A nossa RAZÃO de Ser -  Luiz de Mattos

NOTA: Este artigo apareceu em 19 de dezembro de 1916. Foi mantida a grafia da época.

Por que apparecemos?

Porque é preciso reagir.

Um ideal superior, uma vontade forte decidida nos assistem e nos conduzem. A crise que atravessa a sociedade brasileira, demasiado séria para ser tratada e resolvida com palliativos e contemporizações, está a exigir remedios heróicos e enérgicos.

As palavras sonoras, as phrases e expressões amenas e convencionaes, as discertações de mero sabor theoristico, nada valem, para nada servem no momento actual, nem podem produzir resultados praticos e positivos.

Impõe-se a verdade, fira a quem ferir, dita ora com calma, com serenidade, com frieza, ora com violência, com impiedade, com escandalo mesmo.

Mais que econômica ou financeira, é moral a crise nacional.

Os detentores do poder, os responsáveis pela publica administração, abusando da ignorância, e, pois, da credulidade do povo, tem ousado os maiores desatinos e prepotências, senão crimes, sem que até hoje hajam recebido o merecido castigo, a necessaria punição.

A imprensa, em regra, vae mentindo e falseando a elevada missão que lhe foi distribuída.

Presa, por interesses nem sempre nobres, nem sempre puros, a este ou áquelle grupo político, explorador do thesouro e das classes (...........) está desvirtuada, e de órgão, que devia ser, da opinião geral collectiva, cujas aspirações e direitos são esquecidos, transformou-se em porta-voz, em arauto de corrilhos e associações mais ou menos mercantis, em detrimento da Pátria e da sociedade.

Vasto, immenso em território, o Brasil, por sua população reduzida, analphabeta e disseminada, é terra propicia para competições menos correctas e menos honestas, que já se fazem notar desde as relações de ordem política às de ordem exclusivamente commercial.

Sem ordem, sem justiça, caminhando em virtude do mecanismo inherente às proprias coisas, a sociedade brasileira poderá progredir materialmente, mas não moralmente, se uma bem acentuada convergência de vontade, e de consciência, não assumir a direcção da sua evolução para a verdade, que é o summo bem e commum.

Não alimentamos a presumpção ou a veleidade de remodelar de um jacto, e tão somente com os nossos desejos e intervenção jornalística, as ruínas que nos cercam. Não.

O que queremos é concorrer com o melhor dos nossos esforços para a regeneração dos costumes, regeneração fora da qual não há salvação possível para o Estado e para o indivíduo.

A arma predilecta de que lançaremos mão para enfrentar e combater situações, como a presente, humilhantes para as nossas tradições, offensivas para os nossos brios, prejudiciaes para o nosso futuro, será a verdade franca, rude, desenvolta. Não temos partidos nem preferências pessoaes.

Não lisonjearemos classes nem protegeremos seitas.

Criticaremos com independência, com vigor, mas seremos justos e imparciaes: daremos a cada um o que lhe pertence.

Na montanha ou na planície olharemos com o mesmo olhar attento e observador.

Vê-se, apalpa-se, toca-se o mal-estar que nos affecta.

Todos soffrem, todos padecem, todos se queixam e, entretanto, há falta de coragem para proclamar, alto e bom som, e à luz meridiana, as causas dos nossos infortúnios e desgraças, assistindo nós impassíveis e em attitude de resignação doentia e estéril, às calamitosas conseqüências, e aos damninhos effeitos destas mesmas causas.

Democracia de fancaria, sob governos creados e mantidos pela força e pela fraude, sujeita ao arbítrio de syndicatos políticos que a opprimem e extenuam, a nação brasileira, que só existe para pagar impostos, e para supportar os caprichos e as violências de seus senhores, é apenas uma expressão geographica, vasia de sentido político ou social.

Succedendo-se uns aos outros, quer na União, quer nos Estados, por combinações e injuncções reprovadas e mesmo consentâneas com a índole democrática do regimen, e a que muitas vezes não são extranhos os subalternos interesses, privados da ramma, os nossos governantes nada têm de commum com o povo, que, na audácia, dia a dia, estimulada pela impunidade, consideram mero objecto de experiências in anima vili.

Entre governantes e governados nenhum ponto de contacto, nenhuma troca ou permuta de idéias e sentimentos.

Dahi a separação absoluta, a divergência, a discondancia da nação com os seus pseudos dirigentes, e que a continuarem nos conduzirão à escravidão ou à revolução.

É para sahir disto, e para evitar o trerrivel e ameaçador dilemma, que A Razão appareceu e quer trabalhar, offerecendo o seu concurso, e o seu auxilio, a sua coadjuração a todos os homens bem intensionados e de boa vontade, no combate aos grandes males que affligem a sociedade brasileira, sedenta de justiça, de direito e de verdade, únicos remédios capazes de cural-a da intoxicação, quase chronica, de iniqüidades, violências e mentiras, fornecida e propinadas pelos maus patriotas, pelos profissionaes da política e pelos muitos desprovidos de senso moral que por ahi pullulam e vicejam.

Realizaremos o nosso programma? Talvez.

A lei que preside às sociedades humanas, como todas as leis da natureza, é inexorável e irredutível.

Ha uma finalidade em todas as coisas: o desenvolvimento e a perfeição.

Os embaraços, os obstáculos de instante podem atrazar, mas não entravam para sempre a marcha ascensional para o progresso e para a civilização.

Tenhamos, pois, fé e confiança. Lutemos.

Luiz de Mattos
 

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