O racionalismo e o RC

Caruso Samel

Duas filosofias: uma acrescenta os próprios princípios aos que absorveu da outra

De vez em quando sou questionado por pessoas amigas que confundem Racionalismo com Racionalismo Cristão (RC), achando que são a mesma coisa. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Este artigo tem o objetivo de dar algumas pinceladas num e noutro e mostrar as diferenças.

 Racionalismo. A arte de questionar é tão antiga quando o mundo, mas foi na Grécia antiga, bem antes de Cristo, que os questionamentos e indagações inteligentes sobre a vida e sobre o mundo tiveram início, com o aparecimento de Sócrates (470-399 a.C.). Em 450 a.C. já vicejava em Atenas uma democracia incipiente. Neste contexto, Sócrates surgiu como o personagem mais enigmático de toda a história da filosofia. Como Cristo, ele não escreveu uma única linha, mas ambos deixaram suas marcas.

Foi Platão, através de seus Diálogos, quem revelou Sócrates às gerações futuras. Predominavam, na época, os sofistas, que cobravam pelas lições de filosofia que davam. Eram os sábios da época. Ao contrário deles, Sócrates jamais cobrava pelos seus ensinamentos e dizia a todos: "O que eu sei é que nada sei". Filosofando junto ao povo, Sócrates percebeu que faltava às pessoas um alicerce seguro para seus conhecimentos, e esse alicerce era a razão humana, na qual muito acreditava. Com isso deu o primeiro passo e tornou-se um racionalista convicto. Tão fundo ele foi no uso da razão que acabou sendo acusado de corromper a juventude, motivo para sua condenação à morte, mediante ingestão de cicuta (planta venenosa).

Passaram-se mais de 2 mil anos e só nos séculos XVII e XVIII foram retomadas as idéias de Sócrates por René Descartes (1596-1650).

Descartes é considerado o fundador da Filosofia Moderna. Construiu o seu próprio sistema de pensamento, cunhando a máxima "Penso, logo existo". Descartes introduziu a concepção filosófica segundo a qual a razão é a única faculdade em condições de abrir as portas para o conhecimento adequado da realidade.

É a razão (raciocínio) que permite às criaturas perceberem as conexões e relações do ser com a realidade que o cerca, através da interdependência entre as coisas e os fenômenos dos quais elas participam. Ao mesmo tempo, o uso do pensamento, que emana do próprio ser, lhe assegura que existe plena concordância entre as duas estruturas – a da razão e a da realidade objetiva. Se assim não fosse, haveria total desacordo ou conflito entre a razão e a realidade, e nada se poderia conhecer daquilo que denominamos realidade.

Os filósofos costumam apresentar o Racionalismo sob duas concepções: uma, o racionalismo gnosiológico (de gnose, conhecimento) ou epistemológico (de epistéme, ciência, conhecimento) e o ontológico ou metafísico. Qualquer que seja a concepção adotada, o ser está sempre presente, sendo que nesse aspecto as duas concepções são inseparáveis. O certo é que a razão (raciocínio) é uma faculdade cognitiva e significa a capacidade de apreender o real e revelar a sua estrutura. Abstraindo-se da criação e produção das coisas e objetos, o conhecimento implica a possibilidade de reproduzir o real no pensamento, sem alterá-lo ou modificá-lo.

A filosofia racionalista, clássica, no século XVII, apoiava-se em dois pilares: de um lado, Descartes, que além de filósofo era matemático, tinha confiança no pensamento matemático (cartesianismo), verdadeiro símbolo da autonomia da razão, com a qual ele procurava interpretar adequadamente o mundo; de outro lado, Descartes percebeu ser necessário conferir ao conhecimento racional uma fundamentação metafísica que garantisse sua certeza sobre o seu discurso.

Foi com base nesses pilares que Descartes fundamentou a idéia basilar do Discurso sobre o Método (1637), de cujo texto central surgiu o racionalismo epistemológico e metafísico. Convém, contudo, ressaltar que a razão cartesiana embasava-se em uma longa cadeia de razões, dizemos nós, de causas e efeitos consecutivos, tratando-se, portanto, da razão lógico-matemática e não da razão vital e, muito menos, da razão histórica e dialética. Pela influência religiosa da qual não conseguiu desvencilhar-se, Descartes se convencera, também, de que todo conhecimento deriva de idéias inatas – postas na mente dos homens por Deus. Dessas últimas, trataram mais amplamente os filósofos Baruch Spinoza (1632-1677) e Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), ambos racionalistas, também. Daí poder dizer-se que o Racionalismo clássico ou metafísico não se limitava a assinalar apenas a primazia da razão como instrumento do saber, mas compreendia a totalidade do real como estrutura racional criada por Deus, concebido como "o grande arquiteto do universo". A importância do Racionalismo estendeu-se até o século XVIII e deu lugar a outra fase da filosofia moderna – o Iluminismo.

