Luiz de Souza
Publicado em 15 de janeiro de 1952
À medida que um povo evolui, preocupa-se mais e mais com as suas questões
educacionais. O problema é daquelas que aferem o índice de civilização. Se
encararmos a situação atual do mundo, constataremos o baixo nível existente
do desenvolvimento intelectual. A ausência de escolas acentua-se por toda a
parte, senão que com mínimas exceções, em relação à massa total.
A uma baixa intelectualidade corresponde, via de regra, uma baixa
espiritualidade, pela falta de refinamento e controle das emoções
inferiores. As duas faculdades devem andar paralelas e equilibradas,
refazendo-se ora uma, ora outra, ou as duas ao mesmo tempo experiências
periódicas das escolas planetárias através dos milênios.
O desnível destas duas faculdades faz com que presenciemos o caos em que
vivemos, sob certo aspecto, e explica por que medram na Terra cerca de 8 mil
seitas religiosas, a maio- ria das quais a incutir no espírito humano, as
mais grosseiras concepções.
A educação intelectual, ou seja, a instrução obriga a trabalhar o raciocínio
dentro de pontos de vista comuns, daí resultando uma automática codificação
de corolários que unem, por laços afins, os indivíduos.
As guerras são expressão mais nítida de uma cegueira que reflete mau estado
espiritual, mas que têm sua origem, suas raízes profundas, no baixo nível
intelectual. O indivíduo que não estuda, não lê, não medita, atrofia, por
falta de estímulo e de exercício, as faculdades inatas do poder intelectual.
Ensinar pelo dever de ensinar, por obrigação profissional, pela necessidade
de prover o sustento próprio apenas, como meio de vida, é prática que não
resolve satisfatoriamente o grave problema educacional.
A ciência de ensinar é vocação, é qualidade transcendente, é atributo de
alto valor, conquistado, desde priscas eras, à custa de renúncia e
abnegação. Por isso, cortar uma vocação, numa prova experimental,
especialmente quando esta se liga diretamente à ciência de ensinar, é crime
inafiançável perante o juízo eterno, pelo qual se responde no seu devido
tempo.
Falta-nos, como princípio básico de educação, uma instituição oficial que
tivesse por fim o estudo das vocações. Com o devido preparo psicológico, as
vocações podem ser, nas escolas, descobertas, analisadas, e a partir daí o
governo chamar a si o encargo de, gratuitamente, promover e custear a
educação completa dos seres vocacionados.
RIQUEZA. A vocação é um talento e o talento é uma riqueza. Se de um lado
procura-se o ouro, avidamente, nas entranhas da terra, com muito maior razão
devem-se explorar os tesouros contidos nas vocações. Ainda não se deu ao
assunto, talvez por falta de reflexão, a importância que ele realmente tem.
Nenhuma outra riqueza pode ser comparada a esta que, no entanto, se perde na
sua percentagem maior, quiçá pela incúria, pelo desleixo mental, pela
nenhuma atenção que se dá ao seu verdadeiro valor.
O aproveitamento das qualidades espirituais e humanas deveria ser levado ao
máximo. Nenhuma justificativa de caráter financeiro seria de se admitir para
explicar o cruzamento de braços, ante um problema que pode ser considerado
fundamental, na ordem dos fatores cívicos, na órbita dos princípios básicos
que alicerçam a civilização.
É tempo de sairmos da era das improvisações. Improvisam-se administradores,
tirando-os de dentro de um círculo relativamente diminuto, de relações
pessoais de organismo facciosos, sem obedecer ao critério supremo da
habilitação especializada, com fundamento na vocação, em grande parte, por
falta absoluta de meios, ou pela ausência da disciplina que faculte essa
possibilidade.
O resultado é esse desequilíbrio permanente que observamos em todos os
quadrantes da atividade humana. Estamos no interior de um círculo vicioso;
os administradores não promovem o fomento vocacional; as vocações, de um
modo geral, não se revelam nos administradores.
Quando a vocação aflora, isoladamente, aqui e ali, o administrador é lançado
ao meio, quase como um super-homem, refletindo a raridade da espécie e não
se aproveitando os seus dons, na sua amplitude, por falta de equipe.
Diz o sábio adágio que "uma andorinha só não faz verão". Eis o caso. Não
temos equipe, porque a equipe se faz por seleção, e esta tem de ser operada,
se quisermos possuir uma intelectualidade capaz de governar o mundo, na
escola, no desabrochar das vocações, que devem ser estimuladas, cuidadas e
desenvolvidas, com o calor da consciência despertada e com o entusiasmo de
uma compreensão sadia.
(O autor e escritor)
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