|
Quantos e quais foram os discípulos de Jesus?
Gilnei Castro Müller
A história bíblica, principalmente na parte dos Evangelhos, conta que Jesus, o Cristo,
durante as suas peregrinações teria sido acompanhado por doze discípulos ou apóstolos,
como também são conhecidos pelas religiões. Esse número "doze" é
enigmático e, para os judeus, representa as antigas doze tribos de Israel. Todas as
informações contidas no Novo Testamento, que dizem ser determinada previsão do Antigo
Testamento ou para cumprir-se esta ou aquela "profecia" do passado, são
altamente suspeitas e não podem ser tomadas como fontes fidedignas e infalíveis.
Admite-se, e com bastante cabimento, que o número de discípulos que realmente seguiram
Jesus foi bem superior ao anunciado e também que ele teve algumas mulheres que o seguiram
de perto, como verdadeiras discípulas, fato este que iremos abordar com detalhes na
segunda parte deste artigo dedicado a este importante assunto - as pessoas que seguiram os
passos de Jesus durante a sua vida física - e que será publicada na próxima edição de
A Razão.
O apóstolo Paulo é uma exceção e não se pode afirmar que ele foi um dos discípulos
de Jesus, pois ele se converteu em uma situação um tanto estranha, após a suposta
"morte" de Jesus ou seu desaparecimento físico das imediações de Jerusalém.
Pretendemos abordar este assunto em um dos próximos artigos, dedicado à conversão de
Paulo e a doutrina que ele propagou em suas viagens missionárias, a qual deu origem ao
que hoje se conhece no ocidente como "cristianismo".
Após a prisão de Jesus, em Jerusalém, seus discípulos, na maioria com medo de serem
também presos, teriam se dispersado, e um dos poucos que o acompanharam de longe foi
Pedro, mas mesmo assim, quando foi interpelado pelos soldados romanos, disse que sequer
conhecia o seu Mestre. Segundo a própria lenda bíblica, antes que o galo cantasse pela
segunda vez ele já havia, por três vezes, negado fazer parte do grupo que seguia Jesus.
Os discípulos, desorientados, teriam se afastado da sua vida apostólica e voltado às
suas anteriores ocupações. Simão, Pedro, Tomé, Natanael de Canaã e os filhos de
Zebedeu voltaram à pesca (conforme o Evangelho de João, no capítulo 21, versículo 2).
O antigo entusiasmo somente ressurgiu quando Jesus lhes comunicou o desejo de
encontrá-los na Galiléia. Porém, quando Jesus se apresentou no meio deles, eles ficaram
muito perturbados e até assustados, pensando que estavam vendo um "espírito".
"E ele lhes disse: Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas em
vossos corações? Vede meus pés e minhas mãos: sou eu. Apalpai e entendei que um
espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho. Dizendo-lhes isso,
mostrou-lhes as mãos e os pés. E como, por causa da alegria, não podiam acreditar ainda
e permaneciam surpresos, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer? Apresentaram-lhe
um pedaço de peixe assado e um favo de mel. Tomou-os e comeu diante deles."
Finalmente Jesus teria convidado o incrédulo Tomé para que lhe tocasse as chagas, a fim
de convencê-lo da sua existência física.
Apesar de se saber, perfeitamente, que um espírito, com a evolução do de Jesus, teria
condições de se materializar no momento que desejasse para convencer os seus amigos ou
discípulos da sua existência ou para transmitir os seus ideais, ao se fazer, com maior
atenção, a leitura do trecho do Evangelho bíblico, pode-se concluir que Jesus teria
realizado esse "reencontro" com os discípulos na Galiléia pessoalmente e com o
próprio corpo físico que possuía antes da crucificação e da suposta
"morte". E mais: que esse "reencontro" teria se dado aproximadamente
40 dias após a fabulosa "ressurreição" de Jesus em Jerusalém. Decorrido esse
prazo de 40 dias seria um tempo suficiente para que ele já tivesse se recuperado
completamente dos traumas e ferimentos sofridos antes e durante a crucificação.