Em resumo, são devidas a esses filósofos do Racionalismo:

O uso da razão.

O uso da lógica.

O uso da vontade.

O uso do método na aquisição do conhecimento.

O respeito à metafísica, ao transcendental, ao divino (Descartes e Spinoza).

O dualismo Força e Matéria no exame dos fenômenos.

As mônadas (Leibniz) como unidades de Força atuando sobre a Matéria.

Racionalismo Cristão

Precisamos agora analisar as inovações introduzidas por Luiz de Mattos na criação do RC, em 1910, na cidade de Santos, São Paulo, Brasil.

O RC não é um grupo religioso ou espírita, na forma como o espiritismo evangélico e seitas assemelhadas são usadas para confabular com espíritos desencarnados. O RC é, antes de tudo, uma escola filosófico-espiritualista com base na encarnação/reencarnação como fontes (processos) inesgotáveis que contribuem para a evolução espiritual das criaturas. Não bastasse isso, o RC é eminentemente evolucionista, no que diz respeito à evolução da Força Inteligente e do Espírito em sua trajetória evolutiva pelo Universo. É também científico, na medida em que busca entender e divulgar as verdades eternas.

O RC não admite o sobrenatural, o misticismo e o milagre. Fundamentado na lei de causa e efeito, afirma que tudo tem uma razão de ser; daí dizer-se que nada acontece por acaso.

Na sua vertente espiritual, cabe ao RC uma grande e sublime missão: a de restabelecer a Verdade sobre as duas vidas do homem – a material e a espiritual –, e reimplantar os magníficos ensinamentos de Jesus na Terra. Com esse objetivo, o RC explica que Cristo não foi um supersanto "milagreiro", mas apenas um espírito evoluidíssimo que reencarnou em missão especial para trazer ensinamentos morais e éticos ao mundo, utilizando-se para tanto das leis naturais e imutáveis que regem o Universo.

Unindo-se os ensinamentos dos cartesianos racionalistas e os ensinamentos cristãos fica justificado o nome da doutrina racionalista cristã. O RC afirma que ninguém deve agir sem antes raciocinar, mesmo nas coisas mais insignificantes, nem tomar resoluções, por menores que venham a ser, sem antes submeter o assunto ao crivo do raciocínio. Com isso, a Doutrina aniquila o misticismo e crenças infundadas, trocando a fé pela convicção. Esse é o entendimento racional sobre as coisas sérias da vida.

O fundamento científico do RC surge do conhecimento de que Força e Matéria são os dois únicos princípios de que se compõe o Universo (o macrocosmo), princípio este que abarca também o microcosmo, nele incluídos todos os seres e todas as coisas, inclusive o homem (espírito e corpo), com a primazia do espírito, que tem vida eterna. Este, como partícula da Inteligência Universal (Deus), está submetido à evolução no homem através das reencarnações, e estende esse princípio à evolução espiritual nos planos superiores.

Filosoficamente, o RC ressalta a evolução como processo de aperfeiçoamento do espírito e seus atributos, destacando-se entre eles a inteligência, o raciocínio, a força de vontade, o poder criador e o livre-arbítrio.

Exercendo o discernimento propiciado pelo uso correto do raciocínio, o homem se utiliza do livre-arbítrio para fazer as escolhas, com responsabilidade plena, das oportunidades que a vida terrena lhe oferece. Agindo assim, com plena consciência de si mesmo, a evolução se processa, não em uma, mas em múltiplas e sucessivas reencarnações.

Dessa forma, finalizando, o Racionalismo Cristão absorveu e difunde, além desses princípios indicados, próprios dos racionalistas, mais os seguintes, entre outros:

Substitui o conceito da mônada de Leibniz pelo da Força Inteligente e do Espírito.

Reafirma e desenvolve filosoficamente o dualismo no conceito Força e Matéria como os únicos componentes do Universo.

Amplia o conceito de Deus como Inteligência Universal-Força Criadora.

ênfase especial ao pensamento como força que emana do espírito e ensina como utilizá-lo conjuntamente com o raciocínio e a força de vontade, sempre voltados para o bem.

ênfase à evolução espiritual, ao espírito e às reencarnações como forma de acelerar a evolução do

espírito.

ênfase aos atributos do espírito e seu desenvolvimento.

Destaca a necessidade de usar o livre-arbítrio somente para o bem.

ênfase à conduta, às atitudes corretas, e ao respeito aos semelhantes.

Enfatiza o respeito às leis naturais e imutáveis do Universo.

Com relação à moral, adota a moral cristã, expressa na máxima "não fazer

a alguém o que não quer que lhe façam".

Estabelece o conceito de astral inferior (espíritos desencarnados estagiando na Terra) e o diferencia do Astral Superior, enfatizando a existência de mundos astrais superiores, onde estagiam os espíritos no intervalo das encarnações ou os que não mais precisam encarnar.

(O autor é Militante da Filial Butantã - SP)

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