Pompeu Cantarelli

José Alves Martins

Grande colaborador desencarna com 103 anos de idade e 70 de Doutrina

Desencarnou na capital paulista, por volta das 23 horas do dia 13 de agosto, o diretor-secretário da Filial São Paulo do Racionalismo Cristão, Pompeu Lustosa de Aquino Cantarelli, uma das figuras históricas do Filiado, pelos relevantes serviços prestados à Doutrina.

Faleceu 17 dias antes de seu aniversário, quando completaria 103 anos, tendo nascido às 23 horas do dia 31 de agosto de 1904, no sítio Santa Maria, perto da cidade de Parnamirim, na época denominada Leopoldina, Estado de Pernambuco. Estava licenciado de suas funções na Filial havia alguns anos por causa da avançada idade.

Pompeu Cantarelli, cuja esposa, Alzira de Vecchia Cantarelli, faleceu em maio de 2005, aos 94 anos, deixa uma filha, Amália Cantarelli Camargo, casada com o dr. Lecy Ribas Camargo; as netas Cristiane, Valéria e Ângela, o bisneto Gabriel e a bisneta Marina.

Compareceram aos funerais de Pompeu Cantarelli, além dos parentes e amigos da família, o presidente em exercício do Racionalismo Cristão, Gilberto Silva, acompanhado da esposa, Iraci Ferreira Silva, e do filho Daniel, bem como do diretor da Casa-Chefe Wilson Carnevalli Filho; o presidente da Filial São Paulo e representante regional da Casa-Chefe no Estado de São Paulo, Herval Tavares de Campos, e esposa, Emília de Ornellas Flor Campos; a secretária interina da Filial, Marialva de Campos Sposito; e demais militantes e freqüentadores dessa Casa Racionalista Cristã e de outras filiais da Grande São Paulo.

Pompeu Cantarelli contava, ao desencarnar, 70 anos de Doutrina, pois conheceu o Racionalismo Cristão em 1937, passando então a freqüentar as reuniões públicas de limpeza psíquica da Filial São Paulo, que na época funcionava na Rua Francisca Júlia, alto de Santana. Em 1954, ano em que se aposentou na Polícia Militar, no posto de capitão, pôde inscrever-se como militante nessa Casa, em cuja diretoria chegou a exercer quase todos os cargos.

Escritor e jornalista, escreveu, entre outros trabalhos literários, o livro Saber Viver e memoráveis reportagens e artigos neste jornal durante os longos anos do qual foi correspondente e representante em São Paulo.

Poeta, homem de cultura e brilhante inteligência, privou da amizade de Guilherme de Almeida, Príncipe dos Poetas Brasileiros e membro da Academia Brasileira de Letras, com quem se aprimorou na arte de versejar.

Aos 20 anos de idade, Pompeu Cantarelli havia deixado sua cidade natal para morar em Recife. Aí viveu quatro anos, trabalhando como ajudante de farmácia e estudando à noite, após o expediente de trabalho, que se estendia até as 20 horas.

Durante sua permanência na capital pernambucana, interessou-se pela política, tendo freqüentado nesse período a casa do ex-governador do Estado Manuel Pereira Borba e a do então deputado federal Agamenom Magalhães, que posteriormente viria a ser também governador. Nessa época travou conhecimento, ainda, com vários chefes políticos do interior de Pernambuco.

Em janeiro de 1929, mudou-se para São Paulo, onde ingressou na Farmácia do Hospital Militar da Força Pública do Estado (hoje Polícia Militar), tendo servido essa instituição durante 25 anos.

No ano de sua chegada a São Paulo, Pompeu Cantarelli passou a freqüentar a Sociedade Teosófica, tornando-se então vegetariano, por influência dessa doutrina espiritualista e filosófica, mas desligou-se da teosofia ao conhecer o Racionalismo Cristão, em 1937. Casou-se com dona Alzira em 1934, e desse casamento nasceram três filhas: Guiomar e Ascendina (falecidas) e Amália.

Desde seu ingresso na militância do Racionalismo Cristão, em 1954, dedicou-se de corpo e alma a essa Doutrina, distinguindo-se sempre pela constância e pela assiduidade a todas as sessões, públicas e particulares.

O ano de 1955 também marcou a vida de Cantarelli, segundo afirmou em depoimento para o acervo histórico da Casa-Chefe, pois foi nesse ano que conheceu o então presidente perpétuo e internacional do Racionalismo Cristão, Antonio do Nascimento Cottas, de quem se tornou amigo e pessoa de confiança. "Uma das maiores alegrias de minha vida", disse ele, "foi ter merecido a inteira confiança e a amizade de Antonio Cottas; e disso o presidente Cottas deu provas cabais durante a construção da nova sede da Filial São Paulo".

