O nascimento da filosofia

José Alves Martins

Com os ‘físicos’, tem início o pensamento crítico-racional

Como já dissemos, esta série de artigos trata das correntes de pensamento empenhadas, através dos tempos, em libertar o homem do mito, do "sobrenatural", das crenças e idéias obscurantistas.

Assim, o surgimento da filosofia, no século VI antes de Cristo, pode ser considerado um evento de fundamental importância na história do racionalismo e, portanto, da civilização.

Fruto do clima cultural que passara a dominar e caracterizar o mundo grego desde o século VII a.C., a filosofia – ciência da razão – nasceu na Jônia, Ásia Menor, na cidade de Mileto, uma das colônias da Grécia naquela região. 

Por mundo grego entendia-se o espaço geográfico, em torno do mar Mediterrâneo, constituído pela Grécia propriamente dita e as ilhas do mar Egeu, bem como por suas colônias na Ásia Menor, no norte da África, no sul da Itália e sul da França.

Os primeiros filósofos foram chamados de físicos. Não no sentido que damos hoje a essa palavra. Para os gregos da Antiguidade, Physis significava a origem, o Todo. Inquirir sobre a Physis, segundo um historiador do pensamento helênico, era remontar à nutriz de todo o processo real, era recuar à matriz primeira de onde tudo brota e fora da qual nada acontece.

Como informa ele, "deuses (aqui no sentido de espíritos superiores), homens, animais e plantas, tudo no Universo era abrangido ou englobado pela Physis, nela e por ela vivia ou existia".

O que lemos nos dois parágrafos acima não é outra coisa senão que uma definição de Força e Matéria, conceito fundamental da autêntica doutrina espiritualista, conhecido já na Antiguidade e mesmo na pré-história. Esse conceito, resgatado e definido de maneira clara, simples e racional por Luiz de Mattos, encontra-se no livro Racionalismo Cristão, obra básica da doutrina de mesmo nome, codificada em 1910 por esse mestre.

Desse modo, os fundadores da filosofia, ao especular sobre a Physis, não estavam restringindo sua inquirição às coisas materiais. Estavam indagando sobre a origem de tudo, do mundo, do Universo, preocupação que herdaram, aliás, da própria mitologia. Com eles, porém, observa o historiador, chegava ao amadurecimento o processo de racionalização, já iniciado pelo discurso mitológico. "Os deuses ficavam alijados dessa perspectiva. A filosofia marcava seu início." 

É importante relembrar que o nascimento da filosofia se deu na Jônia, e não na Grécia propriamente dita. Havia razões de ordem social e econômica para explicar a supremacia cultural e intelectual das colônias gregas da Ásia Menor sobre a metrópole, observa ainda o estudioso. "Tinham um padrão de vida superior. Haviam diversificado, com o artesanato e o comércio, suas atividades produtivas. Haviam intensificado o contato com o estrangeiro, sobretudo com o mundo egípcio, o mesopotâmico e o persa. Já usavam amplamente a moeda nas transações comerciais. Tinham se tornado mais críticas. É esse espírito crítico o responsável pelo questionamento da tradição mítica e religiosa."

Cabia, então, à filosofia buscar um sentido lógico, racional, para o homem, para o mundo, a natureza, o Universo, contrariando essa tradição mítica e religiosa, que supunha algo transcendente a tais realidades.

Ou seja, como se viu, os primeiros filósofos já não admitem, para além delas, deuses ou seres "sobrenaturais", os quais, segundo a tradição mítica, teriam dado origem e consistência a tudo o que existe.

Com os "físicos", tem início, pois, o pensamento crítico-racional – característica que os distingue dos sete sábios da Grécia, dos quais falamos no artigo anterior. Com efeito, embora inseridos na problemática vivenciada e pensada pelos referidos sábios, os primeiros filósofos se preocupam com a racionalidade do Todo (a Physis), e para eles já não é suficiente fazer afirmações; é necessário justificá-las, muni-las de razões.

Foi Tales de Mileto (624-546 a.C.) o precursor dessa nova maneira de pensar, seguido por seus contemporâneos Anaximandro (610-545 a.C.) e Anaxímenes (585-528 a.C.), também naturais dessa cidade.

O pensamento racional e científico, por eles iniciado, recebeu, posteriormente, o nome de filosofia (amor à sabedoria, em grego), termo, segundo a tradição, criado por Pitágoras.

(O autor é Militante da Filial São Paulo-SP)

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