O desequilíbrio mental como causa de muitos males

Américo Correa Marques

A Razão publicava em 15 de junho de 1938

Há na filosofia dos antigos, perpetuada até nossos dias, um aforismo que nos tempos idos se traduzia por estas três palavras latinas: "in medio virtus" – A virtude está no meio termo.

O homem, porém, esse animal eternamente insaciável, porque aspira sempre às melhores coisas, nunca se compenetrou da realidade dessa afirmativa, e todos os seus objetivos resumem-se na vida a isto: melhorar e melhorar sempre, mesmo à custa dos maiores sacrifícios seus ou dos seus semelhantes.

E nessa ânsia incontida chega a esquecer-se de que seus direitos param onde começam os direitos dos outros, provocando dessa forma a primeira reação em legítima defesa daqueles que se acham prejudicados na sua esfera de ação pela injustificável intromissão de ambições alheias.

É o sintoma primacial do desequilíbrio social, cuja causa remota reside na ambição humana de assegurar-se cada um o máximo de proveito à custa do mínimo de esforços. E todos os males que afligem os povos e as nacionalidades partem de um modo geral dessa aberração do bom senso.

No indivíduo, em relação a seu semelhante, é a preocupação de firmar-se em terreno que lhe garanta estabilidade e conforto, cuja idéia se lhe apresenta como superior a tudo e a todos; nas coletividades organizadas sob a denominação de nacionalidades ou países, é a preocupação de seus dirigentes em assegurar aos povos que superintendem o máximo de bem-estar, mesmo à custa dos interesses e direitos dos povos circunvizinhos; e daí, desse desequilíbrio mental coletivo ou individual sai, como corolário natural, a reação e defesa comum ou particular.

É o primeiro passo para a luta armada, para a conflagração geral, para as grandes hecatombes, em busca apenas de alguns hectares de terra cujo valor no ajuste de contas final se verifica ser bem inferior aos sacrifícios que exigiu a sua conquista.

E essas grandes ou pequenas catástrofes, de indivíduo para indivíduo, são consideradas crimes, e criminosos os seus protagonistas; de nacionalidades para nacionalidades, chamam-se guerras, amor pátrio, heroísmo e seus protagonistas são considerados heróis e como tal condecorados e elogiados.

Não se pode negar que isto é um desequilíbrio mental, pois de acordo com os convencionalismos o assassínio de um é punido como crime, ao passo que o trucidamento brutal de multidões constitui um ato de glória.

É que todo o raciocínio normal é posto à margem quando entram em jogo interesses ou ambições, individuais ou coletivos.

No dia, porém, em que todos os homens se convencerem de que efetivamente é verdadeiro o aforismo in medio virtus, de que a virtude reside em cada qual conservar seus direitos respeitando os de seus semelhantes, no dia em que as criaturas se compenetrarem de que não pode haver paz sem o respeito recíproco; no dia em que todos raciocinarem de forma coerente, contentando-se cada um com o que tem, sem a ambição de espoliar os seus semelhantes, terá desaparecido a manifestação maior do desequilíbrio mental.

Sobre a Terra, esta grande escola, cujo livro maior é a natureza, desfraldar-se-á então a bandeira branca da paz.

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