O peso da espiritualidade

Clecy Ribeiro

Imagem pública e direitos  humanos na ordem do dia da Olimpíada 2008

Tibet, a causa do momento. Mistura nacionalismo, etnicidade e religião, estatura reduzida da China quanto aos direitos humanos, emoções inflamadas e atenção da mídia. Já lá se vão bem dez anos o historiador norte-americano A. Tom Grunfeld escreveu: "Ironicamente, audiências no Congresso, concertos de rock e a hollywoodização do Tibet criaram ameaça maior à cultura tibetana no próprio Tibet, porque fortaleceram o poder da linha dura chinesa, que argumenta não confiar no Dalai Lama..."

Afinal, onde se apóia a realidade histórica do Tibet, essa área étnica cujo controle político o 13º Dalai Lama assumiu em 1912 (o qual se manteve até 1950, embora não reconhecido) e para a qual o 14º Dalai Lama empenha-se tanto em promover maior autonomia? Em fins do século XIX e início do século XX, o Tibet tornou-se peão no jogo do imperialismo britânico e russo. Inúmeros tratados internacionais contrariaram a declaração unilateral de independência, do 13º Dalai Lama, reconhecendo a suserania chinesa sobre todo o território. Agora, o Tibet passa a peão no jogo dos direitos humanos, em momento crucial de imagem pública da China, às vésperas da Olimpíada 2008.

São duras as críticas por não usar de influência na questão de Darfur (afinal, a China é o primeiro comprador do petróleo sudanês). O mesmo para Mianmar que, se implodir, não só estarão comprometidos consideráveis investimentos chineses, mas sua habilidade em lidar com uma fronteira já fendida pelo tráfico de drogas e crise séria de saúde pública. Alguns acadêmicos observam que, uma vez o antagonismo étnico cruze certo limiar de violência, torna-se mais difícil manter os grupos rivais sob um único governo.

Sob pressão do tempo, seu sucessor obviamente a ser indicado por Pequim, o Dalai Lama, ora com 72 anos, retoma a causa mundialmente. Busca acordo com as autoridades chinesas – em diálogo desde 2001–, numa base mais realística e conciliatória: maior autonomia para o Tibet, como a melhor garantia de preservar-lhe a cultura. Lamenta que venha a ser destruída pela política de sinização, ou assimilação. Na pregação, lobby tibetano, internacionalização da questão, campanhas internas de desobediência civil.

Na prática, porém, parece pouco viável à comunidade internacional fazer muito pelo Tibet. Ou pela Chechênia. Implicam altos custos políticos. Conflitos, em seus contextos, geram respostas ou não. Preocupação pública e riscos geo-econômicos relegam a plano inferior a contenda étnica e política genocida no sub-Sahara africano. O problema dos Ibos na Nigéria e da Cachemira na Índia continua insolúvel. Soberanias territoriais resistem bravamente a movimentos secessionistas ou independentistas. Assim, no Tibet, a China consolida hegemonia. Estimula a migração de chineses han, o afluxo crescente de turistas, a rápida expansão do setor administrativo.

Ao mesmo tempo, acelera a integração do Tibet na economia chinesa, com elefantes brancos de infra-estrutura. Como a Ferrovia Qinghai-Tibet, a maior do mundo, ligando Lhasa ao resto da rede ferroviária do país. Ou a Grande Linha Ocidental, rede de aquedutos, túneis e reservatórios levando água do Tibet às planícies crestadas do norte. Mais a nova Rodovia até o Monte Everest, 108 quilômetros, a ser inaugurada quando da parada da tocha olímpica através do Tibet.

O efeito perverso está em que esses projetos de gastos desproporcionais ampliaram as divisões sociais, inclusive roubando aos tibetanos oportunidades econômicas, por desconhecerem o idioma mandarim. Lucros de investimentos locais e exploração dos depósitos de cromo e cobre retornam à origem. Um crescimento econômico de exclusão étnica.

A curto prazo, dor de cabeça na Olimpíada (para a qual organizações de direitos humanos pregam boicote), sob a forma de protestos, ainda que pacíficos. Em prazo maior, a perspectiva de choque de duas idéias, quando o Dalai Lama morrer: a questão do Tibet morre com ele; o ressentimento dos tibetanos crescerá, sem guia espiritual de sua livre escolha, com rumo imprevisível.

A causa ainda não está perdida, porém, a considerar o fator religioso. Regimes mudam graças ao próprio povo e, como lembra o Dalai Lama, a realidade da China está mudando, e a espiritualidade tibetana, o budismo tibetano, é parte importante da espiritualidade chinesa.

(A autora é jornalista) 

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