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A próxima aula
Heloisa Ferreira da Costa Uma grande perda, passada a dor, pode provocar mudanças significativas no modo de se ver a vida Este mês de agosto de 2007 traz à lembrança fatos importantes que ocorreram há dez anos e que modificaram substancialmente minha vida e a de pessoas queridas. Em 4 de agosto de 1997 deixava de forma abrupta a vida física meu querido tio José Ferreira da Costa Júnior, que esteve à frente do Racionalismo Cristão em Marília por 36 anos. Como todo espírito superior, desencarnou em silêncio, sem dar trabalho a ninguém. Sentiu-se mal e deitou-se na cama do quarto do seu filho para esperar passar. Naquela manhã sumiu-nos o chão. Fui avisada em meu consultório e, ao chegar ao hospital, não havia mais o que fazer. Fui encontrá-lo deitado, num leito frio, colarinho desabotoado, mãos geladas, aquele coração tão alegre parou de bater e assim, profundamente triste, me encontrei com sua família, minha tia e primos, com um vazio, uma dor indescritível. Uma pessoa assim, quando parte, deixa a sensação em todos que conviveram com ele de abandono, orfandade. Como numa reação dominó, seguiram-se todos os eventos subseqüentes. Nelson, meu irmão, foi apontado como substituto na presidência da Casa Racionalista e logo me convocou como militante. No dia seguinte, ainda com os olhos inchados, fui para Ribeirão Preto fazer minha matrícula no doutorado em que havia sido aprovada, a alegria suplantada pela dor. O mais interessante é que, quando fui aprovada no vestibular de Odontologia, em 1978, estava hospedada na casa de meu tio, e ele, embora sem a aprovação da sua filha no mesmo concurso, fez questão de abrir uma champanha para brindarmos a minha vitória – assim era esse tio, uma pessoa que sorria mesmo se estivesse sofrendo interiormente. Tudo isso se passou há muito tempo e, como todo racionalista cristão, nos lembramos com saudades, mas sabemos que a morte não interrompe a vida e que o grande espírito do Ferreirinha está trabalhando incansavelmente em plano Astral Superior com a mesma energia que guiou seus passos na Terra. Após dez anos de militância sinto uma maturidade espiritual maior e gosto de comparar a nossa doutrina com uma escola pública, o mesmo primário e ginasial que tantos cursaram, que não era pago, mas que para se aprender havia necessidade de estudo e dedicação. Naqueles tempos não era como hoje, havia reprovação na escola pública. De qualquer forma, aprende aquele que realmente quer, como nas escolas racionalistas cristãs, todos têm a mesma oportunidade, mas só se esclarecem e alcançam maior evolução os que põem sua força de vontade, perseverança e raciocínio voltados para o bem, caso contrário serão apenas um número a mais. À medida que nos aprofundamos no estudo espiritual, sentimos uma alegria interior, uma energia que brota mesmo quando tudo não está tão no lugar, porque se percebe que a cada problema virá uma nova lição e um crescimento. Infelizmente o ser humano adora reclamar das coisas que não saem como o planejado, atribuindo a uma força superior a injustiça do fato, mas se ao invés de se chatear com o que não deu certo perguntasse "que aula é essa?"; "o que este momento está me trazendo?"; "o que vou aprender com esta nova circunstância?"; tudo ficaria muito mais fácil, e compreenderia que o que parece errado muitas vezes trará resultados positivos. É preciso reconhecer os pontos fracos e fortes sem se abater com o que descobre, viver evoluindo é o reconhecimento dos atributos positivos para aflorá-los e dos negativos para contê-los, não é preciso se amoldar ao mundo, mas é necessário perceber que, quando somos vaidosos, temos a ilusão de que o mundo deve amoldar-se a nós. Tenho muitas lembranças de momentos agradáveis na companhia da família de meu tio, férias inesquecíveis, mas acho que a lembrança que melhor exemplifica quem foi este homem é o nosso passeio a Paquetá, "Zézinho", um empresário de sucesso na época, era um homem simples, fez questão que fossemos de ônibus até a barca, brincando, alegre como uma criança feliz ao lado de sua adorada família, e nossa melhor homenagem a ele e a sua memória é seguir com esta grande obra do Racionalismo Cristão em Marília que tanto bem fez a todos nós, e por mais que façamos ainda será pouco comparado ao muito que recebemos. Que bom que eu escolhi nascer sob esta bandeira e que reconheci a importância destes princípios. As palavras convencem, mas só o exemplo arrasta, e foram estes exemplos que me marcaram de forma tão profunda. Assim, serena, luto, sofro, mas espero sempre a próxima aula com entusiasmo, se a tarefa for difícil não me assusto mais, quando criança eu também chorava para fazer os trabalhos da escola, mas sempre cumpria meus deveres, assim deve ser a nossa vida, o sinal tocou, consulte a escala das aulas, espere a próxima lição, preste atenção, aprenda e cresça! (A autora é militante da Filial Marília, SP) |
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