Clecy Ribeiro
Se o mundo estivesse em plena guerra fria, nada seria tão flagrante quanto a disputa de influência. Só que, agora, o mercantilismo, em vez da bomba, ganha os bastidores. Negócios da China. Desde os vizinhos até os inimigos, de algum modo a China envolve-se com todo mundo em todo o mundo.
O Consenso de Pequim oferece economia pragmática. Trocado em miúdos, fazer-se presente internamente, atendendo à demanda, e investir com incentivos, no exterior. O controle com que Moscou brindava seus satélites transforma-se em sedução. E olhares de cobiça voltam-se aos chineses, invejados pelo crescimento: 10% ao ano nas duas últimas décadas e prognóstico de mantê-lo em torno de 7% ao ano, nos próximos cinco anos.
Tais as metas do 12º Plano Quinquenal ora deslanchado, com cinco pontos em destaque, segundo emana da Assembléia Nacional Popular, realizada de 4 a 14 de março. Medidas reformistas visam a melhorar os sistemas financeiro e previdenciário, a indústria de serviços, a distribuição de renda e a conter a inflação. Sob um sistema jurídico socialista, que observa fidelidade à liderança do Partido Comunista chinês e à empresa pública.
Impor o ritmo, rejeitar pressões externas, apostar na qualidade norteiam a cadeia Made in China, que se imiscui cada vez mais no cenário mundial e desemboca na agência de notícias Xinhua, crescendo em número de correspondentes fora do país. Seja na Ásia, África, Américas, os chineses lá estão, com investimentos em múltiplos setores, alguma população migrante, projetos sociais. Ávidos por recursos, oferecem o irrecusável: negócios sem interferência política ou de princípios e, por vezes, transferência de tecnologia.
O acesso a matérias-primas assegura produção interna de valor agregado e reexportação. Nestes anos 2000, Pequim finca pé em vários continentes. Na América Latina e Caribe, importações e exportações andam pelos US$ 45 bilhões. Tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e Chile e, logo, o será também do Peru (Eric Farnsworth, do Council of the Americas), a expensas do comércio regional com os Estados Unidos. Em termos de Brasil, registra ainda Farnsworth, isso significa, em boa parte, o crescimento de sua economia a um índice sustentável de 5,5% até 2014.
Mas são os investimentos que chamam atenção, liderados por negócios de petróleo e gás. Aqui, ganha a Ásia. Afinal, projetos de construção de gasodutos, oleodutos e outros, inclusive em rios partilhados, geram urânio para as usinas nucleares chinesas. Na África, por trás da presença chinesa está a expansão do continente. Pequim oferece de tudo um pouco, desde equipamento militar até mercado de fumo, para saciar a sede de recursos naturais que os países africanos prodigalizam. E investe em mineração, geração de energia, agricultura...
Assim, décadas depois, Pequim reverte as falhas soviéticas da Guerra Fria. Políticas ineficientes, de curto prazo e ganhos insignificantes à luz dos dispêndios feitos, são agora substituídas por incentivos, como créditos e projetos de infraestrutura. Com aval muito além da estratégia econômica e geopolítica: influência.
No complexo universo dos negócios, a China adota fazer amigos, manter-se cooperativa – e por que não também alerta? Com isso, abriga, ou tenta abrigar, seus interesses energéticos cruciais do bulício e dos rebuliços do momento.
(A autora é
jornalista, professora das Faculdades Integradas
Hélio Alonso, RJ)
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