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Quando sofremos...
Heloísa Ferreira da Costa
A vida neste plano físico é uma aventura perigosa, nunca sabemos o que está reservado
logo à frente na próxima curva do caminho, não entendemos também por que, mesmo sendo
cumpridores de nossos deveres, trabalhadores incansáveis, sofremos. Quantos não se
perguntam o porquê de determinado acontecimento.
"Para entendermos a perspectiva da vida só mesmo analisando-a em
retrospectiva", disse Kierkegaard. Sempre que algo acontece temos o péssimo hábito
de, imediatamente após o desenrolar dos fatos, julgar se foi bom ou ruim. Daí a
importância da frase. Não temos a visão espiritual para entender que algo ruim pode
transformar-se em algo bom e vice-versa, trazendo intrínseca uma nova lição para a
evolução do espírito. Isso pode ser especialmente verdadeiro quando se trata de uma
oportunidade perdida, um sonho adiado ou um relacionamento que não preencheu nossas
expectativas.
A Doutrina Racionalista Cristã nos dá o suporte para podermos encarar as mais
inusitadas situações, nos dá também intuições de que vem perigo à frente. Não há
nenhum mistério nisso. Apenas, ao nos espiritualizarmos, vamos captando mais facilmente
as interferências negativas. Mesmo assim, de certa forma alertados, caímos, é natural,
faz parte da vida, mas sofremos, sentimos uma dor na alma tão intensa que parece que
nunca vai passar. O monólogo interior não cessa e os acontecimentos retornam à mente
sempre que despertamos; seja a hora que for, o sono é perturbado e a falta de descanso
debilita mais ainda o corpo físico já castigado. Nesses momentos precisamos ficar sós
e, assim como a lagarta, construir uma proteção para nos refazer e então, apoiados nos
princípios, na disciplina, ressurgirmos como borboleta para voar novamente.
O racionalista verdadeiro tem vários livros, doutrinações, apontamentos, frases de
alento para os reveses da vida. E nesses momentos, dentro de seu casulo, o ser busca o
refrigério para o espírito amargurado. "É preciso reagir contra os males, é
preciso reagir contra as enfermidades, é preciso reagir contra as contrariedades",
disse Luiz de Mattos. Sem a reação vem a obsessão e, atrás dela, a depressão, levando
o incauto ao fundo do poço. O lado material na vida encarnada ainda fala mais alto e
suplanta o lado espiritual, trazendo o sofrimento. Não há que ter arrependimento das
atitudes tomadas ouvindo a matéria. Há, sim, que reavaliar o que aquela experiência
trouxe em termos de aprendizado e seguir adiante em nossa jornada rumo ao
aperfeiçoamento.
Existem três conselhos para seguirmos:
não corra atrás de alguma coisa que está fora do seu alcance;
não fique angustiado pelo que está irremediavelmente perdido; e
não acredite teimosamente em algo inacreditável.
Assim, de leitura em leitura, buscando as respostas para nossa dor, vamos nos
reconstruindo; se necessário chorar, chore! Como disse Maria Cottas: "As lágrimas
vêm aos olhos e transbordam para desafogo de uma alma oprimida. Bendigam as lágrimas,
porque elas são, muitas vezes, a salvação para o desespero e a agonia". Ou ainda,
nas palavras de Antonio Cottas: "Felizes são aqueles que derramam lágrimas por
saudade ou motivados por alegria ou tristeza. O choro produzido pelos obsessores nas
criaturas obsedadas é inexpressivo, não traduz sentimento".
Trabalhar, lutar e sofrer, isso faz parte da vida, isso é natural, ninguém pode fugir
das vicissitudes. Mas havendo raciocínio, equilíbrio e lucidez, a pessoa se mantém
nesse mundo como deve se manter, agindo sempre com prudência, caminhando com firmeza e
aplicando bem o seu tempo.
Sempre que uma porta se fecha, outra se abre. Mas é preciso aprender a olhar para a
porta que está aberta e desconsiderar a fechada. Só assim podemos prosseguir, esquecendo
as misérias morais e vislumbrando o horizonte à frente!
A autora é militante da Filial Marília, SP
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