Ação local para problema global

Clecy Ribeiro

Fundação Clinton amplia iniciativa para salvar cidades do aquecimento

Cidades respondem por 80% das emissões totais de carbono e consomem 75% de energia. Hoje, 50% da população mundial vivem em cidades. A luta contra a mudança climática será, assim, vencida ou perdida nas cidades. Por isso, os governos deveriam aproximar-se mais dos líderes municipais, apoiando-os em projetos para reduzir gases do efeito-estufa. Tais constatações constam do comunicado emitido ao término da segunda cúpula sobre o clima de 40 megalópoles, em New York, 16 de maio 2007.

Iniciativa da Fundação William J. Clinton, do ex-presidente Bill Clinton, seus participantes determinaram como primeiro alvo 16 dentre as já agora 50 cidades envolvidas: Bancoque (Tailândia), Berlim (Alemanha), Chicago, New York e Houston (Estados Unidos), Johannesburg (África do Sul), Karachi (Paquistão), Londres (Grã-Bretanha), Melbourne (Austrália), Cidade do México, Mumbai (Índia), Roma (Itália), São Paulo (Brasil), Seul (Coréia do Sul), Tóquio (Japão) e Toronto (Canadá). (*) Um pacto, por assim dizer, entre prefeitos, cinco bancos, empresas e grupos privados. Objetivo: investir alguns bilhões de dólares em medidas para modernizar imóveis urbanos antigos e racionalizar o consumo de energia, reduzindo a liberação de gases ligados ao aquecimento. Previsões de corte de 20% a 50%, em consumo e custos.

"Mudança climática é um problema global que exige ação local", pontua Clinton. Sua fórmula do "certo a fazer": poupar energia, produzir capital, criar empregos. Um impacto coletivo na mudança climática. "Os prefeitos acham-se em posição extraordinária", disse ele, em entrevista a The New York Times. A questão do clima configura-se eminentemente causa cívica. Mas política também. Se a estratégia energética levou os republicanos à Casa Branca em 2000, possivelmente reconduzirá os democratas ao governo, em 2008. Tanto Clinton quanto seu vice-presidente, Al Gore, um combatente da desinformação que cerca o tema, levando palavra de alerta a três continentes, censuram o atual presidente Bush por rejeitar o Protocolo de Kyoto, de 1997, o primeiro acordo em nível mundial para reduzir (5,2% abaixo dos níveis de 1990) as liberações de gases do efeito-estufa até 2012.

Contrário a qualquer forma de controle obrigatório, o governo republicano argumenta que o Protocolo imporia "carga injusta" aos americanos, acabando com milhões de empregos. Além de, assim, descumprir promessa de campanha (para a qual contribuíram, com milhões de dólares, empresas posteriormente beneficiadas), endossou a Lei do Céu Limpo, dos anos 1970, que estabelecia controles estritos apenas para novas fontes poluidoras. Resultado: investimentos em instalações já existentes – poluidoras ao abrigo da lei. Porque esta se aplica apenas a alguns poluidores (dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio, mercúrio), deixando de fora o dióxido de carbono, o principal.

Lembra o economista e colunista Paul Krugman (The Great Unraveling, W.W. Norton&Company, 2003) que o governo Clinton chegara a agir contra tais práticas, processando algumas empresas.  Na verdade, constata, os "céus limpos" do presidente Bush permitem duas vezes mais poluição do que o julgado adequado pela Agência de Proteção Ambiental. Defende, em contrapartida, o sistema de "limites e comércio". Fontes poluidoras existentes receberiam licenças para emitir quantidades específicas de poluição, mas poderiam vender essas licenças a outros. Isso criaria, afirma, incentivo para reduzir a poluição em instalações antigas, a fim de liberar licenças de venda. Outro não seria o pensamento por trás da iniciativa da Fundação Clinton. Entusiasta do comércio de emissões, o próprio Clinton, entretanto, admite um xis: a distribuição das licenças. O autor David G. Victor, por exemplo, julga a lei internacional um "mecanismo pobre para alocar essas licenças e controlar um mercado com trilhões de dólares em jogo". Outros admitem que, ratificado, o Protocolo de Kyoto criaria um mercado mundial de emissões.

No estudo/análise das questões que envolvem a mudança climática,  o consenso fica apenas por conta da urgência. Não há força da natureza conhecida que responda pela gravidade do aquecimento global, ressalta o relatório 2007 do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, de 2.500 cientistas e especialistas de 130 países. Culpa, portanto, as atividades humanas. Voltamos, assim, às cidades, catalisadoras de múltiplas condições crônicas geradas pela mudança climática. Em jogo, necessidades básicas: casa, comida, água e estabilidade.

 (*) Além das 16 cidades citadas: Addis Abeba, Bogotá, Buenos Aires, Cairo, Caracas, Nova Delhi, Dacca, Hanói, Istambul, Jacarta, Lagos, Lima, Los Angeles, Madri, Moscou, Paris, Pequim, Philadelphia, Rio de Janeiro, Shangai, Sidnei, Varsóvia. Como afiliadas: Austin, Barcelona, Copenhagen, Curitiba, Heilderberg, New Orleans, Portland, Rotterdam, Salt Lake City, San Francisco, Seattle, Estocolmo.  

(A autora é jornalista)

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