Progredir

Felino Alves de Jesus

A Razão publicava em 15 de junho de 1938

Progredir sempre deve ser o supremo desejo do homem: progredir espiritual e materialmente.

Espiritualmente pelo estudo incessante de tudo que é mistério, que não tem explicação aceitável e racional; pelo estudo do porquê da vida, da nossa posição ante o infinito; pelo domínio das paixões que se debatem violentas dentro de nós; pelo desprendimento das coisas terrenas; pelo auxílio desinteressado ao nosso semelhante...

Materialmente, pelo trabalho ativo, sem desfalecimentos, mas metódico, racional, honesto. Nada de excessos desnecessários. Deve haver perfeito equilíbrio entre a alma e o corpo. Exceder-se materialmente é prejudicar o espírito. Exceder-se espiritualmente, tentar compreender as transcendências da vida, instantaneamente, é lançar-se na confusão, no desânimo, na derrota. É necessário um avanço lento no desconhecido.

Parece que caio em contradição quando, de um lado, aconselho o desprendimento das coisas terrenas e, de outro, o trabalho ativo para o progresso material, mas uma coisa não exclui a outra. O que não deve haver é o apego desmedido à matéria, à avareza, à insaciedade. Que se procure apenas o conforto físico.

"Tudo o que falais é muito simples de dizer e de escrever, mas cumpri-o", sem dúvida alguma me ponderaríeis, caso estivésseis agora comigo, leitor. Eu concordo convosco. Nós estamos envolvidos em um tal ambiente de ódio, inveja, egoísmo, sensualismo; em um tal ambiente deletério, que é preciso um preparo mental extraordinário para a vitória. O vício impera por toda parte e com uma violência terrível. A devassidão penetra assustadoramente na sociedade. A família desmorona. Não é fácil neutralizarmos os jatos de fluido pesado que a todo momento nos são lançados pelas forças inferiores, isso porque, não estando perfeitamente preparados para a grande luta que é a vida, casamos nossos pensamentos com essas forças inferiores, atraindo-as consequentemente. Estamos de tal maneira viciados, que é um sacrifício enorme dominarmo-nos. É duro, duríssimo mesmo, renunciar aos prazeres, à despreocupação, ao indiferentismo pelos sérios problemas da vida. Esses problemas se nos apresentam áridos, exaustivos e inúteis mesmo. Para que conhecer a verdade se a mentira é mais conveniente? Para que derrubar os dogmas se eles são verdadeiros escudos protetores? Para que perder tempo "a pensar", se a vida é tão curta e rápida? Os maus hábitos já se enraizaram de tal maneira em nós, desde a infância, que é difícil, dificílimo mesmo extirpá-los.

A educação ministrada pelos pais às crianças tem influência decisiva na vida delas; é um fator importantíssimo e seus efeitos se farão sentir em todos os atos, os menores mesmo da vida futura. Que não se entenda por educação apenas o preparo intelectual, o físico, o estudo das belas artes. Que não se descure, sobretudo, de ensinar ao infante lutar e receber com altivez os reveses da vida. É necessário que ele, desde a infância, se habitue a ser contrariado, para que mais tarde saiba receber as desilusões da vida com otimismo e considerando-as sempre como um incentivo para novas lutas. Esse preparo infantil é encargo dos pais. É a estes que cabe treinar os futuros homens nas contrariedades, nas desilusões dos desejos insatisfeitos.

Ao encarnar, o ser traz consigo, em estado latente, defeitos e qualidades. Esses defeitos ou qualidades se desenvolverão conforme o ambiente que encontrarem.

Muitos pais fazem dos filhos soberanos do lar, satisfazendo-lhes todos os caprichos, todas as vontades.

Ora, a criança, ao notar sua influência – e nota-a com extrema rapidez – começa a dar vazão a todos os seus caprichos, e de tal maneira que, se não houver uma reação forte e em tempo por parte dos pais, manipulá-los-á completamente e a seu bel prazer.

Que vemos na atualidade? Meninos com nove, dez anos, cigarro à boca, linguagem livre, conhecedores de segredos de alcovas, viciados no jogo e nas apostas e a fazerem os mais tristes papeis nos bondes e nas ruas.

Rapazes de 18, 20 anos, nos cassinos, nas casas suspeitas, com assiduidade impressionante, inteiramente indiferentes aos problemas de sua vida, de sua família e de sua pátria.

Homens de 30, 40, anos, já sem ideais, sem desejos, sem incentivo, vivendo perfeitamente a vida dos irracionais – comer, dormir e procriar.

Qual a origem de todos esses males? A educação imperfeita que é dada no lar.

Um pai precisa abafar os ímpetos de amor que sente por seu filho e educá-lo inflexivelmente, castigando-o quando merecer, embora chore depois, às ocultas; precisa torná-lo um homem. Por outro lado, a mãe deve desenvolver-lhe as qualidades afetivas, deve ser-lhe o guia no árido caminho da vida. Entretanto, o pai sai de casa pela manhã, para o trabalho, e volta à tarde, sem indagar da vida do seu filho, sem procurar conhecer seus progressos nos estudos, sem inspecionar sua vida privada; a mãe, por sua vez, a fim de satisfazer os deveres que tem para com a sociedade, entrega a educação dos filhos às amas e às criadas. E o resultado temos na sociedade atual.

É necessário que se procure ser racional na vida e, sobretudo, dar à infância uma educação menos imperfeita, para haver algum progresso, embora lento.

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