Pompeu Cantarelli - 101 anos de vida, quase 70 de Doutrina

Pompeu Lustosa de Aquino Cantarelli, diretor-secretário (licenciado) da Filial São Paulo do Racionalismo Cristão, escritor (autor, entre outros trabalhos, do livro Saber Viver), além de jornalista e representante de A Razão em São Paulo durante muitos anos, vai completar em 31 de agosto 101 anos. Desta vez não haverá comemorações ou festa, porque perdeu, no dia 10 de maio, a querida companheira e esposa, dona Alzira de Vecchia Cantarelli, que também atingiu avançada idade: 96 anos.

"Linda e admirável idade! Façamos por seguir as pegadas dessa existência", disse Antonio Cottas, referindo-se a um primo e grande amigo de Pompeu Cantarelli, dr. Joaquim Crispiniano Coelho Brandão, juiz de direito, quando este completou 100 anos, em 30 de agosto de 1975. Essas palavras elogiosas de Antonio Cottas ao então centenário dr. Coelho Brandão cabem agora, com muito mais razão, ao nosso mais que centenário companheiro Pompeu Cantarelli.

No seu aniversário de 100 anos, em agosto do ano passado, a Casa Chefe e a Filial São Paulo, num gesto de reconhecimento, apreço e consideração, prestaram, em nome de todos os companheiros de Doutrina, linda e comovente homenagem a essa ilustre figura da história do Racionalismo Cristão.

A concorrida e memorável cerimônia realizou-se, após sessão pública, na monumental sede da Filial, de cuja construção ele foi um dos principais agentes, ao lado do então presidente da Casa, Antonio de Ornellas Flor, e do então diretor-secretário, Humberto Antonio Romanelli, ambos fazendo parte já da plêiade astral superior.

O vice-presidente da Casa Chefe, sr. Gilberto Silva, representando no evento o presidente internacional do Racionalismo Cristão, dr. Humberto Machado Rodrigues, entregou a Pompeu Cantarelli o diploma de Membro Honorário.

"A vida de Pompeu Cantarelli foi repleta de lutas, principalmente na longa jornada de quase 70 anos a serviço do Racionalismo Cristão. Exerceu quase todos os cargos no Diretório da Filial São Paulo, culminando, com todas as honras, como diretor-secretário emérito desta Casa, título que lhe foi conferido em 25 de novembro de 1998, quando passou a denominar-se Sala Pompeu Cantarelli o recinto em que funciona a tesouraria do Filiado", disse na ocasião o sr. Herval Tavares de Campos, presidente da Filial São Paulo e representante da Casa Chefe no Estado.

"Pompeu Cantarelli passa a figurar como um símbolo na história do Racionalismo Cristão, e recebe nesta noite, véspera do dia em que completa 100 anos de idade, as merecidas homenagens de seus amigos, familiares, freqüentadores e companheiros desta e de outras Casas Racionalistas Cristãs, que durante longos anos o têm admirado por tudo o que fez pela Doutrina, por seus méritos pessoais e sua grande cultura", disse ainda o presidente Herval.

O sr. Gilberto Silva afirmou que muito aprendeu durante os vários anos em que teve o privilégio de trabalhar, na Filial, com Pompeu Cantarelli, sem jamais esquecer seus sábios conselhos e orientações. "Tenho que creditar a Pompeu muito do que sou; por isso, muito devo a ele, a seus exemplos, a suas lições de vida e de Doutrina."

"Quando assumi a tesouraria desta Casa, pautei-me pelos exemplos e lições que Pompeu nos deixou durante o longo período em que exerceu esse cargo na Filial. Mal sabia que tais lições me seriam úteis depois que assumi a vice-presidência da Casa Chefe, cargo que, de acordo com os estatutos, cuida também da parte material, dos bens da Doutrina. O senhor foi muito importante na minha formação e na de muitos outros companheiros. É um exemplo para mim e para todos nós, racionalistas cristãos. Muito obrigado. Parabéns pelo seu centenário de nascimento. Feliz aniversário!", disse o sr. Gilberto Silva, encerrando a cerimônia.

