o quanto prejuízo está lhe causando. Em terceiro plano, faremos alguns comentários sobre a displicência. Este defeito está infiltrado nas mentes das criaturas sob a forma de desagrado, desleixo, aborrecimento, tédio e indiferença, sendo um estado de alma bastante difuso, mas caracterizado principalmente pela forma errada de proceder e de seguir as boas maneiras de cortesia e comportamento pessoal face à terceiros e perante a sociedade de modo geral. A correção depende do próprio indivíduo, para minimizar seus conflitos. PREGUIÇA. Finalmente, já escrevemos algumas palavras sobre a preguiça, que aparece como um dos sinônimos de negligência (A Razão de janeiro-08, pág. 5). Tão nocivo é este sentimento que muitos artigos e livros foram escritos, reafirmando que a vida tranquila casada com a aversão ao trabalho – traços marcantes da ociosidade – é a causa de grandes males ao progresso material e espiritual das criaturas. Na Bahia, onde cerca de 80% dos habitantes são afro-descendentes, existe uma rua chamada Ladeira da Preguiça, que já foi objeto de uma tese de doutorado designada pelo título de O mito de preguiça baiana, defendida na Universidade de São Paulo (USP), em 1998, pela antropóloga Elisete Zanlorenzi. A autora sustenta, porém, que o mito não tem base real, sendo apenas um traço cultural da malemolência dos baianos, já assumida como elogio até pelo escritor Dorival Caymmi e artistas famosos, como Gilberto Gil. É obvio que também as condições climáticas (clima quente e úmido o ano inteiro) e a falta de oportunidades de trabalho reforçaram o mito, que mais uma vez, repetimos, não tem razão de ser. (O autor é Militante da Filial Butantã, SP) |
|
|
|
|