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| E os homens
povoaram a Terra Clecy Ribeiro Os assentamentos nas Américas resultam, em grande extensão, da migração. A partir dos conquistadores espanhóis do século XVI à era contemporânea, o fluxo migratório é contínuo, contudo variável. O número de imigrantes provavelmente atingiu um ápice entre 1900 e 1920. No Brasil, só entre 1891 e 1920 migrou 1 milhão de pessoas, bem mais que os 300 mil entre 1931 e 1940. Muitos países sul-americanos houveram por bem aumentar sua população através da imigração. Desde a II Guerra, Argentina, Brasil, Chile, Equador, México, Peru e Venezuela adotaram medidas para facilitar a entrada de europeus. Fala-se do Brasil como o país mais bem sucedido na imigração europeia, com fluxo maior de Portugal, Espanha e Itália. Estrutura social, sistema de posse da terra e associação, organização de ofícios e comércio influíram na subsistência do homem em países estrangeiros. Mas o progresso industrial – primeiro no Velho Mundo, a seguir no Novo Mundo – forneceu meios pelos quais os continentes viram-se ocupados pela raça branca, a corrente migratória então exploradora da raça negra, de migração forçada. Mudanças, previstas já desde 1914, consumaram-se depois da I Guerra. A exaustão das terras mais lucrativas e esparsamente povoadas, êxodo rural nas Américas e Austrália, desenvolvimento de indústrias locais, expansão interrompida do mercado europeu para produtos coloniais e, finalmente, barreiras fecharam a era das grandes migrações colonizadoras. Hoje, é muito mais complexo o contorno das correntes migratórias, em nítido crescendo. Categórico, vaticina Antonio Guterres, do Alto Comissionado para Refugiados da ONU: "O século XXI será marcado por deslocamentos de massa de gente empurrada, arrancada, arrastada, dentro e fora de suas fronteiras, por conflito, calamidade ou oportunidade". Globalização e segurança, eis os grandes tópicos do processo. À sua maneira, as migrações continuam a refazer o mundo. Há toda uma nova dinâmica, com destaque para a erosão da dicotomia países que enviam/países que recebem migrantes. Prevalece a mescla: muitos enviam e recebem ao mesmo tempo; outros são zona de trânsito. Cenário entrelaçado, flexível, possível resposta à questão demográfica que afeta muitas economias avançadas, julgam os especialistas. Preenchem agora o palco atores como o mercado de trabalho qualificado (há vazios na tecnologia da revolução na informação), o setor corporativo (ainda com pouco poder decisório nas políticas migratórias), as diásporas de refugiados (que desenvolveram outras formas de atividade transnacional), a revolução nas comunicações e transporte (muito mais gente viajando), a feminização inexistente até os anos 1960 (migração independente para o ganha-pão), uma robusta indústria lucrativa (contrabando e tráfico). Tal como no século colonizador, as pressões voltam-se ao impacto econômico, ora em cenário bem mais complexo. Entrelaçadas à globalização, essas massas em deslocamento levam estímulo à economia e desenvolvimento globais; vinculam-se à segurança e meio ambiente. Imigrantes, dizem as estatísticas, influem maciçamente nos países que escolheram. Exemplos recentes: o financista George Soros, empresas como a Kodak e Yahoo. Sem falar nos "cérebros". Problemas jurídicos tendem a afluir e refluir, em volume e força tanto maior quanto as correntes migratórias aceleram-se. Urge fixar ou reformar políticas no comércio internacional, regulamentação trabalhista, controles. Mesmo porque, hoje, é tão ampla a diferenciação nos fluxos que obriga a uma diplomacia intensiva, seja bilateral, regional ou internacional. E a maioria dos países e organizações mundiais têm, ainda, de compor com a crise financeira global. Um dos diretores do Centro para a Política de Segurança em Genebra e autor de Migração Internacional: Súmula de Uma Introdução, Khalid Koser (citado em Current History), cita apenas uma razão para justificar por que questões migratórias importam hoje mais que antes: números. Números têm saber e poder. Hoje, são 200 milhões os migrantes mundo afora – o equivalente à população do Brasil, quinto país de maior densidade demográfica. E serão mais 200 milhões em 2050, só em decorrência dos transtornos advindos da mudança climática. Uma em cada 35 pessoas tornou-se migrante internacional. É a Era da Migração, segundo Stephen Castles e Mark Miller. Mobilidade de papel cada vez maior no processo contemporâneo de desenvolvimento econômico e reajuste social, com sua história inerente, causas e efeitos, impacto enfim. (A autora é Jornalista) |
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