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Protejamos as árvores
Pompeu Cantarelli Artigo publicado na edição de 20 de novembro de 1964 Quando criança, brincava alegremente sob a ramaria escarlate de um flamboyant. Ainda hoje me lembro das suas flores de "pétalas de sangue e de sépalas de chama". Bem disse Da Costa e Silva, inspirado poeta piauiense, que o flamboyant é uma "árvore senhoril, de flores de ouro e fogo, aberta em flores mil". O flamboyant, que adornava a frente da casa onde nasci, se revestia de majestade e de esplendor em plena aridez do sertão. Nessa árvore de "ouro e fogo" os passarinhos orquestravam os mais lindos e variados gorjeios, e uma criança contemplativa os ouvia enternecidamente... O tempo avançou no calendário; passaram-se os anos; o flamboyant floriu e refloriu nas primaveras, e a criança cresceu e partiu para longínquas terras, levando na memória aquele quadro indelével de uma árvore que lhe proporcionou tanta alegria. Hoje, quando vejo um flamboyant, sinto saudades da minha infância e relembro aqueles cenários bucólicos que me extasiavam. Sou amigo das árvores e quando as vejo tombarem, desnecessariamente, sob o gume cruel de um machado ou dos dentes penetrantes de uma serra ou devoradas pelo fogo das queimadas, fico triste a lamentar a ingratidão e a perversidade dos homens para com a natureza, que faz com que os vegetais brotem na face da terra para que eles possam viver. A devastação florestal no Brasil é um acontecimento alarmante e criminoso, que deve ser combatido, com rigor e eficiência, pelos governos e pelo povo, porque o desaparecimento das matas e cerrados reduz os mananciais, que dão curso aos rios, torna as chuvas irregulares e, com isso, há transformação no clima e rarefação do oxigênio do ar que respiramos, surgindo, também, a erosão, que é um dos flagelos da nossa agricultura. Precisamos cuidar logo da silvicultura, educando o povo numa mentalidade reflorestadora plantando árvores em substituição às que forem derrubadas, do contrário estaremos a preparar desertos, que nada produzem e a vida se torna insuportável como um protesto da ordem natural das coisas contra a criminosa imprevidência do gênero humano de acabar com as árvores sem substituí-las. Precisamos, incrementar e modernizar a agricultura e a pecuária, para melhor alimentarmos os 80 milhões de brasileiros, porém, podemos fazê-lo sem sacrificar as nossas reservas florestais. Não devemos derrubar árvores sem uma necessidade imperiosa, e quando o fizermos plantemos outras em lugares que não estorvem as culturas e as habitações. Se não fosse o gás engarrafado, agora largamente usado nas cidades, a devastação de nossas matas seria mais grave ainda com a sua utilização, cada vez maior, como lenha e carvão. Precisamos substituir, com urgência, a lenha e o carvão vegetal por combustíveis gasosos ou minerais, tanto nas residências, nas padarias, como nos navios fluviais, como acontece ainda no Rio São Francisco, no trecho de Pirapora a Juazeiro, cujas matas marginais já foram devastadas para alimentar as fornalhas dos vapores que por ali navegam. Plantemos árvores e conservemo-las como um bem imprescindível à nossa vida, aqui na Terra, porque na época em que a vegetação desaparecer completamente da sua superfície o nosso planeta tornar-se-á inabitável para os seres humanos. Apelamos aos pais, professores e às professoras brasileiros para que incutam na mente da nossa juventude o amor às plantas, que são verdadeiras dádivas do Criador a esta humanidade que, por ignorância ou displicência, destrói os seus próprios bens naturais. O nosso País, mais do que outras nações, tem o dever de reverenciar o culto da árvore, porque foi ela que deu origem a esse lindo e magnífico dissílabo – ao qual muito amamos – Brasil. Este modesto comentário é dedicado ao dr. Alípio Lustosa de Carvalho, ínclito promotor público, grande amigo das árvores e emérito educador em Belém do São Francisco, no Estado de Pernambuco. |
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