Jesus, entretanto, não podia mais pregar para as multidões e ficar se expondo ao
público, pois seria perseguido e novamente preso pelos seus ferrenhos inimigos,
destacadamente os fariseus, que lhe tinham grande inveja. Entre muitos acontecimentos
importantes desse memorável reencontro com Jesus na Galiléia, segundo os Evangelhos,
teria Jesus assim se dirigido a todos eles: "Ide por todo o mundo e pregai o
Evangelho a todas as criaturas. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer
será condenado..." (conforme consta no Evangelho de Marcos, no capítulo 16,
versículos 14 a 18).
É suspeito que a autoria dessa frase seja atribuída a Jesus, porque, sendo ele um
espírito de luz e de grande evolução, como já foi esclarecido em artigos anteriores,
jamais iria ameaçar quem quer que fosse com a condenação, simplesmente por não
acreditar nas suas palavras. Essa frase é, tudo nos leva a acreditar, uma das muitas
montagens da Igreja, que colocou essas palavras na boca de Jesus, para justificar mais
tarde a sua cruzada pelo mundo, usando ferro e fogo em sua sede de missionários para
cristianizar à força as criaturas humanas. E até mesmo chegando a condenar à morte
muitas pessoas que se atreveram a contrariar suas crendices e seus dogmas considerados
sagrados e infalíveis.
Pelo que se viu até agora, parece que Jesus teve dificuldades para convencer os
discípulos de que ele era uma criatura real, viva e de carne e osso. Chegou até a
enfatizar a sua natureza material, deixando-se tocar e aceitando alimento para comer na
presença deles. Declarou expressamente não ser um "espírito". Sua
reaparição não era um erro ou uma visão ilusória, ele era um homem com o seu corpo
físico normal.
Após esse encontro de Jesus com os discípulos na Galiléia, um outro fato miraculoso
teria acontecido, que foi a "ascensão de Jesus" em carne o osso para os céus,
de acordo com o relato do Evangelho de Marcos em seu capítulo 16, versículos 19 e 20. O
Evangelho de Mateus nada informa sobre a tal "ascensão". E assim consta no seu
capítulo 28, versículos 16 a 20: "Aparição de Jesus na Galiléia e missão dos
apóstolos. Os onze discípulos partiram para a Galiléia, para o local onde Jesus lhes
tinha indicado. Quando o viram, adoraram-no. Alguns, porém, ainda duvidaram. Jesus,
aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide,
pois, e ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei. Eu estarei convosco todos
os dias, até o fim do mundo". Tanto no capítulo 28 de Mateus como no capítulo 15
de Marcos, nesses versículos que foram citados se pode observar claramente que houve uma
interpolação no texto dos Evangelhos originais com a intenção de representar para os
seguidores e futuros "cristãos", e principalmente para os leitores dos tais
"evangelhos", um Jesus elevado à categoria de um "Deus Pai Todo
Poderoso".
Outro tremendo disparate facilmente percebido é a referência que faz ao Espírito
Santo. Fontes bastante fidedignas e não religiosas nos informam que o dogma do
"Espírito Santo" e também o da "Virgindade de Maria" antes e depois
do nascimento de Jesus foram adotados pela Igreja muitos anos depois do desaparecimento
físico de Jesus de Jerusalém, possivelmente após o terceiro século da nossa era.
Ainda o versículo 19 do capítulo 28 de Mateus garantiu à Igreja o direito de, em nome
de Jesus e seus apóstolos ou discípulos, sair pelos quatro cantos do mundo a pregar
mediante o uso da força e até da espada o seu pseudocristianismo evangélico, que muito
pouco representa dos ensinamentos originais que Jesus pretendia transmitir para toda a
humanidade por meio dos seus incomparáveis exemplos de tolerância e amor ao próximo!
Se os discípulos de Jesus eram homens rudes e analfabetos, humildes pescadores na sua
maioria - com exceção de Paulo, que era um homem culto, tanto que durante o convívio
com Jesus tinha dificuldade para compreendê-lo - como mais tarde esses mesmos homens, de
uma hora para outra, iriam se tornar grandes missionários e fiéis divulgadores dos
princípios cristãos, sem lhes impor sérias deformações em relação aos originais?
Pelas informações que se tem dos próprios Evangelhos, parece ter sido Paulo o único
que escreveu as suas cartas ou epístolas dirigidas aos seguidores, ou pelo menos a ele
foram atribuídas!
O autor é presidente da Filial Santa
Maria, RS
Página principal | Arquivo
|