No final da década de 80 do século XX, a Casa Chefe pediu à Filial São Paulo que providenciasse entrevistas com antigos militantes desse Filiado, as quais passariam a fazer parte do acervo histórico do Racionalismo Cristão. Coube a mim a honrosa incumbência de entrevistar algumas beneméritas figuras da Filial, entre as quais Pompeu Cantarelli. É essa entrevista que então fiz com ele que o leitor lerá a seguir.

- Com que idade o senhor conheceu o Racionalismo Cristão?

- Conheci a Doutrina com 33 anos, mas, ao tomar conhecimento de seus princípios e de sua disciplina, percebi que já era um racionalista cristão antes mesmo de chegar ao Centro Redentor e de ler suas obras.

- Então, fale-nos, primeiro, desse período anterior à sua chegada ao Racionalismo Cristão.

- Filho de Antonio Lustosa Cantarelli e de Ascendina Aquino, nasci em 31 de agosto de 1904, na cidade de Parnamirim, Pernambuco. Desde garoto encarava a vida com seriedade e sensatez, motivo por que era chamado de "menino-homem". Ainda bem jovem, tornei-me livre-pensador, amigo da verdade, da justiça e da razão.

Em 1924, estava morando em Recife, trabalhando de dia e estudando à noite. Em minha estada na capital pernambucana, freqüentava a casa do governador do Estado, Manuel Pereira Borba, e a do então deputado federal Agamenom Magalhães, que posteriormente viria a ser também governador. Nesse período, travei conhecimento, ainda, com vários chefes políticos do sertão.

Em janeiro de 1929, cheguei a São Paulo e ingressei na Força Pública do Estado (hoje Polícia Militar), para trabalhar na Farmácia do Hospital Militar da corporação, o que me proporcionou a oportunidade de me formar em farmácia. Tendo servido a essa instituição durante 25 anos, passei, em 1954, para a reserva, no posto de capitão.

No ano de minha chegada a São Paulo, passei a freqüentar a teosofia, tornando-me também vegetariano, induzido por essa sociedade espiritualista e filosófica. Casei-me, em 1934, com Alzira de Vecchia, e tivemos três filhas: Guiomar, Ascendina (ambas falecidas) e Amália, casada, que me deu três netas.

- Quando e como o senhor conheceu o Racionalismo Cristão?

- Conheci a Doutrina em 1937, por intermédio de um colega de farda, o capitão De Cicco, militante da Filial São Paulo, que. na época, funcionava na Rua Francisca Júlia, bairro de Santana. Conseqüentemente, desliguei-me da Sociedade Teosófica, passando a freqüentar assiduamente as sessões públicas de limpeza psíquica dessa Casa Racionalista Cristã. Em 1954, quando me aposentei na Polícia Militar, pude finalmente inscrever-me como militante da Doutrina no mesmo Filiado.

- O senhor poderia citar um momento marcante de sua vida relacionado à Doutrina?

- O ano de 1955, por exemplo, também marcou minha vida. Foi quando conheci o presidente internacional do Racionalismo Cristão, Antonio do Nascimento Cottas, de quem me tornei amigo e pessoa de sua confiança. Devo confessar que, em minha vida relacionada à Doutrina, foi esta uma das minhas maiores alegrias: ter merecido a inteira confiança e a amizade de Antonio Cottas. Tenho em meu arquivo inúmeras cartas que me enviou o presidente Cottas, e as guardo como num relicário do grande homem que consolidou o Racionalismo Cristão.

- Sem pretender ferir sua modéstia, pode-se considerar Pompeu Cantarelli uma das figuras centrais da história do Racionalismo Cristão em São Paulo, por suas realizações, responsabilidades e funções que assumiu nessa Casa. Quais os cargos que o senhor já ocupou na Filial?

