Um Papai Noel descolado

Tharsila Prates

No meio do Oceano Atlântico, em pleno século XXI, existia um país tropical habitado por algumas centenas de pessoas. Uma delas era especial – tinha fama de passar o ano inteiro correndo atrás de presentes para distribuir nas festas de final de ano. Era o "seu" Carlos, um velhinho aposentado e solteiro, cuja alegria era fazer a alegria dos outros, principalmente das crianças.

Ele não media esforços e contava com a sua criatividade para arranjar as centenas de presentes, tudo baratinho, pois a aposentadoria mal dava para o nosso amigo custear as suas despesas pessoais. "Seu" Carlos contava ainda com a solidariedade de amigos e vizinhos, que o ajudavam a reunir o maior número possível de presentes.

Neste ano, em especial, as dificuldades foram maiores por causa da crise internacional, que não deixou de fora o pequeno país tropical onde morava o "seu" Carlos.

Foi aí que ele teve a brilhante ideia de viajar até um país vizinho chamado Brasil – "seu" Carlos aproveitou a promoção de uma companhia aérea, parcelou a passagem em 26 vezes e rumou para o lugar. A intenção era fugir dos preços altos que estavam sendo cobrados pelo comércio de seu país devido aos problemas financeiros globais.

Chegando ao Brasil, "seu" Carlos logo soube que havia vários centros de comércio popular pelo país, como a Rua 25 de Março, em São Paulo, a Saara, no Rio de Janeiro, a Avenida 7 de Setembro, em Salvador, a feira do Largo da Ordem, de Curitiba, e a feira de artesanato de Belo Horizonte, só para citar alguns. Não vamos conseguir explicar como o velhinho viajou para todos esses lugares com a grana curta que ele tinha – a companhia aérea deve ter falido devido à tal crise internacional e deve ter feito um saldão de passagens. Só pode ser.

Pois, bem. "Seu" Carlos viajou sete dias e sete noites, fazendo compras nestes oásis do consumo popular, pechinchando, andando de um lado para o outro, sempre enchendo a sua sacola com coisas baratinhas. Ele pensava nas crianças e suspirava. Elas nunca tinham recebido presentes tão originais, coloridos, engraçados e tudo o mais. "Seu" Carlos, que não é bobo nem nada, aproveitava o tempinho que tinha de folga para se refrescar no mar. Vestia o sungão e lá ia, todo prosa, nadar na praia. Mas o pior aconteceu. Em uma das vezes que o nosso personagem foi nadar, deixou as sacolas na areia da praia e, quando voltou do mergulho, as sacolas tinham sumido. Foi aquele auê. Muitos brasileiros ficaram sensibilizados com a história do velhinho: tinha saído do seu país em busca de presentes para as crianças e, num descuido, tinha sido assaltado. "Seu" Carlos logo disse que a violência estava mesmo em todo lugar, pois no seu país a situação também não estava nada boa.

Os novos amigos de "seu" Carlos chamaram a polícia, contaram o problema e se puseram a procurar as sacolas cheias de presentes do velhinho.

Os leitores não precisam ficar nervosos, pois esta história terá um final feliz, afinal de contas, é  época de festas.

Então, alguns dias se passaram, e a polícia conseguiu localizar as sacolas – a cidade onde isso ocorreu não vem ao caso, porque pode ter sido em qualquer uma das cidades por onde o "seu" Carlos passou e que tivesse mar. "Seu" Carlos sentiu falta somente de uns revólveres de brinquedo que ele tinha comprado, mas nada grave.

Com todas as sacolas recuperadas, o velhinho voltou ao seu país e fez a alegria da criançada. Todos adoraram a novidade dos presentes e nem se importaram por eles serem baratinhos. As crianças já tinham consciência que o importante mesmo era estar junto da família, dos amigos e de quem mais aparecesse. Depois desta aventura, o final de ano nunca mais foi o mesmo para o nosso amigo Carlos.

Ah! E todos viveram felizes para sempre.

(A autora é jornalista)

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