Obsessão é como chuva fina

Heloisa Ferreira da Costa

Se temos problema sério,   o pensamento intenso e contínuo enfraquece a energia anímica

Sempre estamos buscando formas simples de explicar as crises que o ser humano atravessa, as perturbações que vão pouco a pouco deixando o indivíduo cada vez mais fora da realidade. No filme sobre a vida de Cole Porter, há uma passagem muito interessante, quando ele está ensaiando a música Nigth and Day e o cantor diz ser impossível alcançar as notas da canção. Cole, então, sobe ao palco e diz ao rapaz que a música é sobre paixão, que fica repetindo dentro de cada um como uma batida, uma chuva que não para, um pensamento ininterrupto, batendo, batendo, dia e noite... E assim o cantor compreende a tônica da música e a interpreta magistralmente. Esta explicação me fez relacionar a cena com a obsessão.

As pessoas se julgam protegidas, acham que perturbações, estados obsessivos só acontecem aos outros. Seu perigo maior, como está muito bem explicado no livro A vida fora da matéria, está precisamente em não ser percebida nos seus aspectos menos chocantes, mas é muito fácil entrar em processo de obsessão. Por exemplo, quando as pessoas se apaixonam e pensam a toda hora, a todo momento no objeto da paixão. Se não é correspondida, pior ainda. Há momentos em que ela só quer esvaziar a mente, silenciar o monólogo interior, porque cansa, como uma torneira a pingar. Se estamos com algum problema sério – saúde, questões profissionais –, o pensamento é tão intenso e contínuo a ponto de enfraquecer a energia anímica, e daí para recebermos ventos fluídicos de forças inferiores é um passo.

Para evitar que esses processos se instalem, em primeiro lugar é preciso ser esclarecido o suficiente para reconhecer o problema quando está no início, e disciplina é fundamental  para todos que querem ter uma vida saudável.

Existem pessoas que reclamam de rotina, mas é ótimo ter rotina, e quando ela é interrompida nunca sabemos se será para o bem ou para o mal. Quando quebramos essa cadeia, ficamos suscetíveis. Por exemplo, trabalhar demais, treinar demais, preocupar-se demais. Pronto: a janela está aberta para fraqueza física e mental. Assim é fácil começar a alimentar pensamentos derrotistas e, como a linguagem dos espíritos é o pensamento, quando não estamos atentos e nos fragilizamos, somos atacados, começa a acontecer uma simbiose entre os encarnados e os desencarnados; estes identificam os sentimentos das pessoas, suas intenções e tendências, e disso se prevalecem para estimular, pela intuição, os vícios e as fraquezas humanas. Pode-se enganar pessoas ao longo de muito tempo, mas da vida espiritual nada se esconde.

Acontece que as pessoas sabedoras desses perigos também erram ao atribuir toda a responsabilidade aos espíritos desencarnados. Não é assim, somos nós que erramos e nos colocamos em situações de risco. Atribuir a terceiros as responsabilidades dos atos ou a força das tragédias é o maior problema da humanidade, como diz a frase: "Não faço o bem que desejo, mas faço o mal que abomino."

Através do hábito da boa e útil leitura encontramos verdadeiras pérolas de ensinamentos, como esta frase de Antonio Cottas, o consolidador do Racionalismo Cristão, que cabe bem no tema deste artigo: "Basta a pessoa perder a serenidade e o controle ou pensar mal, para ligar-se automaticamente à corrente do mal, passando a ser joguete de espíritos obsedados".

O fundador da casa racionalista cristã de Marília, José Ferreira da Costa, costumava comparar os espíritos do astral inferior com chuva miúda, aquela que não se vê, não faz barulho, mas molha um bocado. Portanto, precisamos estar como escoteiros, "sempre alertas!"

O espiritualismo é uma filosofia de autoconhecimento e a mediunidade é o seu instrumento de satisfação ou desgosto, conforme empregada para receber intuições superiores ou inferiores; assim, nada pode nos atingir se não permitirmos. O difícil é que, quando falamos em mediunidade, a maioria pensa em incorporação (que para nós também é normal). Essa maioria desconhece que somos todos médiuns, daí a grande dificuldade de se compreender a vida fora da matéria.

Os espíritos estão chegando ao planeta Terra mais evoluídos, questionando o sentido da vida cada vez mais em tenra idade e buscando explicações lógicas. Aqueles que teimam em duvidar da reencarnação e de todas as outras leis naturais e imutáveis, terão uma grande surpresa ao deixarem seus corpos físicos, porque o conceito de vida tal como é conhecido na Terra é muito limitado, ainda havemos de ver a coerência vencer a fantasia!

(A autora é Militante da Filial Marília, SP)

Página principal | Arquivo