- Conhecedor do Racionalismo Cristão há quase 60 anos, integrei-me de corpo e alma nessa Doutrina. Uma vez inscrito como militante, sempre dei exemplo de dedicação, constância e assiduidade, comparecendo às sessões públicas e particulares.

Exerci no Diretório da Filial quase todos os cargos. Em 1962 fui eleito diretor-tesoureiro, por indicação de Antonio Cottas e com pleno apoio do então presidente, Antonio Flor, e do secretário, Humberto Romanelli. Posso afirmar, sem falsa modéstia, que meu desempenho, ao longo dos muitos anos que fiquei nessa função, caracterizou-se, sempre, pela austeridade e rigor na administração das finanças e do patrimônio da Doutrina em São Paulo. Quando ainda tesoureiro, cheguei a acumular as atividades de diretor-procurador e encarregado do salão, nas sessões públicas.

Com a desencarnação imprevista do inesquecível amigo Humberto Romanelli, em 1982, assumi as funções de secretário, também por indicação de Antonio Cottas e apoiado pela vontade unânime da diretoria do Filiado.

- Com Antonio Flor e Humberto Romanelli, o senhor protagonizou um dos episódios heróicos da história do Racionalismo Cristão em São Paulo: a construção e inauguração da nova sede dessa Filial. Que outras casas racionalistas cristãs o senhor ajudou a construir?

- Empenhei-me principalmente na construção da Casa Racionalista Cristã de Santo André (Grande São Paulo), e me envolvi também em outros empreendimentos, como as Casas de Butantã (Capital) e de Taubaté (Vale do Paraíba).

- O senhor foi, também, um dos mais importantes e assíduos colaboradores de A Razão. Quando e como começou essa estreita relação do jornalista Pompeu Cantarelli com o jornal de Luiz de Mattos?

- Depois que conheci Antonio Cottas, ele passou a me convidar para auxiliá-lo nas inaugurações de Casas Racionalistas Cristãs em várias partes do País, nomeando-me também repórter e representante do jornal A Razão nessas solenidades. Lembro-me com saudade dessas inaugurações. Antonio Cottas me escrevia, então, dizendo: Você está convocado, em nome do Racionalismo Cristão, para ir comigo a tal lugar, a fim de fazer a reportagem para o jornal A Razão e organizar a cerimônia inaugurativa.

Realmente, tenho sido, durante muitos anos, assíduo colaborador desse órgão de comunicação racionalista cristã, além de seu representante no Estado de São Paulo. Planejo reunir muitas dessas colaborações em um ou mais livros, que pretendo, um dia, publicar.

- Quem era, na verdade, o braço direito do presidente Antonio Flor?

- Bom, Antonio Flor era um homem simples, mas não era desprovido de argúcia, inteligência e diplomacia. Ele costumava afirmar que Humberto e eu éramos os braços dele na Filial. Mas nunca dizia quem era o braço direito...

Como titulares dos dois cargos mais importantes do Diretório da Filial, depois da presidência, e gozando da total confiança de Antonio Flor, eu e Humberto éramos seus assessores mais diretos nas atividades e empreendimentos da Casa Racionalista Cristã de São Paulo, especialmente na luta pelo ideal da sede própria.

Foi, de fato, uma etapa de grandes lutas e sofrimentos, que, afinal, valeram a pena, pois o sonho se tornou realidade em 25 de novembro de 1973, com a inauguração, presidida pelo presidente Antonio Cottas, do majestoso edifício da Rua Gabriel Piza, no bairro de Santana, monumento que faz honra à arquitetura desta grande metrópole e, principalmente, constitui importante e poderoso pólo de atração das Forças Superiores, em benefício da população paulistana e da humanidade em geral

José Alves Martins
O autor é Diretor da Filial São Paulo


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