No céu, no mar, na terra

Clecy Ribeiro

Quando os desastres naturais servem, também, de alerta

No meio apagar das cinzas do vulcão Eyjafjallajokull, ressurge da cratera, ainda fumegante, projeto de integração dos espaços europeus, para melhor controle do tráfego aéreo. Esse o resultado da grita em torno das tomadas de decisões individuais, por país, que deixaram os aeroportos europeus em turbilhão, e ainda outros, servidos pelas rotas pressupostamente afetadas pela fumaça.

Afinal, são 27 espaços aéreos nacionais europeus, mais 60 centros de controle do tráfego. Daí o reacender do Céu Europeu Único. Prevê a proposta blocos de espaço aéreo cruzando fronteiras, com regulamentação atualizada, para atender às exigências da indústria, passageiros etc.

Segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo, as ineficiências criadas pela fragmentação do espaço aéreo europeu vão muito além do caos recente: 100 mil voos cancelados em seis dias e perdas das companhias aéreas avaliadas em US$1,7 bilhão, no mínimo. Gerenciar crises não seria tudo.

Mas o Céu Único encontra resistência quanto à soberania nacional (alguns governos) e à negra perspectiva de corte de empregos (alguns sindicatos). No rastro, o desenvolvimento de sistemas de multiaeroportos, que exigem bilhões em recursos e tecnologia, e envolvem tanto a criação de aeroportos secundários quanto a entrada nos céus de novas empresas aéreas de transporte, de custo mais baixo.

A questão vai mais além. Chega ao espaço exterior. Envolve política, tecnologia, recursos. Questiona-se, desde logo, o monopólio norte-americano do GPS, Sistema de Localização Global, o qual, para alguns especialistas, já estaria em risco. Na corrida tecnológica estão o Galileo europeu, o Glonass russo, ou Sistema Global de Navegação por Satélite, e o Beidou chinês ou Ursa Maior.

Há bem uns 30 anos, os Estados Unidos mantêm o seu GPS, Sistema de Localização Global, constelação de 30 satélites de uso dual, porém mais militar que civil. Continua sob controle do Pentágono, aperfeiçoando "peças" aqui e ali. Para 2025, a Administração Federal de Aviação (FAA) promete que todos os aviões estarão usando o NextGen (nova geração de transporte aéreo), sistema acoplado ao GPS, de localização superprecisa. Via de mão dupla, permitirá que você saiba onde está e que se saiba onde você está.

Há dois anos, a União Europeia deveria estar operando o seu Galileo, também com 30 satélites. A versão difere totalmente do GPS, porquanto voltada a aplicações civis, embora num esforço de modernização e reforço da política de segurança e defesa.

São cinco serviços predominantes: acesso gratuito para localização generalizada; pagamento de taxa a quem exigir precisão maior; serviço de proteção à vida; busca e resgate em operações de emergência; regulamentação pública, em determinadas aplicações de segurança (PRS). Um empreendimento público/privado, preenchendo todas as lacunas do GPS. Na verdade, complementar a este. Uma interface no espaço. E um mercado comercial e tanto...

Cuida do Galileo a Agência Espacial Europeia. Contrato assinado em janeiro prevê a construção de mais 14 satélites do sistema. Agenda carregada: 10 lançamentos, aos pares, a bordo das versões europeias do Soyuz russo, a três meses de intervalo, a partir de dezembro 2012. Os demais quatro satélites, ora em linha de montagem, tiveram seus lançamentos adiados para início e meados de 2011 (de dois em dois).
Boa ou má hora? O poderoso bloco econômico vê o euro desvalorizar-se e as economias mais frágeis atoladas em dívidas, como Grécia e Portugal.

Quanto aos russos, com o Glonass (sistema com raízes militares na Guerra Fria), dispõem de 19 satélites. Cobrem todo o território da Rússia. Até fins deste ano, será alternativa ao GPS. Enquanto isso, acelerados, os chineses impulsionam o Beidou para estabelecer rede similar, independente, com 35 veículos, até 2020.

Em abril, a União Europeia retomou as acaloradas discussões sobre o Céu Único. Há pressa, mas também contratempos e custos a considerar. E, neste mês de junho, reúne-se o Comitê das Nações Unidas sobre os Usos Pacíficos do Espaço Exterior. Responsável pelos cinco grandes tratados internacionais já assinados a respeito, não encontra muito eco, porém. Uma das questões em debate é, precisamente, a integração dos sistemas de navegação via satélite.

Em pauta, reduzir a dependência de uso do GPS e seus produtos comerciais, inclusive o risco de corte de acesso a seus sinais de rádio, em casos de crise. Em pauta, também, encorajar medidas para melhor uso do espaço. E não só quanto à segurança, mas como lidar com o espectro de tantas frequências de rádio e tantos distúrbios ambientais gerados pela proliferação desmedida de fragmentos ou entulho circungirando a Terra.

Nem o céu é mais o limite.

(A autora é Jornalista)

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