Heloisa Ferreira da Costa
Apontam-se muitas causas para a mendicância, mas não é uma escolha do
espírito
Vi, recentemente, alguém transformar-se em mendigo. Nunca havia prestado
atenção a isso, nunca conheci um mendigo, mas, em cidades do interior, isso
é
possível, porque houve uma época em que todos estudavam em escolas públicas,
e, em Marília (SP), duas delas eram mais procuradas, criando um círculo
comunitário pequeno.
O moço em questão é de família de classe média da cidade e está envolvido
com
drogas há muitos anos, mas ainda morava com a mãe. Às vezes, ouvia-se que
ele
aplicava pequenos golpes para conseguir dinheiro, lamentava-se, mas não
parecia um caso diferente de tantos outros de que se tem notícia. Estava
abastecendo o carro e vi o tal homem (cerca de 54 anos), maltrapilho,
carregando uma sacola, totalmente desdentado, um jovem que tinha um futuro
bom, casou, tem filhos, trabalhava, bonito fisicamente, foi um belo homem,
hoje transformado totalmente.
Então resolvi pesquisar o assunto, e a primeira coisa que me veio à mente
foi esse questionamento: é condição ou opção? Para a maioria das pessoas com
quem conversei, a resposta mais aceita foi condição de vida, uma situação
que vai acontecendo e que culmina nesse último estágio, e que a sociedade
deve ajudar, mas eu pergunto: ajudar como? Será que oferecer sopas aos
domingos, ou dar um trocado na rua é a solução, ou apenas estamos
alimentando "pombos"?
Mendigo é um indivíduo que vive em extrema carência material, não podendo
garantir a sua sobrevivência com meios próprios. Tal indigência o força a
viver na
rua, perambulando de um local para o outro, recebendo o adjetivo de
vagabundo,
ou seja, aquele que vaga, que tem uma vida errante, sendo o estado de
mendicância o mais grave dentre as diversas gradações da pobreza material.
De um modo geral o mendigo começa sua vida de mendicância com uma sacola e
com uma roupa limpa, que depois de um tempo se tornará em trapos e a falta
de higiene será um hábito.
Cientistas dizem que a mendicância é problema de distribuição de renda;
sociólogos dizem tratar-se de desajuste social; historiadores a relacionam
às raízes do desenvolvimento e algumas filosofias a creditam às leis de
causa e efeito – aí entra a predestinação, com que o Racionalismo Cristão
não concorda, porque ninguém nasce com uma vida predeterminada, cada
indivíduo é que faz o seu caminho.
Existe, infelizmente, uma interpretação muito distorcida das leis naturais e
imutáveis, aliás este é um dos pontos que distanciam sobremaneira a
filosofia
racionalista cristã de todas as outras filosofias espiritualistas. A ajuda
que se deve
oferecer ao ser humano é o esclarecimento espiritual; somente através dessa
ponte se pode atravessar a vida neste mundo sem perder o propósito dela, que
é a evolução espiritual, e para que isso aconteça a pessoa ou alguém de sua
família deve tentar ajudar, mas a tolerância tem um certo limite. Assim, a
decisão final é da própria pessoa em seguir adiante na luta para se reerguer
ou quedar-se onde está. A verdade é que em maioria esses indivíduos
renunciam à sociedade, renunciam a si mesmos, perdem-se na escuridão da sua
mente.
No meu ponto de vista é uma opção de vida, porque a vida é feita de
escolhas, não importam as causas que levam um indivíduo a atingir um ponto
tão deprimente na sociedade. Permanecer ali é opção, como o homem que citei.
Ao contar sua história argumenta que tem desvio moral, mesmo. Fazer o que?
Ora, há tanto a fazer... Se a estrutura da sociedade conhecesse os
princípios do Racionalismo Cristão, saberia que o espírito escolhe a
trajetória de vida em seu mundo espiritual e, acreditem, nenhum espírito
encarna com o objetivo de se tornar um parasita social, isso é displicência,
falta de respeito próprio, é abrir mão do maior bem que temos: a força de
vontade.
(A autora é Militante da Filial Marília, SP)
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