| A nossa
RAZÃO de ser A memória de A Razão é substituída,
nesta edição, pela carta do sr. Galdino Rodrigues de Andrade, militante da
Filial Santa Efigênia (Belo Horizonte, MG), a Luiz de Mattos. A carta, em
que o sr. Galdino demonstra elevado grau de admiração e respeito pelo
codificador do Racionalismo Cristão, revela sua apurada sensibilidade e
perspicácia na análise dos tópicos tratados por Luiz de Mattos no primeiro
editorial de A Razão.
Ao Mestre Luiz de Mattos
Venerado Mestre, quis o diretor do teu jornal mexer com os brios de seus
leitores, republicando o editorial da primeira edição de A Razão, o
que acabou, como não poderia deixar de ser, atingindo-me na parte mais
sensível de minha alma - o sentimento de gratidão.
Teu editorial, li-o em recolhimento espiritual, daí por que senti em cada
uma de suas palavras o teu bem-querer... Em cada uma de suas linhas, o traço
da tua exuberante personalidade. Em cada um de seus parágrafos, o teu viver
imaculado.
Nele, declaraste guerra à mentira oficial, ao despudor público, ao
descaramento social, ao sem-vergonhismo nacional e aos costumes dissolutos
do longínquo ano de 1916. Vi-te, com uma maestria circunspeta, redigindo a
NOTA, em que teu eclético saber era reconhecido e admirado por todos, sem
distinção de classe, pois tanto o homem público como o particular, o
profissional liberal como o trabalhador comum encontravam em ti o
conselheiro seguro, o orientador lúcido. Vi-te como aquele viril combatente
de todos os tempos. Diferente, apenas, no que tange à arma que usaste em
combates outros...
Não empunhando a espada pesada de outrora, mas a caneta gloriosa com que
tocaste na chaga nacional. Vi-te sovando os cientistas sem ciência... Vi-te,
admirável, a discorrer sobre a Inteligência Universal, retratada em suas
diversas manifestações, através de lindas páginas literárias, escritas a
pincel, como se disse alhures.
Emocionado, contemplei-te com a coragem cívica demonstrada no editorial em
que mandaste um recado duro aos poderosos do tempo de que foste
contemporâneo. Fiquei a imaginar o que dirias hoje, no tocante à
administração pública medíocre, aos conchavos políticos malsinados, à
politicagem imbecil, que envergonham a nacionalidade, arruinando o povo.
Fiquei a imaginar que conselho darias à mocidade desvairada dos piercings,
dos brincos e das tatuagens, ridicularizada por si mesma com costumes
tribais, denotando assim um estado de involução que já preocupa até os
sociólogos de plantão.
Fiquei pensando na dor lancinante que deves estar sentindo com tudo isso que
acontece na terra que a tua Doutrina escolheu como berço, vislumbrando um
paradoxo terrível que dimensiona a maldade humana, a contristadora crise
existencial... É, Mestre, o preço que a sociedade paga pelo descaso pelos
teus ensinamentos espiritualistas. Enquanto isso, a dívida moral continua a
crescer, sem nenhuma amortização, o que se dá em virtude da falta de
esclarecimento espiritual...
Mas o que parece paradoxal na acanhada visão material é - na realidade - a
constatação de que a tua Doutrina, por sua própria sublimidade, é para um
futuro ainda bem distante, tu o sabes, Mestre. Todavia este futuro pode ser
aproximado e, por isso, a dor coletiva é bendita.
No editorial que o tirocínio do diretor de A Razão republicou, com
grande oportunidade, disseste: "Impõe-se a verdade, fira a quem ferir, dita
ora com calma, com serenidade, com frieza, ora com violência, com impiedade,
com escândalo mesmo."
Acontece, porém, que a verdade de que foste apóstolo não é dita, muitas
vezes, nem por teus discípulos... Silenciando estes até por medo (?), mesmo
sabendo que o receio não é propriedade do racionalista cristão.
Andou certo, portanto, o dirigente do teu jornal, republicando o editorial
em que feriste fundo os problemas da nacionalidade, por sinal os mesmos de
hoje.
Muitos dos que lêem o teu Jornal, até com expressão de doutorice, não sabem
que o nome dele - A Razão - é a síntese dos teus ideais, do desejo que
tinhas de que as colunas dele fossem, sempre, identificadas com o bom senso,
com a justiça, com o direito, essa trilogia que, sobre ser uma aspiração
social, é o pilar da lei moral.
Apesar disso, vi-te pranteando a paralisação do teu jornal, com as tuas
lágrimas caindo no rosto de Antonio Cottas e as deste, no teu peito, naquele
amplexo de solidariedade em que ambos, como pai e filho, compartilhavam da
mesma dor, como disse, mais tarde, o teu dileto genro.
Sendo inspiração do bem comum, com o qual terá que estar sempre
identificado, o teu jornal crescerá, Mestre, sobretudo com a prosperidade
crescente de tua Doutrina, de que ele é órgão oficial. É uma questão lógica,
porque, se ela é de prática diária, o A Razão há de voltar a
circular, também, diariamente e com a grande tiragem que teve na sua
florescência, quando marcou a época áurea do periodismo nacional.
Portanto, Luiz de Mattos, podes contar com alguns abnegados, capazes mesmo
de manter acesa a chama do teu ideal, a qual, por isso, continuará, ainda
que bruxuleante, até porque é um bem que aqueles sicários sem alma, aos
quais confiaste a gerência de teu jornal, não podem subtrair-te.
Era isto, inesquecível Mestre, o que tinha a dizer-te, por inspiração de 'A
nossa RAZÃO de ser', o que fiz com uma saudade que não sei explicar,
emocionado por lembrar-me de um tempo que vivi, de pessoas que conheci, de
fatos históricos que presenciei...
É, enfim, o que foi ditado pela consciência do mais insignificante discípulo
que tens aqui no baixio lamacento da vida terrena, valor humano, mínimo, que
se agregou à tua majestosa obra espiritualizadora.
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