A partir de 1955, Antonio Cottas passou a convidar Pompeu Cantarelli para auxiliá-lo na organização das cerimônias de inauguração de casas racionalistas cristãs em várias partes do Brasil, nomeando-o também repórter e representante do jornal A Razão nessas solenidades inaugurativas.

"Tenho em meu arquivo inúmeras cartas que me enviou o presidente Cottas, e as guardo como num relicário do grande homem que consolidou o Racionalismo Cristão", confidenciou.

Homem austero com as finanças

Em 1962 Pompeu Cantarelli foi escolhido, por indicação de Antonio Cottas, para ocupar o cargo de diretor-tesoureiro da Filial São Paulo, com o integral apoio do então presidente da casa, Antonio de Ornellas Flor, e do diretor-secretário, Humberto Romanelli, que viria a ser substituído nessa função, ao desencarnar, pelo próprio Pompeu Cantarelli.

Tesoureiro exemplar, caracterizou-se no desempenho desse cargo pela austeridade e rigor na administração das finanças e do patrimônio do Racionalismo Cristão em São Paulo. Acrescente-se que, no período em que foi tesoureiro, chegou a acumular as atividades de diretor-procurador e de encarregado do salão, nas sessões públicas.

Em 1982, com a desencarnação de Humberto Romanelli, deixou a Tesouraria para assumir a Secretaria da Filial, também por indicação de Antonio Cottas. Embora nos últimos anos tenha se licenciado de suas funções nessa Casa, por causa da idade, continuou como titular do cargo até o fim de sua vida física, a pedido do dr. Humberto Machado Rodrigues, presidente perpétuo do Racionalismo Cristão.

Pompeu Cantarelli e Humberto Romanelli foram os diretores de mais destacada atuação na longa gestão do presidente Antônio Flor, principalmente durante a construção da monumental sede própria da Filial São Paulo, na Rua Gabriel Piza, 313, bairro de Santana, nos anos de 1969 a 1973. Nesse período, ambos, diariamente a postos, dirigiam e coordenavam a execução das obras, com a colaboração de outros diretores, militantes e amigos da Doutrina.

Foram também Pompeu Cantarelli e Humberto Romanelli que participaram mais de perto da comovente odisséia de Antonio Flor, na década de 60, para concretizar o sonho da sede própria - odisséia feita de vitórias e derrotas, heroísmos e lágrimas, conforme se constata lendo-se o livro Racionalismo Cristão em São Paulo, de autoria de Romanelli. "Lutas e sofrimentos que, afinal, valeram a pena", diz Cantarelli em seu depoimento, "pois o sonho se tornou realidade, tendo a inesquecível festa de inauguração do edifício, presidida por Antonio Cottas, ocorrido em 25 de novembro de 1973, com a presença de quase 2 mil pessoas."

Além da Filial São Paulo, Pompeu Cantarelli se empenhou também na construção de outras casas racionalistas cristãs, como a Filial Santo André (Grande São Paulo), Filial Butantã (capital) e Filial Taubaté (Vale do Paraíba).

Em 25 de novembro de 1998, na solenidade comemorativa do 25° aniversário da inauguração da nova sede da Filial São Paulo, presidida pelo presidente internacional do Racionalismo Cristão, dr. Humberto Machado Rodrigues, foi-lhe conferido o título de Diretor-Secretário Emérito, passando então a denominar-se Sala Pompeu Cantarelli o recinto onde funciona a Tesouraria da Filial.

Na véspera de seu centenário, 30 de agosto de 2004, a Casa-Chefe e a Filial São Paulo, num gesto de reconhecimento e consideração, prestaram homenagem a essa benemérita figura da história do Racionalismo Cristão, em cerimônia solene realizada, após a sessão pública, na Filial.

Na oportunidade, Gilberto Silva, representando dr. Humberto, entregou a Pompeu Cantarelli o diploma de Membro Honorário do Racionalismo Cristão.

"Pompeu Cantarelli", disse então o presidente Herval, "passa a figurar como um símbolo na história do Racionalismo Cristão e recebe nesta noite, véspera do dia em que completa 100 anos de idade, as merecidas homenagens de seus familiares, amigos, freqüentadores e companheiros desta e de outras casas racionalistas cristãs, que durante longos anos o têm admirado por tudo o que fez pela Doutrina, por seus méritos pessoais e por sua grande cultura."

Gilberto Silva afirmou que muito aprendeu durante os vários anos em que teve o privilégio de trabalhar, na Filial, com Pompeu Cantarelli, e jamais esqueceu suas orientações e sábios conselhos. "Tenho de creditar a esse mestre muito do que sou; por isso, muito devo a ele, a seus exemplos, a suas lições de vida e de Doutrina. Pompeu Cantarelli foi muito importante na minha formação e na de muitos outros companheiros. É um exemplo para todos nós, racionalistas cristãos."

(O autor é militante da Filial São Paulo, SP)

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