Clecy Ribeiro
Barack Obama toma posse na Casa Branca, em janeiro, em meio a expectativas nacionais e mundiais
Se bem me lembro, foi o escritor Ryszard Kapuscinski quem disse que ao homem cabem três escolhas: guerra, isolamento, diálogo. O mandato de George W. Bush, "os anos dos monstros", segundo o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman (blog de 5-11, New York Times), termina com a vitória da tolerância e do pensamento progressista e universalista de Barack Obama.
Cem anos de luta num Afeganistão sem culpa de sua posição estratégica na Ásia Central não bastaram ao imperialismo. Primeiro, os britânicos (século XIX), depois os americanos (século XX). Uma explosão de intensa violência sob o comando do presidente Bush, produzindo ameaças – militar, política e econômica – com reflexos em todo o mundo globalizado. Sete anos de invasão/ocupação empurraram a guerra para o Paquistão. Campeiam destruição e pobreza. Longe, muito longe, a idéia de segurança e do fim do terrorismo. Perto, muito perto, a proliferação nuclear.
No Iraque, desde a devastação começada em 2003, continua o êxodo. Mais de 2 milhões de iraquianos deixaram o país. Buscam refúgio inclusive nos Estados Unidos, que negam vistos até mesmo aos que os apoiaram ou trabalharam com equipes norte-americanas de ocupação. Novas exigências de segurança ditam as regras do jogo político, diametralmente oposto aos anos que se seguiram à guerra do Vietnã, quando o asilo aos refugiados permitiu sua integração e enriquecimento à vida americana.
Só? (E daí?) Com um sorriso desdenhoso, assim respondeu o vice-presidente Dick Cheney ao comentário de um repórter de televisão de que dois terços do povo norte-americano não mais suportavam a guerra no Iraque. Mostra do pensamento unilateralista, triunfalista, arrogante, marca deste último mandato republicano na Casa Branca, prazerosos todos de que é melhor ser temido que respeitado
Mostra do descumprir o prometido das campanhas – ouvir e respeitar –, sem cuidar dos danos, dentro e fora de casa. "Nunca, na história do país, tantos erros foram cometidos por tão poucos". O autor Fred Kaplan lamenta Bush e seu séquito de "fanáticos", as guerras não planejadas (Afeganistão e Iraque), as "revoluções coloridas" (Ucrânia, Geórgia, Líbano) e a doutrina do "destrua-os" (os inimigos Iraque, Coréia do Norte, Irã).
Na desumanidade do homem para com o homem, envergonhados, manchados de torturas, Abu Ghrabi e Guantánamo aguardam dias melhores.
O mesmo para os imigrantes torturados por exigências de uma política rígida, ora no topo da lista de problemas de Washington. Congresso dividido, legislação pendente, clamores por reforma.
A globalização do mercado de trabalho define o atual fluxo de imigrantes como o segundo em volume, comparado à onda de cem anos atrás. Mas entram em xeque segurança, identidade. Apertam-se controles e quotas. Criam-se cordões de isolamento, muros entre fronteiras, com patrulhas armadas e cercas eletrificadas. Mecanismos de rastreamento, inclusive individual, e discriminação étnica geram tensões que invertem o rumo do império da lei, num sistema fendido.
Concorre com a concepção do americano contemporâneo de identidade nacional – quem vive no território de um país é parte de uma nação, independente de origem étnica, racial ou religiosa – o conceito do nacionalismo étnico, embora banido dos Estados Unidos em 1965.
Barack Obama escolheu a diplomacia, exemplo, cooperação. "Ainda acredito que a América é a última e melhor esperança na Terra", clamou ele, em Chicago, faz um ano.
Erigir um século XXI militar e mostrar sabedoria em como fazê-lo. Erigir e fortalecer alianças. Enfrentar, juntos, desafios. Investir em nossa humanidade. Barack Obama apresenta-se como o mensageiro do moderno Partido Democrata: o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
Era o passo que faltava no percurso ideológico iniciado com pregações aos direitos das minorias e oposição às elites privilegiadas. É a apoteose do universalismo democrata, um basta na amargura segregacionista, na polarização racial. Enfim, a abertura plena, para além das fronteiras.
De novo, invocamos Krugman: "... Nesta eleição, Obama posicionou-se com altivez em defesa de valores progressistas e da superioridade de políticas progressistas; John McCain, em troca, denunciou-o como socialista, redistribuidor. E o povo americano deu seu veredicto. Agora começa a tarefa".
(A autora é jornalista)
Página principal | Arquivo