Pela paz

A Razão publicava em outubro de 1940

O gênero humano não renuncia à aspiração e à solicitação de um mundo mais justo, civil e benigno, ou seja, mais humano, no qual todos os direitos sejam protegidos, no qual todas as boas obras encontrem auxílio e incitamento, no qual progressivamente diminuam as fadigas e dores, que não seja de jugulações alternadas, no qual seja abolida a guerra, não a guerra metafísica que é intrínseca ao próprio viver, mas a guerra que é a continuação dos costumes bárbaros, da sangueira, dos massacres, das crueldades e dos tormentos. E não somente não renuncia a esta aspiração e a esta solicitação como às esperanças e aos esforços no sentido de se transformarem os Estados em seus intermediários e instrumentos, e acolhem entre os seus deveres, pondo-o acima de outros, o dever de civilização e de elevação da moralidade e cultura.

De fato a moralidade, a civilização e a cultura são de si tão ligadas às condições do mundo inteiro, que a paz entre as nações não pode ser assegurada ou promovida senão com uma política internacional também de moralidade, civilização e cultura.

Se os intelectos se libertassem mais geralmente, mercê de investigação desapaixonada, dos estultos conceitos das raças e das nações privilegiadas e das que são consideradas perpétuas inimigas, e graças ao enobrecimento dos espíritos aumentasse a simpatia recíproca entre as várias famílias humanas, modificando as suas tradições e atitudes, que são tradições e atitudes da humanidade inteira, poderíamos enveredar por uma política mais humana, semelhante àquela para a qual parecia haver se encaminhado a Europa dos meados do século XIX e da qual se afastou gravemente para navegar em mar tempestuoso e lançar-se no mais cruel conflito de que dá conta a história.

Fosse vulgarizado maior respeito pela verdade ideal ou histórica, pela vida teorética que é uma em todo gênero humano, e se tornasse mais geral o hábito de reflexão e crítica; se abandonasse de uma vez a idéia de padronizar os homens, reduzi-los a autômatos e envenená-los com ideologias malsãs: – como se poderia, diante do sólido muro oposto por esta energia espiritual, não se praticar uma política diversa da que se pratica com o forjar quotidiano de falsidades, com o excitamento das imaginações, com o aturdimento das palavras vazias e a especulação desenfreada em torno dos sentimentos egoístas e inferiores, sempre presentes no presumido "hommo sapiens"!

Precisamos evidentemente restaurar princípios que à custa de contínua subversão já se nos afiguram velharias utópicas.

O ideal de confraternização humana não é impossível, mas para que possa ser realidade, forçoso é desbastar idéias e aniquilar tabus até aqui admitidos como verdade.

O primeiro ataque deve dirigir-se à velha crença de raças superiores e inferiores, de países privilegiados e países dominados.

Não há raças superiores nem inferiores. Existem, sim, indivíduos de melhor educação, instrução e condições de vida superiores, e a solução humana do problema não está no rebaixar mais ou menos favorecidos desses benefícios, senão no proporcionar-lhes idênticos recursos.

Quanto aos países, a injustiça também não pode perdurar, e certamente haverá mais justiça no mundo, quando cessarem os impérios coloniais, eufemismo moderno pelo qual se designa a escravização dos povos.

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