Racionalista cristão

Diva Paulo Guimarães

Publicado em 15 de janeiro de 1959

Euclides da Cunha tem uma frase famosa: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!” Eis uma sentença que se deveria copiar, para dizer, convictamente, que o racionalista cristão é, antes de tudo, um forte. Forte de corpo, mais forte ainda de espírito: forte para as lutas comuns, diárias, mais forte ainda nos momentos difíceis, no sofrimento, nas angústias.

Não se compreende que um conhecedor das leis imutáveis que regem a doutrina de Luiz de Mattos seja um fraco, seja sequer um simples temeroso diante de qualquer situação. Que os outros vivam a tremer de medo do que se passe diante de um fato comum, respirando ares de tragédia, que transformem episódios rotineiros em capítulos sensacionais de uma novela estranha, admite-se, mas que o racionalista cristão, consciente do que aprendeu, sabendo que dos seus pensamentos gera-se o seu próprio mundo, desenrolando-se os fatos à feição de suas ideias, seja também um vacilante, um apavorado, não se compreende, não se justifica.

Não há mistérios para quem tem capacidade de raciocínio. A vida é simplesmente isso que aí está: a felicidade de confiar em si ou a desgraça de temer ou fugir de tudo. Pensemos melhor: que adianta temer, que resultado se encontra no pavor a tudo?

O simples é caminhar de cabeça erguida, atalhando, sim, procurando meios, descobrindo fatos, mas sem medo, sem antecipar, pelo pensamento, tragédias maiores.

Há os que temem o futuro, quando ele não depende senão de nossa própria luta, de nossos constantes esforços, de nossa permanente preocupação. Há os que temem doenças, quando elas podem ser combatidas no avanço incomparável da ciência e, principalmente, pela nossa coragem, pela nossa vigilância, pelo nosso cuidado. Só o pensamento, com o seu emaranhado difícil, na sua trama espessa de confusões e problemas, se torna de terrível acesso para a própria classe médica. A Doutrina, sim – e principalmente esta que temos a felicidade de conhecer –, explica, em detalhes, as razões mais simples ou os motivos mais difíceis de se viver uma existência feliz.

Racionalista cristão que somos ou que pretendemos ser, só uma coisa nos destacará dos outros: saber pensar, agir com o raciocínio, em defesa da felicidade. Só é feliz quem não teme. Só é feliz quem passa pela vida sem medo. E o racionalista cristão age, luta, enfrenta e jamais sofre desse pavor doentio que castiga, tão violentamente, a alma, o cérebro, o corpo, a existência humana.

Que os outros sejam fracos pela ignorância do que são como espírito; nós temos obrigação de formar um outro grupo: o dos fortes, o dos racionalistas cristãos.
 

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