Nova civilização

Oscar Pereira de Menezes

(Publicado no "A Razão" em setembro de 1965

A civilização que caracteriza o século atual está evidentemente eivada de tremendas contradições, porque saindo de uma época em que predominavam velhas concepções, sofreu o choque na reforma dos padrões estabelecidos, reformulando conceitos e abolindo a estreita maneira de apreciar o homem em conjunto como elemento primordial ao progresso.

Passada essa fase, em que a liberdade era ficção e o domínio pela força era tudo, permaneceram alguns resíduos nocivos em ebulição, afetando a nova estrutura industrial que surgira.

Embora as causas que motivaram a revolução social ainda em marcha tenham quase desaparecido, os efeitos perduram e só pouco a pouco vão caindo, pela força criadora da inteligência humana.

Instituições seculares viram seu prestígio abalado, demonstrando que necessitam adaptar-se a preceitos novos, para não serem aniquiladas.

É que não mais cabe ao homem viver egoisticamente, sem objetivos superiores e humanos, sem atender os imperativos das necessidades, sem promover de alguma forma a melhoria da comunidade.

Jamais se poderá conceber atualmente que a exploração contrarie o trabalho honesto e o esforço bem planejado; que privilégios existam abafando consciências sadias, ou beneficiando açambarcadores ávidos de lucros ilícitos.

Este é sem dúvida o drama em que vive o mundo moderno, despido ainda de critérios relevantes e definidos, em que uns tanto esbanjam fortunas, malbaratam o tempo em coisas nocivas e inúteis, e outros, por ausência de recursos, definham e às vezes morrem à míngua, sem que alguém os socorra em tempo.

Se os países necessitam ajudar-se mutuamente, com mais razão devem fazê-lo os indivíduos de uma coletividade, sob pena de viverem em constantes atritos de interesses.

Ninguém deve viver insulado dentro de si mesmo, sem cooperar com alguém. Todos, sendo parte da mesma humanidade, precisam estabelecer clima de compreensão e laços de boas relações, para que haja paz e felicidade.

O objetivo da vida é um só: o cultivo da virtude, não se colocando à margem os bons princípios, tornando-se necessária a participação de todos nas coisas que produzam bem-estar, que os incentivem e permitam melhor aproveitamento nas ações.

É unicamente assim que se poderá dar impulso a nova civilização e apresentá-la como força atuante, na remodelação do homem, quer moral, quer espiritualmente. Este é o caminho capaz de garantir a sua estabilidade social, cimentando a compreensão e proporcionando a segurança comum.

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