Pela paz

Clecy Ribeiro

Conflito íntimo ou fruto de injustiça social, supervalorização das  coisas mundanas, por que guerra?

Vivenciou a literatura latina sua Idade de Ouro – uma era de paz civil e prosperidade – do ano 43 antes de Cristo ao ano 18 da era cristã. Junto com o precedente período ciceroniano, a mais alta expressão da poesia, com temas de patriotismo, amor, natureza.

Assim decantada desde tempos idos, a Pax Romana consagrou-se no altar da Pax Augusta no ano 9 antes de Cristo. Através da história, burilada como bênção ao flagelo da opositora guerra, por que continuaria fugaz e arredia, contrariando lei natural?

Foi a partir da Idade Média que a questão, mais aguda a cada dia, ganhou contornos de reflexão. Mas tentativas de tratá-la em escala mundial esperaram até o século XIX. Memória de catástrofes políticas incentivaram: a queda do Império Romano e as guerras napoleônicas, com seus efeitos desorganizadores da Cristandade. O fator político ao qual se somam, em dimensões paralelas, os fatores espiritual, moral, intelectual, de reflexos marcantes na ordem universal, civilidade e clemência, respeito pela vida humana, anseio de bem-estar. Nesse espírito, próximo do Iluminismo, o que estorva ou contesta a ideia de paz representaria perturbação irracional da ordem racional.

Muitos são os que se irmanam, mentes e corações uníssonos, para combalir os alicerces do caos devido ao pouco caso do homem para com princípios de honestidade, sabedoria, moralização, integridade, liberdade. Revolvendo os alfarrábios, ali encontrei poema de 1609, de simples e sugestivo título: Euthymiae Raptus ou The Tears of Peace (As Lágrimas da Paz). Tradutor dos clássicos gregos, escritor elizabetano, George Chapman, nessa simbologia épica, tem a visão-fantasma de Homero, que o apresenta à alegórica figura da Paz, cujas lágrimas são lamentos à degradação do saber, do aprendizado, e à ascensão do poder e ambição. Um tema, de resto, que o acompanhou por boa parte da vida e obra, num período em que o mundanismo, relações entre homens e religiões, escolhas de existência vislumbravam, já, a odisseia humana e os horizontes do amanhã.

Como manancial energético para este século XXI, nem bem despontado, sociólogos e psicólogos franceses do Projeto Interação-Transformação Pessoal e Social indicam rumos: conhecer-se e mudar-se a si próprio, para poder conhecer e mudar o mundo, a ecologia humana e a ecologia terrestre. Evitar e/ou transpor precipícios, adotando ações que contribuam para forjar um humanismo lúcido e ativo. Paz como destino do homem na Terra, prega ainda a World Peace Prayer Society. Uma pregação de 100 anos, com mensagem de redespertar da consciência do amor, paz e harmonia que existe em cada ser humano. Paz interior acalentando paz universal. Abraçar a unicidade da família planetária, em todos os seus reinos.

"Aonde vai o mundo?", indaga Morin, lembrando o que enumera como quatro advertências recentes: Freud e Hitler, Hiroshima, o alerta demográfico, o alerta ecológico. Tanto maior urgência, clama, para uma revolução intestina dos organismos genitores da cultura social, quanto mais constata que as revoluções política, tecnológica e moral voltaram-se à destruição – um contrassenso do século XX que ainda perdura.

Façamos, pois, com que os tempos sejam chegados. "Viver, em cada dia, distintamente, material e espiritualmente, como fiel cumpridor das leis eternas do Amor, Harmonia e Paz...", como lembra Luiz de Souza em Ao Encontro de Uma Nova Era.

(A autora é jornalista)

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