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O homem e sua natureza Clecy Ribeiro Energia e atividades econômicas confundem-se atavicamente. Harmonizar é preciso Encontro da ONU sobre mudança climática, em dezembro, Copenhague, ápice das negociações sobre o sucessor do Protocolo de Kyoto, marca novo capítulo num processo arrastado, doloroso mesmo. Mais político do que "verde", o processo está eivado de restrições domésticas e praticamente nenhuma visão partilhada, de consenso. Os menos céticos acreditam, porém, em vontade de apoiar medidas urgentes, diante da preocupação pública que cerca o momento. Ainda sem chegar a legislação específica, o encontro de Copenhague tende a progredir, até para um acordo em tese, embora sem explicitar como funcionaria na prática. Xis do problema: a economia de baixo carbono. Vivemos o momento de transição para sistema energético substitutivo do atual, com base em fontes renováveis. Inevitável. Tarda, mas chega. Exclui as gerações atuais, posto que clima não é tempo (ou temperatura). Na balança, o social, o econômico, o ecológico. Bem uns 40 anos se passarão, estimam os especialistas, para transigir, condescender, fazer amigos do clima. Primeira indagação: "Não seriam pobreza e necessidade os grandes poluidores? Como dizer aos que vivem em complexos residenciais e favelas para manter limpos oceanos, rios e o ar, quando suas próprias vidas são contaminadas na fonte?" (Indira Gandhi, primeira conferência da ONU, 1972, Estocolmo). No imenso bolo de camadas superpostas da mudança climática, sobressaem: economia, concorrência geopolítica, ambiente. O bolo de sempre: combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural), que hoje satisfazem a maior parte das necessidades energéticas e definem aspectos chave da civilização contemporânea. Mas alguns já alteram a receita, aqui e ali, para permitir que todos saboreiem o bolo almejado – uma nova classe de fontes energéticas renováveis, conformes ao futuro (solar, eólica, biocombustíveis, hidrogênio). Todos consumindo menos. Segunda indagação: Mas, como chegaremos lá? A expectativa é de que, ao fim do processo, a economia global e sistemas de transporte terão sido reconstruídos diferentemente, e a população humana terá aprendido a viver de forma mais suscetível ao ambiente. Navegar pelo período de transição talvez se prove o pior a enfrentar neste século XXI. Mas haveria ganhos potenciais. Com poupança de energia, sobram recursos para investir em tecnologias amigas do clima. Políticas "verdes" refletem-se na saúde pública, criação de empregos (projeção de 20 milhões de pessoas trabalhando em setores ligados à energia renovável), comércio. Legisladores e líderes industriais temem, contudo, a concorrência comercial dos países de restrições frouxas quanto a emissões de carbono. Terceira indagação: O que estaria para desabar? Como encontrar meios inteligentes de equilibrar uma economia global vicejando em ambiente saudável? De olho no futuro, o professor Will Steffen vê na mudança climática o gatilho para o reexame do relacionamento humanidade-natureza. Entre outras mazelas, já entrou em ascensão o fluxo de ecorrefugiados. Relatório da Universidade de Columbia prevê, até 2050, êxodo forçado de 200 milhões de pessoas, assediadas por catástrofes naturais, como aumento do volume dos mares, aquecimento e desertificação. Vale um olhar ao passado. Na corrida contra o tempo, pesam nas considerações presentes constatar que o clima mudou no passado e continuará a mudar no futuro. Mudanças acontecidas em escalas de tempo geológicas, imperceptíveis no curto período de uma vida. Apresentam, assim, problemas à tomada de decisões políticas, quase sempre impopulares, difíceis e penosas. Porque quaisquer efeitos da redução nas emissões de carbono só serão sentidos daqui a uns 30, 40 anos. Quarta indagação: Pode a tecnologia resolver o desafio da mudança climática? Reza o consenso que é ator central na busca de outros sistemas energéticos (nuclear, eólico, solar, geotérmico, biocombustível) e da geoengenharia (como manipular o funcionamento do próprio sistema terrestre para neutralizar os efeitos de um clima em mutação). A boa notícia, segundo David Wyss, economista, é que não há escassez de energia no mundo. As más notícias, porém, tocam em ponto crucial: fontes alternativas têm custo indefinido, mas caro, por certo; reina incerteza quanto à gravidade dos prejuízos da mudança climática; a solução final é ainda uma incógnita. ‘Verdes’ e suas ideias Al Gore, autor, ex-vice-presidente dos Estados Unidos: O ritmo da mudança climática pode ser pior do que prevêem os cientistas. Urge agir. Chega a hora da mudança. Cabe aos governos, em todo o mundo, adotar leis enérgicas, antes mesmo de dezembro 2009. Em jogo, o equilíbrio climático, do qual dependem a humanidade e o planeta. Bjorn Lomborg, cético autor de Cool It: Os Acordos de Kyoto são muito caros e os retornos muito distantes, lá pelo século XXIV. Foco no efeito estufa desvia atenção e recursos de preocupações mais imediatas, como Aids, malária, desenvolvimento econômico e países empobrecidos. Brian K. Mignone, Brookings Institution: O êxito de qualquer tratado sobre clima depende das ações de apenas um punhado de países; talvez nem cheguem a 20. Hervé Kempf, autor: Os ricos destroem o planeta. Prevenir o agravamento da crise ecológica, e mesmo restaurar o meio ambiente, é, em princípio, bastante simples: basta que a humanidade reduza seu impacto sobre a biosfera. Isso, em princípio, também é bastante simples: significa reduzir os saques de minerais, madeiras, água, ouro, petróleo etc., bem como as emissões de carbono, dejetos químicos, materiais radioativos, embalagens etc. Hoje, o aumento do consumo material global não está mais associado ao aumento do bem-estar coletivo. Implica, ao contrário, uma degradação desse bem-estar. É preciso consumir menos para repartir melhor. Marina Silva, senadora brasileira e ex-ministra do Meio Ambiente: Cobra da população e da sociedade posições fortes para apoiar, politicamente, ações no setor ambiental. Acha que, no Brasil, nenhum governo deu prioridade à questão. Questiona e critica a devastação como alavanca do desenvolvimento. Meio ambiente, diz, não é vilão do crescimento. Vem de ganhar o Prêmio Sophia de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Noruega), por sua luta em defesa da floresta tropical. Michael T. Klare, especialista em energia: O mundo terá de enfrentar ampla gama de perigos extremos ao meio ambiente, como secas prolongadas, tempestades intensas, inundações costeiras extensas. Na política, contudo, talvez a consequência mais onerosa e desafiadora da mudança climática seja um aumento de conflitos violentos e todo o trauma humanitário que arrastam. (A autora é jornalista) |
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