Perder e dividir

Heloísa Ferreira da Costa

Há semanas venho tentando escrever e me falta inspiração. De onde vem esta necessidade de tentar pôr a vida em palavras? Sempre que tento escrever me fogem da mente as coisas que quero verbalizar, não por falta de acontecimentos marcantes, foram tantas as lições do ano. Aprendi, por exemplo, que perder e dividir são duas equações difíceis na vida e que às vezes dividir é ainda pior do que perder.

Inspiração (dicionário): "insuflação divina, entusiasmo poético, iluminação"; descubro então que o que me falta no momento é entusiasmo, um ciclo de vida se fechou, meu pai morreu! A lei natural da vida mais uma vez se cumpriu de forma correta, ele desencarnou aos 80 anos, viveu bem, trabalhou, deixou uma história, talvez não aquela que seu espírito planejou em seu mundo de luz, mas, dentro de seu temperamento voluntarioso, controlou o que pôde e muitas vezes se deixou levar pela perda do mesmo, mas legou-nos sem querer e querendo ao mesmo tempo a maior lição, a consciência de que existe um tigre dentro de cada um, e que decidimos se vamos controlá-lo ou sucumbir aos seus apelos, se vamos enfrentar os problemas ou se vamos fugir de tudo, criando uma barreira que nem mesmo aqueles que mais nos admiram podem penetrar, ou ainda se vamos usá-los como desculpa ao erro. As forças interiores estão às vezes demasiado fundas e necessitam de um choque para serem postas em vibração. Este choque pode ser um insulto, um infortúnio, um desastre que primeiro esmaga e depois alenta e inspira. (Marden).

Como enfrentava uma patologia neurológica há sete anos, sua morte era uma realidade cada vez mais próxima, mas a sensação da ausência do pai gera, mesmo no indivíduo adulto, uma sensação de vazio. A quem pediremos autorização, conselho, principalmente aprovação? Somos adultos, há muito tempo isso não era possível, mas esse espírito plantou em nós um senso de dever tão grande em relação ao viver, que sinto ainda sua presença me cobrando por que não tirei dez na prova? por que ainda não fui trabalhar? Se terminávamos uma empreitada, logo outra nos era solicitada, nunca o que fazíamos era o bastante para aprovação total. Essa exigência toda nos tornou fortes e auto-suficientes, mas às vezes, inseguros.

Entre as mudanças necessárias, minha mãe mudou-se para um apartamento, e entre as arrumações achou o cartão que acompanhou as flores que meu pai me enviou quando da conclusão do meu curso, e acho que ali deve ter despertado em meu espírito a vontade de progredir, sempre na busca da sua aprovação: "Helô, que esta conquista seja apenas o começo de muitas outras que estão por vir. Por enquanto, parabéns, papai!" Como todo ser humano errou, como pai, como homem, essas falhas, no entanto, prejudicaram mais a si porque para nós serviram de inspiração na busca da espiritualidade, mas dentro das suas limitações humanas procurou fazer o seu melhor.

Acompanhamos, eu e meu irmão, a montagem da matéria para o serviço funerário, o nó da gravata, o gel no cabelo, o terno que não era usado há tempos e com esta nova experiência de vida – ou seria de morte – gostaríamos de esclarecer ao maior número de pessoas, amigos, conhecidos sobre o ponto de apoio da doutrina Racionalista Cristã – Força e Matéria – que a Matéria precisa ser controlada pela Força, a violação das leis naturais é a causa freqüente de perturbações e desequilíbrios que acarretam profundos sofrimentos, que problemas existem para ativar a evolução e necessitam soluções.

 O domínio de si mesmo assegura ao espírito humano o controle íntimo, evitando os atos impulsivos e as atitudes impensadas que possam levar a cometer desatinos, muitas vezes irreparáveis, a felicidade e a saúde têm a mesma origem, crescem de dentro para fora, e não são dons que nos outorga uma divindade cegamente caprichosa; são conquistados pela renúncia e força de vontade. O espírito dispõe do livre-arbítrio para conduzir-se por sua conta e risco.

No final, uma vez abandonado pelo espírito, o corpo físico nada mais é que um composto de matéria e cai no domínio das leis químicas, desintegra-se, porque tudo neste mundo é finito.

Uma despedida é necessária antes de se encontrar novamente, e se encontrar depois de momentos ou de vidas é certo para os que são amigos (Richard Bach); dividir teve momentos difíceis, mas perder foi pior do que imaginei!

(A autora é militante da Filial Marília, SP)

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